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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

SAÚDE PARA TODOS: Alguns conselhos úteis


SAÚDE PARA TODOS

 

[Para que não digam que eu só vos dou música e poesia ou vos causo, com as minhas análises sociológico-políticas, mordazes e irónicas, alguns momentos depressivos, arrastando-vos para a realidade vivencial do dia-a-dia, eivada de arrelias, angústias e frustrações, nada saudáveis nem desanuviadoras para nenhum leitor, atrevo-me a deixar-vos alguns conselhos úteis no domínio da cura e prevenção das complicações  desencadeadas por vírus da gripe, muito ativos nesta época.]

1.Cura e prevenção de complicações pós-gripais: aguns conselhos úteis

LEIAM COM ATENÇÃO

Na sequência destas agressões virais a todo o aparelho respiratório, algumas delas responsáveis por quadros infecciosos complicados pós-gripais, altos e/ou baixos, muitos dos doentes, vacinados ou não contra a gripe, vêm a necessitar de antibioterapia prolongada ou mesmo repetida, face às recorrências que não raramente acabam por acontecer. E porquê?

Porque, quer os seios peri-nasais quer a árvore respiratória pulmonar (traquebrônquica e alveolar), quando agredidos por vírus e bactérias, em maior ou menor grau e em conformidade com a maior ou menor resposta ou predisposição atópica (alérgica) ou sensibilidade imunitária de cada indivíduo, respondem, não só, com uma produção exagerada de secreções serosas e/ou mucosas como, não raras vezes, reagem com um broncoespasmo incómodo e persistente, responsável por queixas de tosse permanente e de desconforto respiratório. Os constantes acessos de tosse, despoletados pelas secreções que persistem nas vias respiratórias, na sequência de uma infeção, mesmo depois do tratamento antibiótico, com muita frequência, tendem a manter-se devido ao broncoespasmo que se instalou, como consequência do recente quadro inflamatório. Como tal, necessita de ser solucionado. E de que modo?

Para além da eventual antibioterapia, prescrita para combater a infeção instalada e diagnosticada, o médico deverá avaliar se o doente apresenta ou não queixas sugestivas de broncoespasmo, o qual, se não for devidamente tido em conta, acaba por dificultar a resolução da patologia respiratória em causa. As secreções esterilizam-se com a tomada adequada do antibiótico, mas, em caso de broncoespasmo, tendem a persistir e a infetar novamente. Perfeitamente audíveis através de uma cuidadosa auscultação pulmonar, sob a forma de fervores subcrepitantes e/ou crepitantes, estas secreções exigem um tratamento adequado que poderá passar pelo uso de anti-histamínicos e de broncodilatadores e/ou corticoides, aplicados sob a forma oral ou inalatória, e de cinesiterapia, por forma a prevenir sequelas pulmonares crónicas e irreversíveis. Aconselhamos o doente a que procure, sempre, inspirar e expirar profundamente através da boca, enchendo e esvaziando por completo os pulmões, uma dúzia de vezes, se necessário, enquanto é auscultado, por forma a facilitar ao clínico a auscultação e a interpretação perfeita do murmúrio vesicular, ou seja, de todos os sons pulmonares emitidos durante os movimentos respiratórios. Compete, naturalmente, ao médico avaliar o tipo de tosse em presença e ponderar qual a medicação mais adequada.

Os mucolíticos, vulgarmente designados de expetorantes, com aplicação e resultados medicamente discutíveis, podem não ser suficientes para uma resolução total e rápida do quadro respiratório em causa. A par disso, a produção constante de rinorreia posterior (aquela que escorre dos peri-nasais para a garganta), seja ela uma rinorreia (vulgarmente conhecida por ranho) serosa, mucosa ou mucopurulenta (verde ou amarelada), decorrente da sinusopatia (sinusite; rinoadenoidite em crianças) que quase sempre se manifesta ou “acorda” mais ativa após os quadros gripais, originada num foco respiratório alto, isto é, a nível dos seios peri-nasais, só por si, pode originar acessos de broncoespasmo (em tudo idêntico a um acesso de asma), e, como tal, justifica  tratamento específico adequado com broncodilatadores. O médico saberá qual o fármaco que deverá prescrever, tendo em conta as comorbidades e doenças concomitantes do seu paciente.

As situações de rinorreia serosa (vulgarmente conhecida por “aguadilha”) ou mucosa (um pouco mais espessa), mas não amarelada nem esverdeada, esta, supostamente, já infetante), justificam o uso de anti-histamínicos, naturalmente, orientados sob prescrição médica ou mesmo e, em alguns casos, farmacêutica.

