terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PASSARINHO

PASSARINHO

Meu amor, meu andorinho,
Voa sem medo, a direito,
Traça agora o teu destino,
Escolhe o teu rumo perfeito.
Faz-te depressa ao caminho.

Foi-se o frio, a tempestade.
Tenta não perder o tino,
Voa lesto nesta aberta… 
Cá te espero, com saudade,
Sou a tua sentinela,
Não te abro fresta nem porta
Por ter sempre uma janela
Sem grades nem rede fina,
À entrada do meu peito,
Entreaberta, pequenina,
Sempre à espera de te ver,
Meu amor, meu passarinho,
Pousar no meio dos meus braços
E fazeres aí o ninho.

Cidade das Nuvens (sine data)


AFINAL, EM PORTUGAL, HÁ OU NÃO CORRUPÇÃO?

Afinal, em Portugal, há ou não corrupção?
Cândida Almeida: “Onde há poder, há corrupção”.
Num artigo, da autoria de Carlos Rodrigues, publicado no “Diário de Notícias” de 26 de março de 2009, podíamos ler estas afirmações de Cândida Almeida, nessa data, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal:
 “A penalização do enriquecimento ilícito é fundamental para a existência de um Estado transparente “perante a exibição pública de poder e de dinheiro de um pequeno grupo cada vez mais rico que afronta a sociedade”, disse hoje Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal.”
(…)
Para Cândida Almeida, acabar com a corrupção é uma tarefa impossível. “Onde houver poder, há corrupção. A nossa tarefa é controlá-la, mantendo em níveis aceitáveis.”
(…)
“Uma população menos qualificada, menos crítica, menos atenta, facilita a oferta de decisões ilícitas.”
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1182233#AreaComentarios)
Para Cândida Almeida, a corrupção não deve ou não tende a deixar de existir. Deverá continuar a haver, seguramente, mas em níveis aceitáveis. Cómica, esta afirmação!
O que são níveis aceitáveis? Numa escala de 1 a 10, por exemplo, o que considerará a ex-diretora do DCIAP como um nível razoável?
Na sua perspetiva, pelos vistos, é uma população mais qualificada, crítica e atenta que impede decisões ilícitas. Ou seja, quando há corrupção entre as classes do poder, e esta hipótese não é totalmente afastada por Cândida Almeida em todas as suas decalarações (“onde há poder há corrupção; não há corrupção entre a classe política, mas a haver, é residual; não deve haver corrupção, mas se houver que seja em níveis aceitáveis”), essa terrível mazela entre a elite governativa  fica a dever-se, implicitamente, não ao perfil desonesto, indigno, imoral e torpe do indivíduo que pratica ações ilícitas (branqueamento de capitais, fraude fiscal, favorecimentos, tráfico de influências, corrupção, uso abusivo do erário público, etc.), mas da população, em geral, que, na opinião da ilustre magistrada, dr.ª Cândida Almeida, é acrítica, pouco qualificada, politicamente ignorante, desatenta e indiferente aos rumos de quem governa. Em resumo, é à grande maioria da população que deve ser imputada a culpa da corrupção, quando ela existe e judicialmente fica comprovada enquanto prática ilícita de um ou outro governante, oportunamente, apanhado ou caído nas malhas da judiciária e da justiça.
(http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1182233#AreaComentarios)
Mais recentemente, a dr.ª Cândida de Almeida, depois de uma esforçada análise sobre esta matéria tão preocupante para qualquer instituição que exerce a ação penal e vela pela defesa da legalidade democrática e pela promoção do acesso dos cidadãos ao direito e à justiça, assume publicamente que “a corrupção não existe”. Ainda na qualidade de diretora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), foi à Universidade de Verão da JSD proferir uma oração de sapiência sobre a sua especialidade. Na preleção, a magistrada, a fazer fé na comunicação social, disse "olhos nos olhos" aos jovens sociais-democratas que "o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos".
(http://apodrecetuga.blogspot.pt/2014/10/nao-ha-corruptos-em-portugal-diz.html)
Entretanto, a dr.ª Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, parece ter uma opinião bem diferente e deixa bem clara a sua posição sobre este assunto: “elege como prioridade o combate à corrupção que “mina o Estado de Direito” e a recuperação da credibilidade do sector.”
(http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/politica/detalhe/paula-teixeira-da-cruz-combater-corrupcao.html)
De igual modo, e contrariamente a Cândida Almeida, o vice-presidente da Associação de Integridade e Transparência, dr. Paulo de Morais, garantiu hoje que a crise económica em Portugal não se deve ao facto de os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades, mas aos fenómenos de corrupção. Na sua opinião, expressa sobre a "Origem da Crise" numa conferência onde se discutiu o “Modelo do Estado Social”, promovida pela Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal, "grande parte da dívida pública e privada é fruto da corrupção e não dos alegados excessos dos portugueses. (…) O que o Estado pagou a mais às PPP só é possível porque a sede da política - Assembleia da República - está transformada num centro de negócios". (…) A aquisição de dois submarinos à Alemanha é, segundo Paulo Morais, mais uma caso de "corrupção comprovada", não pelos tribunais portugueses, mas pelos tribunais da Alemanha.(…) Na Alemanha há pessoas [acusadas de corrupção] a dormirem todos os dias na cadeia.”
(http://www.jn.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3197601&page=-1)
Marinho Pinto, ilustre jurista, ex-bastonário da Ordem dos Advogados e fundador do PDR (Partido Democrático Republicano), também no seu jeito muito peculiar de fazer política, vem denunciando o que toda a gente sabe existir e até agora ninguém ou muito poucos têm conseguido provar; segundo ele, há corrupção, e muita, entre a classe política e entre governantes e empresários com ligações profundas ao Estado. 
Curiosamente, porém, tal como a dr.ª Cândida Almeida, o dr. Marinho Pinto vai dizendo que “o povo tem os governantes que merece”, já que elege gente com antecedentes pouco fiáveis, com processos de suspeição em curso, com condenaçoes no currículo. Na sua opinião, “O povo não é exemplar nas opções políticas que faz”. Embora essa razão não justifique a venalidade de nenhum político, seja ele governante ou não, a verdade é que um povo sem consciência política é facilmente ludibriado e, numa democracia indireta como a nossa, acaba por delegar o seu poder em representantes que, muitas vezes, cuidam apenas dos seus interesses, atropelando ou corrompendo os supremos objetivos para que foram eleitos: governar com inteligência, isenção, honestidade e sentido ético e moral. Uma população, assim, que apenas manifesta e expressa a sua desilusão e o seu descontentamento em surdina e tolera todos os desmandos, apesar de se sentir mal governada, abstendo-se de votar ou alimentando a fatídica e gasta alternância político-partidária, elegendo em cada ato eleitoral os governantes que puniu quatro anos antes, como se os mesmos, passado este interregno, se tivessem reabilitado dos seus vícios, incompetências e limitações, corre o risco permanente de apostar, não em gente competente e séria, mas em mercenários, ineptos e corruptos, dos quais jamais se poderá esperar uma governação eficaz, saudável e sensata. 
Todas as semanas, ou quase todas, se destampa mais uma “Caixa de Pandora”. A semana passada, no decorrer da Operação Labirinto, centrada sobre os Vistos Gold, num “pré-julgamento” relâmpago, …coisa nunca vista em Portugal, onde a maior parte dos processos envolvendo “gente de colarinho branco” prescrevem e não dão em nada,… foi colocada uma série de altas figuras da vida pública portuguesa em prisão domiciliária e sob prisão preventiva, nos calabouços da PSP, sem apelo nem agravo.
Poucos dias depois, destampa-se outra e sai dela José Sócrates. A braços com a justiça, alegadamente, por fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, encontra-se detido em prisão preventiva, a aguardar julgamento. Ainda que muitos desejem firmemente a sua condenação, sem dó nem piedade, a verdade é que o único julgamento a que foi sujeito foi o da opinião pública, e a esse, que o terá assassinado politicamente, já ninguém o poupa. Mas será que o cidadão José Sócrates, porque foi ex-Primeiro Ministro, não tem direito a um julgamento imparcial e justo?
A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 em seu artigo XI, 1, dispõe: “Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa”.
O sistema judicial nunca correria o risco de sujeitar uma figura mediática como José Sócrates a uma situação de desfiguração pessoal e política tão dramática, acreditamos nós, se não tivesse a certeza plena de que ele “tem mesmo culpas no cartório”. Seria um descalabro total para a cotação dos nossos magistrados e um escândalo ainda maior para a imagem dos tribunais e do próprio Estado português, se viesse a comprovar-se a sua inocência, depois deste tremendo aparato em torno da sua detenção. Todavia, a prisão preventiva de Sócrates causou-nos perplexidade mas, a par disso, a quebra ou violação do segredo de justiça, que em Portugal começa a ser uma doença judicial crónica, preocupa-nos ainda mais. A comunicação social, é claro, aproveitou para fazer um “festival” em torno da prisão do visado. O tratamento conferido a José Sócrates, quer pela justiça quer pelos “media”, tem sido, efetivamente, personalizada e requintadamente humilhante e punitivo, tendo em conta o desvelo “extremoso” concedido a Ricardo Salgado e o moderado grau de punição atribuído, por exemplo, a Isaltino de Morais, a Oliveira e Costa, aos recentes envolvidos no caso dos Vistos Gold e, até agora, a Duarte Lima, também eles considerados como agentes responsáveis por crimes graves de fraude fiscal, branqueamento de capitais, atos de corrupção e uso indevido de dinheiros públicos e privados. Será que a justiça portuguesa dispõe mesmo de dois pesos e duas medidas, como muitos lhe apontam?    
A acreditar que os tribunais portugueses poderão, finalmente, vir a garantir uma criteriosa, isenta, justa, imparcial e continuada prática de justiça e que a espada de Dâmocles acabará por cair em cima de ricos e pobres ou de cidadãos comuns e de figuras públicas com o mesmo gume preciso, afiado e célere, a corrupção tem os dias contados e, então sim, talvez venha a reduzir-se a níveis aceitáveis, como dizia a drª Cândida Almeida.
Suspeitamos que, nesta onda de saneamento judicial do país, aparentemente, visando a reabilitação moral da vida política e governativa, dirigida, pela primeira vez, a altos cargos da administração pública e a figuras de grande notoriedade social, viremos a ter mais surpresas.
Mas a que se deverá esta revoada de purificação na “República” que muitos apelidam “das bananas”? A uma consciência renovadora do poder judicial, isento, equitativo e justo, cumprindo escrupulosamente o seu dever, ou a revanches partidárias entre as habituais forças que, alternadamente, assumem o poder, dispostas a arrasar politicamente os adversários mais incómodos e com telhados de vidro mais quebráveis?  
Qualquer coisa parece estar a mudar neste Oásis, pelos vistos, menos socrático do que outrora, ou neste jardim imaculado da dr.ª Cândida de Almeida, onde talvez haja mesmo alguma corrupção, e não tão residual como ela apregoava.
Aguardemos pelos próximos episódios.
João Frada  