Em todo o caso, quer no início de um quadro supostamente gripal, mais ou menos agressivo, quer após o período crítico da doença, tratada ou não com antibiótico, enquanto se mantiverem queixas de rinorreia serosa, mucosa ou mucopurulenta. uma das melhores medidas higiénicas, de caráter preventivo e curativo, a ter em conta, é a seguinte:

1.Juntar a um recipiente com meio litro de água entre o tépido e o quente, uma mão cheia de sal das cozinhas (cloreto sódio), misturando bem  e obtendo uma solução ligeiramente hipersalina. Provando o sabor da mistura, poder-se-á obter o grau de salinidade equilibrado, juntando mais água, se necessário, e obtendo uma solução não muito concentrada. Uma solução demasiado salina pode não só provocar uma grande libertação de histamina nos indivíduos que sofrem de rinite alérgica, como vir a comprometer a função dos cílios da mucosa nasal, fundamental à expulsão do muco viscoso originado durante o processo de rinossinusite.      

2. Inalar (através de contínuas inspirações profundas e o mais intensivamente possível) a mistura de água moderadamente hipersalina através de cada uma das narinas, tentando irrigar os seios peri-nasais e esvaziar todas as secreções e impurezas neles contidas. Estes seios funcionam, no nosso organismo, aquecido a 36,5-37 graus centígrados, como um ótimo laboratório para a replicação viral e como uma excelente estufa de cultura bacteriana. As crises de sinusite, com todo o cortejo de queixas conhecidas (tosse, febre, cefaleias, rinorreia anterior e/ou posterior, quantas vezes também responsável, entre outras situações por otalgia (dor de ouvido), amigdalite, faringite e laringite), ou nem sequer ocorrem ou cedem rapidamente a esta tão simples medida de irrigação com água hipersalina. Não podendo mergulhar três ou quatro vezes por dia na água do mar, porque é inverno e não é muito apetecível, então, experimente fazê-lo em casa, usando aquela mistura hipersalina e verá os resultados. Irá sentir o nariz e os seios peri-nasais menos congestionados e, ao mesmo tempo, afastará a possibilidade de uma infeção que é sempre imprevisível em termos de consequências e elas são múltiplas, algumas delas de prognóstico bem complicado. 

Os microrganismos (micróbios), sejam eles vírus, bactérias ou fungos, não toleram este ambiente salgado e rapidamente deixam de se replicar ou reproduzir. Esvaziando, por outro lado, através da aplicação de água salina as secreções retidas e assoando energicamente cada uma das narinas, expulsam-se as secreções ali coletadas e promove-se a recuperação da mucosa sinusal, dilacerada e necrosada (apodrecida ou sem vida) pela infeção.

No início de uma gripe, quando surgem os primeiros sinais de um quadro viral em curso, cansaço acentuado, adinamia (debilidade física), febre ou subfebre, dores musculares e articulares, espirros, calafrios, congestão nasal e/ou rinorreia anterior acentuada, para além dos habituais antipiréticos ou febrífugos (paracetamol, “aspirina” e ibuprofen ou derivados), é de bom tom bochechar ou gargarejar, mesmo, várias vezes por dia com água salgada.

Uma outra recomendação, para esta altura de gripes, consiste em não cumprimentar de aperto de mão ou com beijos quem está infetado. Porque não cumprimentar, à boa maneira japonesa, apenas com um respeitoso curvar da cabeça ou, então, com um simples toque de punho fechado (punho com punho), limitando a probabilidade de contágio viral? Invocando que está "engripado", ainda que não esteja, e que pretende não contagiar quem está à sua frente, aguardando o seu aperto de mão, salvaguarda-se, de imediato, e não corre tanto o risco de ferir suscetibilidades nem gerar mal-estares desnecessários. Trata-se de um conselho que, admitimos, pode vir a ser considerado algo excêntrico, bizarro ou radical, mas que, tomado à letra, reduz significativamente a possibilidade de contágio, isso, nem duvidem. Fica ao critério de cada um a opção do "curvar da cabeça", do toque de punho fechado ou do simples aperto de mão. Todavia, vale a pena refletir sobre o assunto. Ponderando bem, depressa se conclui que é um gesto habitual colocar-se a mão à frente da boca sempre que se tosse e, por vezes, quando se espirra, sem que alguém ou muita gente faça uso de lenço ou de guardanapo para o efeito. O indivíduo espirra ou tosse e, depois, no momento seguinte aperta a mão a outra pessoa, ainda antes de a lavar ou desinfetar. É óbvio que o contágio viral pode ocorrer de outras formas: uma maçaneta de porta, uma esferográfica ou um simples talher (manuseado por um indivíduo portador de um vírus de gripe agressivo, mas ainda assintomático ou com queixas muito incipientes), enquanto objetos diretamente contactados por um doente infetado, poderão constituir também pontos de partida para disseminar o agente gripal. O peso da importância destes objetos infetantes (medicamente designados de “fomites”), no contexto geral das vias de contágio, tende a diminuir, sempre que os  cuidados higiénicos e as regras de saúde pública são respeitados e generalizadamente implementados, o que nem sempre acontece. Lavagem de mãos em água corrente ou limpeza frequente das mãos com toalhetes ou com soluções de gel alcoólico poderão ser, na nossa opinião, uma das melhores medidas preventivas, neste domínio, recomendada, sobretudo, para todos aqueles que não conseguem perder o vício, tão consolador, de roer as unhas.