sábado, 22 de novembro de 2014

ARAGEM

Manhãs sombrias,
Vento nordeste,
Tardes vazias,
Ecos perdidos
Da minha voz…
São os meus dias
Assim vividos,
Frios e sós.
Outono triste
Que me enregela,
Feito de neve
Que se acastela
Dentro de mim,
E traz em breve
O frio inverno
A morte, o fim.
Mas, soam grilos,
Canta a cigarra
Sem temperança
Outra alvorada
Cobre o jardim.
De tanto ouvi-los
nesta algazarra
inesperada
nasce uma esperança 
dentro de mim.





sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DOENÇAS INFECCIOSAS

Doenças infecciosas mais mortíferas na sociedade planetária, ao longo da História, e respectivas respostas sanitárias para a sua erradicação ou contenção.

PREÂMBULO. IN: FRADA, João – Pandemias de Gripe A (H1N1) em Portugal (1918-2009): ecos e cismas do passado no presente. 2ª edição bilingue (Português/Inglês). Lisboa: Clinfontur edições; 2012. [Texto revisto e atualizado]

PARTE I

“As epidemias marcaram, desde sempre, os ritmos da Civilização. E não só determinaram importantes transformações no processo cultural, mental e técnico do Homem (sempre movido pela sua natural tendência em compreender e controlar todos os fenómenos mórbidos), como ocasionaram, enquanto factores de natureza epidemiológica e demográfica, alterações profundas nos sistemas sociais, políticos e económicos.
Os reflexos, imediatos e tardios, resultantes da acção da peste negra de 1348 sobre a sociedade medieval são, para grande número de historiadores, o exemplo mais paradigmático do que acabámos de dizer.
Fortemente estruturado na Igreja e nos seus valores e, como é óbvio, no próprio feudalismo (em Portugal, sem grande expressão), o modelo de vivência medieval, não restam dúvidas, entrou em falência quando as populações, ceifadas pela terrível epidemia, foram desaparecendo e quando os sobreviventes passaram a interrogar-se sobre a inconsistência dos velhos dogmas e certezas, especialmente inerentes à saúde e à doença. Duvidando da imunidade garantida pela mística e pela fé cristãs, ousando pôr em dúvida a teoria do contágio por desígnio divino(1), os espíritos mais insatisfeitos da Baixa Idade Média identificavam-se já com uma nova forma de pensar, em suma, com um novo Homem.
A varíola, também ela um flagelo ao longo de séculos, originando a morte ou deixando marcas terríveis no corpo e no rosto das suas vítimas (a célebre cabeça mumificada do sacerdote egípcio de Amon é, decerto, um dos testemunhos mais antigos da sua acção lesiva), seria, finalmente, dada como extinta em 1977. Os primeiros passos da medicina com vista à sua definitiva contenção viriam a pertencer a Edward Jenner, o qual, depois de ter verificado a imunidade dos tratadores de vacas contra a varíola, realizou com êxito, em 1796, a primeira vacinação contra a doença. Desde então até aos finais dos anos 70, a comunidade internacional, através de programas e acções planificados pela Organização Mundial de Saúde (instituição especializada das Nações Unidas, fundada em 1948), entre os quais se destaca o PAV (Programa Alargado de Vacinação), viria a conseguir a erradicação completa da doença no Planeta. Cólera, febre amarela e tuberculose, também estas entidades têm constituído e são, ainda hoje, um sério desafio para todos os agentes da saúde mundial. Ao longo de um século de medicina científica desenvolveram-se vacinas e fármacos com grande eficácia terapêutica. Estes ganhos e avanços da medicina, em contraste gritante com as condições médico-assistenciais e o nível higiénico e sanitário que caracterizavam a Idade Média e grande parte da Época Moderna, por si só, deveriam constituir um factor limitativo ao aparecimento de surtos epidémico-pandémicos de natureza viral ou bacteriana, na contemporaneidade. Todavia, os mesmos mecanismos geradores das crises demográficas do passado mantêm-se hoje presentes e assumem-se, porventura, como factores tendencialmente reguladores do tremendo desequilíbrio verificado no binómio recursos-população, já pressentido e formulado por Malthus nos finais do século XVIII. Os críticos do malthusianismo defendem que o autor setecentista do Ensaio sobre o Princípio da População e as suas ideias não só entraram, rapidamente, em decadência como se tornaram inaplicáveis à realidade do século XX, «paradigma da industrialização, do desenvolvimento e do bem-estar».
As novas estratégias políticas, teoricamente, tenderão a conciliar medidas económicas com medidas demográficas, a produção será desenvolvida e racionalizada. O emprego, apesar de nunca pleno, tenderá a ser superior ao desemprego, o subsídio de desemprego e as reformas assegurados e as reformas assegurados pelo Estado-Providência evitarão as condições de miséria e de fome, e o nível de vida razoável das populações, desfrutando, nestas circunstâncias, de uma medicina social cada vez mais evoluida e apoiada no planeamento familiar e em cuidados de saúde primários criteriosamente estabelecidos, conduzirá, invariavelmente, à negação do malthusianismo pessimista.
No entanto, o desemprego no Ocidente sobe em crescendo e o aumento da longevidade, a diminuição da natalidade e a senilização populacional põem em risco, cada vez mais, as garantias de continuidade do Estado-Providência. À medida que se criam novas soluções, a população, senil em grande número, cairá na indigência e na miséria e constituirá, por isso mesmo, um alvo predilecto das mais diversas doenças e epidemias. Mas se, por enquanto, a célebre tetralogia carestia/fome/imunodepressão/doença não parece ser no Velho Mundo, com uma produção excedentária, um factor endógeno responsável por graves crises demográficas, já o mesmo não acontece no Terceiro Mundo. Apesar dos esforços envidados pelos países desenvolvidos e do sério empenhamento de muitas organizações intergovernamentais e não governamentais, envolvidas na procura e implementação de estratégias e soluções capazes de minimizar o tremendo desequilíbrio económico e social visível entre os povos do chamado eixo Norte-Sul, a verdade é que os países do Norte continuam mais ricos e os do Sul vão ficando, cada dia, mais pobres.
As guerras, as secas, as inundações, as pragas, a carestia, a fome e as epidemias são, actualmente, um cenário comum entre as comunidades dos países «ditos» em via de desenvolvimento.
Nesta «aldeia global», crises, doenças ou quaisquer outros problemas surgidos em locais mais ou menos recônditos e isolados, mercê de uma dependência internacional cada vez maior e, ao mesmo tempo, de uma enorme facilidade de comunicação e movimentação de homens e animais, podem alastrar rapidamente a todos os continentes desencadeando, por vezes, perturbações de reflexos gigantescos.
Os microrganismos, que não conhecem fronteiras, circunstancialmente irrompidos dos seus habitats naturais e instalados nos seus habituais hospedeiros, homens e animais, vão assim circulando livremente de país para país, de continente para continente, gerando, cada vez com maior frequência, estados de alarme e de preocupação bem demonstrativos da grande vulnerabilidade de todo o ser humano e de todas as sociedades a estes agentes.
As doenças de carácter infecto-contagioso provocadas pelo vibrião do Cólera, pelo vírus de MARBURG ou pelo vírus ÉBOLA, este último responsável, em 1995 e em 2000, por um considerável número de mortes na África Central e Equatorial, constituem a prova inequívoca de que, mesmo nos finais do século XX, início do século XXI,  a Humanidade e a ciência médica não têm conseguido controlar, por completo, os agentes patogénicos, sejam eles vírus, bactérias, fungos ou protozoários.
E mesmo quando a medicina julga dispor de soluções preventivas e/ou curativas para tais doenças e a imunidade passiva ou activa parece poder garantir algumas certezas para «amanhã», a instabilidade etológica e ecológica da Natureza determina constantes alterações imunogenéticas, quer em hóspedes quer em hospedeiros, e tudo parece voltar ao ponto zero.



PARTE II

Há, claramente, populações melhor imunizadas do que outras contra determinadas doenças.
Na Época Moderna, por exemplo, os Europeus (Espanhóis, em particular), rumando a outros continentes, levaram consigo sarampo, gripe, rubéola e outras entidades mórbidas com as quais facilmente conviviam, desde há séculos, sem grandes problemas. Desconhecendo, em absoluto, a carga potencialmente letal que transportavam – microrganismos, alguns deles, de grande virulência –, contagiaram as comunidades do Novo Mundo (Incas, Aztecas e Maias), as quais, sem defesas imunitárias contra tais agentes, acabariam por ser praticamente dizimadas.
Dispomos hoje de estudos que consideram, inequivocamente, a acção daquelas impremeditadas armas biológicas sobre as populações ameríndias, na Época dos Descobrimentos, como tendo sido mais mortífera do que a própria guerra.
Uma vez que não ficou ainda completamente provada a nova teoria de Acuna-Soto sobre a causa de extinção dos cerca de 22 milhões de Astecas, desencadeada por um terrível surto epidémico de febre hemorrágica, devido à acção do vírus cocolitzli, agente patogénico até agora não observado/identificado pela microbiologia, resta-nos a velha convicção de que a morte desta Civilização se ficou mesmo a dever, em grande parte, à acção de doenças arrastadas pelos europeus para o continente Sul-Americano. (2)
A razia demográfica observada entre as comunidades autóctones da América Central e da América do Sul na Era Colombiana, detentoras de conhecimentos técnicos consideravelmente evoluídos para a época e dispondo de exércitos numerosos e bem preparados, só parece, pois, poder ser compreendida pela debilidade que as doenças bacterianas e virais de índole europeia terão desencadeado sobre os seus organismos, sem o mínimo de imunidade contra tais agentes patogénicos, até aí desconhecidos naquele sistema ecológico. Hoje, a medicina dispõe de um arsenal de conhecimentos e de uma logística que pretende ser coordenada, eficaz e actuante, quer através de mecanismos normais accionados por cada Estado, quer pela própria OMS, esta última responsável por uma alargada estratégia sanitária, cobrindo todas as áreas do Globo.
Assim, nesse esforço conjugado de políticas de saúde desenvolvidas, sobretudo a partir de 1948, o século XX caracteriza-se por uma extensa actividade no domínio preventivo, com vista a reduzir os elevados custos desencadeados pelas doenças e pelo elevado número de mortes registado, especialmente, nas regiões tropicais. Esta vastíssima acção no domínio higiénico e sanitário tem-se centrado na implementação de programas de vacinação massiva (PAV--OMS), nas regulamentações relativas à alimentação e às condições de habitação, nos controlos de fronteiras, nas campanhas de desratização e de desmosquitização (as campanhas desenvolvidas pelos Portugueses em África, contra o paludismo e contra a doença do sono, reduziram significativamente o impacto destas terríveis enfermidades sobre as populações), no saneamento das águas de consumo, na difusão de regras elementares de higiene pública e doméstica e no estabelecimento de convenções de natureza sanitária entre os mais diversos países que compõem o sistema internacional. Todavia, a eficácia desta acção preventiva multidireccional só é observável se, dentro e fora de cada país, reinarem a ordem, a paz e a segurança e as populações puderem dispor de um mínimo de recursos para garantirem uma vivência relativamente condigna.
Neste «grande pátio», onde parecem conviver todos os países, basta haver um que caia ou viva na desorganização e na pobreza temporária, geradas pela anarquia económica, por calamidades ou guerras, e os fenómenos epidemiológicos de natureza infecciosa, de relativamente endémicos e controlados, passam a epidémicos e acabam, quantas vezes, por assumir proporções devastadoras. Os países mais desenvolvidos, de um modo geral melhor equipados medicamente, respondem com grande eficácia e prontidão a esses surtos ou crises. Mas um país pobre, Africano, Sul-Americano ou Asiático, cuja população é, seguramente, mal equipada no domínio médico-sanitário, subnutrida e imunitariamente frágil, sentirá com maior violência a crise demográfica despoletada por qualquer epidemia.
Se até agora a medicina tem conseguido suster no limes ou "fora de portas" essas ameaças, cada vez mais frequentes no Terceiro Mundo, e o desenvolvimento da imunoterapia e da engenharia genética nos deixa antever, para um futuro relativamente próximo, a produção de armas terapêuticas (anticorpos, soros e vacinas) contra os demais antigénios, as certezas de amanhã quanto ao comportamento dos microrganismos são, para nós, uma incógnita. Tal como o ser humano vai sobrevivendo, criando novos recursos e imunidades contra os agentes mórbido-letais que pululam à sua volta, também a Natureza evolui e, durante esse processo, todas as outras espécies vivas, incluindo as patogénicas, sofrem constantemente transformações a nível genético. Deste modo, os genótipos mais favorecidos, quando encontram um terreno favorável, independentemente dos esforços de contenção ou de controlo médico-científico, podem determinar autênticas razias, parecendo reflectir, em alguns casos, uma acção aparentemente reguladoro-demográfica. Ter-se-á, pois, de admitir que os recursos terapêuticos de ponta surgidos entre os finais do século XX e o século XXI, pura e simplesmente, tem sido e continuarão a ser ultrapassados por estes agentes patogénicos, perfeitamente adaptados e sempre situados, podemos dizê-lo, um passo à frente da medicina científica.
Nesta visão algo sombria, mas real, do Mundo, em que a redistribuição de recursos não funciona e em que perecem, diariamente, milhares de pessoas (directa ou indirectamente devido à fome e à miséria), enquanto não surgir uma nova geração de homens-máquina, resistentes a tudo e capazes de substituir o homo sapiens em toda a sua dimensão vivencial, os microrganismos responsáveis por surtos epidémicos ou pandémicos irão continuar a exercer a sua acção mórbida e letal.
Teoricamente, as políticas de saúde desenvolvidas por todos os Estados do século XXI, a par dos esforços desenvolvidos por múltiplas organizações sanitárias espalhadas e activas em todos os continentes, deveriam ser mais do que suficientes para controlar, prevenir e minorar quaisquer riscos epidémicos, poupando assim as populações aos dramas e ao temor que, outrora, pesavam no quotidiano social. [Mas as certezas e previsões no domínio da microbiologia e da parasitologia, apesar dos grandes avanços científicos, nunca virão a ser possíveis de estabelecer com rigor absoluto. Futurologia, neste domínio, como noutros, é ainda matéria  hermética e intransponível para a ciência. Todavia, ponderar sobre a enorme possibilidade de expansão de uma doença tremendamente infecciosa, como o ÉBOLA, perante as miseráveis condições sociais e higiénico-sanitárias dos povos onde esta e outras patologias infecciosas são, desde sempre, constantes flagelos, não é um exercício intelectual tão transcendental. Adivinha-se, a qualquer momento.  Este último surto  viral, em 2014, bem demonstrativo das fragilidades e incapacidades sanitárias, quer dos países onde a doença é endémica quer da própria sociedade ocidental, tecnológica e medicamente mais avançada, é a prova irrefutável dessa imprevisibilidade tão inquietante.
A sociedade Ocidental, pontualmente alvejada pelo vírus, acordou para o perigo eminente de uma epidemia incontrolável e, apoiada na OMS e nos seus próprios serviços sanitários, apressou-se a definir, não só, protocolos de controlo e prevenção epidémica, dentro e fora das suas fronteiras, como decidiu, finalmente, envidar esforços redobrados na produção e ensaio de novos antivíricos e fármacos, com algum sucesso (Favipiravir, Brincidofovir, Zmapp, TKM–Ébola). Temporariamente, o perigo parece ter sido debelado. Mas, enquanto houver miséria e iliteracia como aquelas que caracterizam grande parte das sociedades africanas, qualquer patologia infecciosa local pode virar epidémica ou pandémica.]      
Neste Planeta, marcado por profundas diferenças sociais e económicas,  grassarão, inevitavelmente, as velhas doenças e virão, decerto, a aparecer e a difundir-se novos microrganismos com carácter virulento. Nessa medida, o esforço de combate farmacológico e terapêutico assumido pela medicina poderá vir a ser debalde. Os recursos médicos e tecnológicos poderão, de facto, periclitar perante tais flagelos. A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) é disso exemplo.
Quando a ciência não parece dispor de qualquer saída medicamentosa, curativa ou profiláctica, para o combate de uma doença que se assume epidémica e mortífera, uma vez mais, a velhíssima medida da quarentena (cumprida por inteiro ou reduzida), instituída durante a Idade Média como a melhor regra preventiva contra a peste, volta a funcionar com eficácia. Isolam-se os doentes ou os suspeitos de contágio. Circunscrevem-se o espaço e os contactos dos contagiados ou que se julga estarem contaminados. Barram-se os acessos a regiões, locais ou países afectados. Fecham-se fronteiras e aeroportos.
Vigiam-se portos e todos os pontos de entrada e de saída. Obrigam-se a fundear e a permanecer ao largo as embarcações oriundas de áreas contagiadas, em regime de quarentena. O tempo define e resolve tudo. Funciona a selecção natural. Morrem os mais débeis. Convalescem e curam-se os mais resistentes com ou sem apoio médico-farmacológico. Cometem-se exageros quando, porventura, se estabelece o corte radical, ainda que temporário, de comunicações com países e comunidades onde a doença prolifera; revivem-se temores e fantasmas de sabor medieval e dissolvem-se, com frequência, os laços e o sentido da humanização e da solidariedade, quer enquanto valores individuais, quer enquanto expressão colectiva.
Por maior evolução que a ciência médica apresente e as técnicas ao seu serviço possibilitem, o ser humano ter-se-á de confrontar sempre com novos desafios, doenças e flagelos, explicáveis ou não à luz da epidemiologia do seu tempo. Nesse duelo permanente, para além dos velhos ensinamentos que a voz da experiência colectiva foi firmando e dos recursos disponíveis à satisfação das exigências de cada época, há princípios indeléveis que, hoje e sempre, são o garante da continuidade e da sobrevivência do Homem, conferindo-lhe um lugar ímpar no reino animal: tolerância, altruísmo, humanização, solidariedade e cooperação.
Só através da orientação ou definição de um estilo de vida inteligente e ecológica e de uma união eficaz de esforços e vontades, a nível intra ou extra-planetário, o «homem de amanhã» pode fazer face aos microrganismos virulentos ou a quaisquer outros agentes patogénicos, velhos ou novos, de carácter epidémico ou não.
Mas se o futuro é, em si mesmo, um enigma neste domínio, as certezas do presente não deixam margem para dúvidas e requerem toda a nossa atenção: em todo o Mundo morrem anualmente mais de 75 000 000 de pessoas, devido a doenças infecciosas. Talvez seja este o preço que a Humanidade terá sempre de pagar à Natureza, pela forma como nela se integra e dela se serve, ameaçando e destruindo, constantemente, elementos vitais à sua natural dinâmica e harmonia e pondo, assim, em causa alguns dos principais mecanismos responsáveis pelo equilíbrio ecológico global.”

(1) Coevos da grande peste negra de 1348, dois médicos hispano-árabes terão sido as primeiras vozes a discordarem das explicações místicas, pré-racionalistas, atribuídas à contagiosidade da doença. Ibn Al-Khatib, numa obra sua, "Compendium de epidemia per Collegium Facultatis Medicorum Parisiis ordinatum", considerado dos primeiros tratados descritivos da peste, põe pela primeira vez em causa a etiologia divina da mesma e avança com a possibilidade de o contágio se poder processar através do contacto com objectos pessoais do doente, ideias não só originais como heréticas, naquela época. Um outro físico, Ibn Khatimah, com uma larga experiência clínica no tratamento de empestados, conclui também que a doença é altamente contagiosa, já que, com grande probabilidade, um indivíduo em contacto com um pestoso acaba por contrair as mesmas queixas: «se o doente expectorava sangue, o contagiado fazia o mesmo (peste pulmonar); se o pestoso era bubónico, o segundo também o seria» (ROQUE, Mário da Costa - As Pestes Medievais Europeias e o «Regimento Proveitoso contra a Pestenença». Lisboa/Paris: Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português; 1979. p. 59-60).

(2) What killed the Aztecs? (http://www.solopassion.com/node/1304).

João Frada
Professor Universitário (Ph.D.) da FML


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Passos Coelho e as suas teimosias

Marcelo Rebelo de Sousa: «Teimoso como é, Passos não vai fazer nenhuma remodelação»

Passos Coelho é teimoso, firme e inabalável nas suas atitudes e decisões, diz o Professor Marcelo de Sousa e afirmam outros analistas. E não vai alinhar nem em remodelações nem em reformas do Estado. Não há dúvida. Os que esperam ver ousadias dessas, podem esperar sentados. 
É pena, realmente, que essa determinação e firmeza governativas não sejam orientadas para iniciar a esperada remodelação, depois de uma tão intensiva programação do “Perdoa-me” governamental, na qual outros ministros ainda podem vir também a ser tentados a participar, e brilhariam certamente, quanto mais não seja pela sua enorme capacidade de improviso, patente em todo o seu percurso governativo. 
A par disso, tem faltado também a Passos Coelho a vontade de se aplicar com a necessária perseverança no controlo do descalabro das despesas públicas. Reduzir drasticamente as "gorduras" do Estado, os gastos supérfluos, as despesas exageradas com a manutenção de privilégios de todos os altos cargos da administração pública e de instituições ligadas ao mesmo Estado, deveria  constituir o objetivo supremo da sua teimosia. Aí, sim, é que Passos Coelho poderia dar azo à sua insistente obstinação, erradicando de vez esse cancro que tanto pesa nas contas públicas. Mas, comprende-se que não o faça, já que nesta fatídica alternância governativa, do ora agora  mando eu ora agora mandas tu, o “inteligente” licenciado Passos Coelho tem bem a noção do que ficará a perder quando passar, mais dia menos dia, a enfileirar as hostes da oposição. Mais vale não mexer nestas áreas tão sensíveis, senão pode pôr em causa as compensações tão generosas de tanta gente e as dele próprio. E é capaz de já não poder contar com outros “prémios de representação” como aqueles que recebeu, in illo tempore, da Tecnoforma. Por isso, é melhor não se exceder na pertinácia. Ir por aí teria altos custos políticos, os quais, seguramente, não deve estar disposto a pagar. 
Extinguir vícios e reduzir mordomias a toda a classe política, enfrentar notáveis que o colocaram e mantêm no poder, mexer em poderes instalados, rever contratos ruinosos do Estado, equilibrando assim as despesas públicas, sem ter de carregar impostos sobre a grande maioria dos portugueses, isso, não irá fazer parte da sua persistente e inflexível ação governativa. Que ninguém duvide. E se tem de afirmar a sua tão rígida e esforçada mão de ferro, não afrouxando a soga do país, pois hão de ser os mais dóceis e fáceis de domar que virão a sofrer a tirania da sua teimosia. Corre menos riscos. Pensa ele. 
João Frada 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

AUMENTAR OU REEMBOLSAR A FUNÇÃO PÚBLICA ESPOLIADA: EIS A QUESTÃO?

“O secretário de Estado do Orçamento, Hélder Reis, afirmou hoje no Parlamento que, canalizar o aumento adicional de receita para redução de despesa implicava não pagar salários à função pública, uma opção que o Governo não considerou.”
Claro está que esta, agora, “generosa” decisão de pagamentos destinados, como o Senhor Secretário de Estado Hélder Reis diz,  a funcionários públicos, supostamente usufruindo de estatuto de segunda categoria, em termos de vencimentos, para ele, Secretário de Estado, parece até que não vem a contemplar também os outros funcionários da administração pública a que ele próprio pertence! Ministros, secretários de Estado, deputados, altos cargos governativos e magistrados são considerados castas especiais e, como tal, usufruem não só de condições remuneratórias diferentes dos outros mortais, como não necessitam nem se sujeitam a esperar por qualquer "aumento de receita" para se aumentarem e poderem suportar, como os outros cidadãos de segunda, a inflação e a austeridade que atingiram o nosso país estes últimos anos. Estas castas superiores sempre cuidaram bem dos seus interesses e quando não têm lata para contornar a lei e não conseguem escapar às TSU, às Contribuições Extraordinárias de Solidariedade e a outras alcavalas que lhes tocam e sangram também nos ordenados, bem mais elevados do que os da grande maioria dos restantes funcionários públicos com estatuto de segunda, fazem uso das suas belas "almofadas" anti-crise, através de uma série de subvenções bastante diversificadas e generosas a que só eles têm direito. E, finalmente, a partir de agosto de 2013, os nossos deputados, preocupados com o acesso constante da comunicação social aos bastidores dos seus privilégios remuneratórios, evitando assim o incómodo striptease a estas contas, produziram o diploma que faltava, tornando sigilosa essa matéria através de uma “verdadeira lei da rolha”. 
Imagine-se o peso que estas almofadas gordas, pensões, subvenções, despesas de representação, telefones e viagens não representam na despesa pública! 
Perante esta realidade, o Senhor Secretário de Estado, Hélder Reis, ainda põe alguma reserva no aumento, ou melhor, no reembolso, muito parcial, do que tem sido  espoliado a toda a função pública, especialmente de segunda categoria, durante vários anos de assalto fiscal. E não só afirma  “a parte adicional de receita podia ser usada para redução de despesa”, como defende que “aí a opção era a de não pagar salários” aos funcionários públicos. 
Opção?! Pagar ou reembolsar a quem se espoliou é, no seu entender, não uma obrigação mas uma opção reticente e despropositada. Não fora o "cheiro das próximas legislativa", que por aí vêm, e, seguramente, esta "generosidade" não aconteceria. Afinal, parece-nos que ninguém está interessado em que se lixem as eleições, nem Hélder Reis nem o seu chefe. 
João Frada 

domingo, 28 de setembro de 2014

Passos Coelho: recebeu ou não recebeu, eis a questão?

Enquanto deputado, nunca recebeu um cêntimo da Tecnoforma, garantiu Passos Coelho. 

“De acordo com a edição deste sábado do semanário expresso, a Tecnoforma tinha receitas provenientes do petróleo de Cabinda. A denúncia é feita por um ex-diretor geral da Tecnoforma que revela que havia um saco azul na empresa e que a ONG de Passos Coelho custou um milhão de euros por ano. Escreve o Expresso que durante pelo menos 15 anos, entre 1986 e 2001 os donos da Tecnoforma mantiveram uma companhia offshore na ilha de Jersey onde eram depositados vários milhões de dólares vindos de Angola. Nesse período, os formadores recrutados pelo Centro Português para a Cooperação eram pagos por essa offshore.” 

“O membro fundador Pedro Manuel Mamede Passos Coelho tomou a palavra.” Foi a primeira palavra dita em nome do Centro Português Para a Cooperação (CPPC), fundado na Avenida da Liberdade, em Lisboa, “aos onze dias do mês de Outubro”, de 1996. O ato teve lugar no escritório do advogado Fraústo da Silva, que tinha redigido os estatutos do CPPC a pedido de Passos Coelho, com o qual tinha estado, até cerca de um ano antes, nos órgãos dirigentes da JSD, na condição de presidente do Conselho Nacional de Jurisdição. http://www.publico.pt/politica/noticia/o-misterioso-cpp-que-1671050

O CPPC (Centro Português para a Paz e Cooperação), fundado em 1996 por Pedro Passos Coelho, Marques Mendes, Vasco Rato e Ângelo Correia, embora este último, quando confrontado pelo PÚBLICO, em 2012, tenha afirmado desconhecer tal instituição (“Dou-lhe a minha palavra de honra que não sei o que isso é”), tinha por missão a “integração socioeconómica de grupos mais desfavorecidos” e, nessa medida, acabaria por ser financiado “com cerca de 137 mil euros pelo Fundo Social Europeu (FSE) e pela Segurança Social portuguesa.”
Todavia, os resultados dos projetos levados a cabo pelo Centro Português para a Paz e Cooperação,  organização não-governamental (ONG) presidida entre 1997 e 1999 por Passos Coelho, na opinião de Luís Brito, diretor-geral da Tecnoforma entre 2001 e 2008, não justificaram os custos vultuosos exigidos com a sua ação. Durante esse período (1997-99) terá custado cerca de um milhão de euros por ano. O ex-diretor da Tecnoforma, à data dos factos, Fernando Madeira, discorda destes números.  
A saga, porém, aparece alimentada de outros quadrantes.
“Em conferência de imprensa realizada na sociedade de advogados que representa a Tecnoforma, em Lisboa, Cristóvão Costa Carvalho afirmou que Passos Coelho "foi remunerado pelos serviços prestados" à empresa.
Cristovão Costa Carvalho não revelou qualquer montante resultante da ligação de Passos Coelho à Tecnoforma, "principal mecenas do Centro Português para a Cooperação", ONG fundada pelo primeiro-ministro enquanto exercia o cargo de deputado (até 1999) e que "está inativa neste momento".
Refutando que o Centro Português para a Cooperação tenha sido "fundado pela Tecnoforma", o advogado sublinhou que a ONG tinha contabilidade própria, pelo que desconhece o valor dos reembolsos, que, hoje, no parlamento, o primeiro-ministro admitiu ter recebido a título de despesas de representação.
"Não posso responder. O reembolso é feito quando alguém apresenta um documento de despesa. A contabilidade da ONG nada tinha a ver com a Tecnoforma", disse o advogado, acrescentando que a empresa "prestou todos os esclarecimentos que foram solicitados" pelas autoridades judiciais.
(http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2014-09-26-Representante-da-Tecnoforma-diz-que-Passos-Coelho-foi-consultor-de-2001-a-2007-)
Apertado no Parlamento pela oposição, como resposta, “Passos Coelho pôs as bancadas da maioria a aplaudir ao usar uma expressão pouco habitual em política: “Trata-se de um direito que eu tenho, fundamental, à reserva pessoal. Se cada vez que alguém aparecer com insinuações eu tiver de fazer o striptease das contas bancárias para deleite dos leitores de jornais, eu isso não faço”.
Contactado nesta quinta-feira pelo PÚBLICO, o fundador e então principal acionista da Tecnoforma, Fernando Madeira, que em 2012 não quis prestar quaisquer declarações sobre a existência de pagamentos a Passos Coelho naquele período, afirmou: “Estou convencido de que ele recebia qualquer coisa, mas não posso falar em valores porque não posso provar nada. Agora se era para pagar deslocações, telefonemas ou coisas parecidas, não sei.”
O empresário, com 70 anos, repetiu várias vezes que esta é a sua convicção e acrescentou: “O senhor não foi para ali [para o CPPC] pelos meus lindos olhos.” Fernando Madeira insistiu em que não pode provar nada, “porque o administrador que tratava da parte financeira era o Dr. Manuel Castro e o contabilista, que já morreu”.
O fundador da Tecnoforma, que já foi ouvido no DCIAP no âmbito do inquérito que ali decorre desde o início de 2013, mostra-se muito afetado por este processo e diz que só quer “esquecer tudo o que se passou”.
Fernando Madeira vendeu as suas ações na empresa em 2001 a João Luís Gonçalves, um advogado que foi secretário-geral da JSD quando Passos Coelho era presidente, a Manuel Castro e a Sérgio Porfírio, um antigo empregado da casa. Segundo garante, os compradores nunca lhe pagaram os valores negociados, razão pela qual pôs o caso em tribunal há vários anos. A Tecnoforma foi declarada insolvente pelo tribunal há cerca de dois anos.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) apenas confirma investigação à Tecnoforma. Reagindo à notícia da Sábado, a PGR divulgou um esclarecimento em que diz apenas que em 2013 foram instaurados dois inquéritos relacionados com a atividade da Tecnoforma, um dos quais, o do DCIAP, “se encontra em investigação e sujeito a segredo de justiça”. 
O outro – que visava os financiamentos concedidos à empresa para formar centenas de técnicos de aeródromos e heliportos municipais da região centro, e correu no Departamento de Investigação e Ação Penal de Coimbra – “foi objeto de despacho de arquivamento, nos termos do artigo 277, n.º 2 do Código de Processo Penal, em Junho de 2014.”
Perante estas afirmações, é difícil acreditar-se que Passos Coelho não tenha estado em exclusividade parlamentar, entre 1995 e 1999. Esteve, com certeza. É que, se realmente não tivesse cumprido esse cargo em regime exclusivo, não se compreende como é que viria a receber os 60 000 euros de subsídio de reintegração no ano 2000. Estaremos equivocados? Alguém nos pode elucidar?  
E se estava em exclusividade, claro está, não poderia receber qualquer outro vencimento, fosse de onde fosse. Mas, porque a lei é uma excelente peneira rota para facilitar e contornar estas dificuldades, poderia receber o que lhe quisessem dar sob a forma de compensações por colaboração e serviços prestados. Adiantou pagamentos do seu próprio bolso, disse Passos Coelho, ou seja, acrescentamos nós, foi credor da Tecnoforma, enquanto colaborador “desinteressado” desta empresa, e, como tal, tem ou teve direito a ser reembolsado… e porque não principescamente, todos os meses. Terá gasto, só à sua conta, 150 000 euros, em viagens “executivas”, telefonemas, almoços, jantares, fatos Armani, supomos nós, dada a elegância com que se veste e precisa de se apresentar, e que fosse, até, em clubes noturnos, onde se fazem bons contactos e excelentes negócios, desfrutando uma qualquer dança artística e sensual… mas, se foi em prol dos elevados objetivos da empresa que servia…, por isso, para quê pedirem-lhe agora que faça striptease com as suas contas bancárias? Será que o parlamento é o sítio ideal para sessões desta natureza? Não sabemos o que tinha em mente, na altura própria, quando o interpelaram e lhe veio aquela resposta à boca, mas também achamos que não. Strip é para outros locais. 
Porém, os valores em causa, 150 000, isto é, 5 000 euros por mês, que muitos afirmam terem sido pagos pela empresa Tecnoforma, consideramo-los um exagero. Não é possível que alguém gaste tanta “grana” em andanças mensais, e durante tanto tempo, de resto, com alguma dificuldade em cumprir horário de exclusividade e presença parlamentar conveniente e andar sempre em viagens e cumprindo outras funções paralelas, noutras latitudes. Será que teremos de remeter esta possibilidade para uma explicação mais transcendente, justificando-a através do dom da ubiquidade?! Parece-nos utópica.
Passo Coelho, inicialmente confrontado com esta cabala, de que teria recebido 150 000 euros, “in illo tempore”, e que não os teria declarado às Finanças, começou por dizer que não se lembrava de tais factos, apenas “mantendo a convicção de que sempre cumpriu as suas obrigações legais”.
Compreende-se o choque: dizerem-nos, de caras, que recebemos 150 000 euros e não os declarámos ao fisco na altura própria, gera-nos um bloqueio momentâneo terrível, tenhamo-nos ou não abotoado com eles. 
Curiosamente, esse trauma reativo, já lhe vem de longe. “Em novembro de 2012, num e-mail em que respondia a várias perguntas do PÚBLICO, Passos Coelho deixou sem resposta aquela que o questionava expressamente sobre se a Tecnoforma “alguma vez remunerou” os serviços por ele prestados enquanto presidente do Conselho de Fundadores do Centro Português para a Cooperação (CPPC) — uma organização não-governamental criada pela [mesma] Tecnoforma com o objetivo de facilitar a captação de contratos de formação profissional para a empresa.”(…)
“Apesar das múltiplas insistências feitas, essa pergunta nunca obteve resposta. 
De acordo com a Sábado, a denúncia que está a ser investigada pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) terá sido acompanhada de vários documentos e refere que o então deputado receberia cerca de cinco mil euros mensais através do Banco Totta & Açores.
A confirmar-se a existência de tais pagamentos, Passos Coelho estaria perante dois problemas: não ter declarado esses rendimentos (como resulta das suas declarações ao Tribunal Constitucional), fugindo assim ao fisco, e ter violado o regime de exclusividade que o impedia de auferir tais rendimentos.” 
Iluminado, por fim, como convinha, denotando a veia arguta que lhe é e tem sido peculiar, nem sempre, mas algumas vezes, descobriu a saída fácil e desenrascou-se com toda a sagacidade política: recebeu, sim senhores, não se lembra de quanto, nem vai jamais despir as suas contas bancárias em público, mas foram adiantamentos do que gastou com despesas de representação.
Moral da história: Passos Coelho é um verdadeiro artista da arte de representar. Porque gastou, pensamos nós, uma soma considerável de euros em representações onerosas. Ponto final.
Como desabafo final, apetece-nos dizer que todas ou quase todas as semanas se destampa mais uma panela com um cozinhado político, bancário ou financeiro mal confecionado e, acima de tudo, indigesto para a grande maioria dos consumidores. Começamos a habituar-nos a assistir a este “circo” permanente, em que os artistas, sem escola circense, conseguem fazer todas a piruetas, pantominas e acrobacias sem falhas, sem quedas do trapézio e sem o mínimo de preocupação com acidentes, já que todos têm seguro e rede legalmente garantidos. Pensemos no quanto custou ao Estado, ou seja, a todos nós, em termos de dinheiros públicos, de uma forma direta e indireta, uma instituição não-governamental como o CPPC, alimentada, entre outras fontes, pelo Fundo Social Europeu e pela própria Segurança Social e sem grande controlo do que movimenta, beneficiando, como é óbvio, de isenções fiscais invejáveis, já que o seu estatuto de ONG assim o determina. 
João Frada