A nuvem de aerossol de partículas de saliva que emitimos após um acesso de tosse e, sobretudo, depois de um enérgico espirro, no caso de estarmos numa fase prodrómica de gripe (fase inicial da doença), uma vez que está carregado de vírus, se for em espaço fechado, sem quaisquer correntes de ar, fica durante largos segundos no ar (como um aerossol que é) e, naturalmente, acaba por ser inalado por todos quantos possam respirar ali perto. O contágio através destas micropartículas (de Fludge) é uma das formas mais comuns de disseminação do vírus da gripe. Pura e simplesmente, não nos poderíamos acautelar espirrando para um lenço ou, na falta deste, colocando o antebraço ou a roupa que o cobre à frente da nossa boca, para absorver o espirro, uma perfeita bomba biológica caseira?! E fazemo-lo sempre?! E todos o fazem?!

Proceder às irrigações nasais com água salgada, seja ela de preparação caseira ou farmacêutica, e bochechar ou gargarejar com água hipersalina, três ou quatro vezes por dia, pode fazer a diferença e, na nossa opinião, são excelentes medidas para prevenir e curar a gripe e os seus efeitos mais comuns.

As irrigações nasais com água hipersalina deverão ser realizadas antes das refeições e, eventualmente, ao deitar. E porquê? Porque, a água entrada pelas narinas nem toda acaba por sair pelas mesmas vias e ao escorrer pela garganta pode, ocasionalmente, provocar algum engasgamento pontual nos menos habituados a este exercício, o que poderá ocasionar vómito. De resto, o sabor salino da água não é normalmente agradável. 

Recomenda-se que os indivíduos hipertensos ou que sofrem de rinite alérgica não usem água muito hipersalina e possam recorrer a soluções farmacêuticas de água do mar esterilizada, de preferência contendo manganés, vendidas sob a forma de nebulizadores nasais. O manganés minimiza a resposta alérgica, habitualmente, traduzida por uma escorrência abundante de rinorreia serosa. A mucosa nasal é, por outro lado, bastante permeável a sódio e, portanto, no caso de doentes hipertensos, há que respeitar essa cautela, usando apenas água do mar esterilizada (isotónica) ou uma preparação caseira de água ligeiramente salina.  

 
João Frada

Médico/Professor Universitário (Ph.D.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DOENÇAS INFECCIOSAS

Doenças infecciosas mais mortíferas na sociedade planetária, ao longo da História, e respectivas respostas sanitárias para a sua erradicação ou contenção.

PREÂMBULO. IN: FRADA, João – Pandemias de Gripe A (H1N1) em Portugal (1918-2009): ecos e cismas do passado no presente. 2ª edição bilingue (Português/Inglês). Lisboa: Clinfontur edições; 2012. [Texto revisto e atualizado]

PARTE I

“As epidemias marcaram, desde sempre, os ritmos da Civilização. E não só determinaram importantes transformações no processo cultural, mental e técnico do Homem (sempre movido pela sua natural tendência em compreender e controlar todos os fenómenos mórbidos), como ocasionaram, enquanto factores de natureza epidemiológica e demográfica, alterações profundas nos sistemas sociais, políticos e económicos.
Os reflexos, imediatos e tardios, resultantes da acção da peste negra de 1348 sobre a sociedade medieval são, para grande número de historiadores, o exemplo mais paradigmático do que acabámos de dizer.
Fortemente estruturado na Igreja e nos seus valores e, como é óbvio, no próprio feudalismo (em Portugal, sem grande expressão), o modelo de vivência medieval, não restam dúvidas, entrou em falência quando as populações, ceifadas pela terrível epidemia, foram desaparecendo e quando os sobreviventes passaram a interrogar-se sobre a inconsistência dos velhos dogmas e certezas, especialmente inerentes à saúde e à doença. Duvidando da imunidade garantida pela mística e pela fé cristãs, ousando pôr em dúvida a teoria do contágio por desígnio divino(1), os espíritos mais insatisfeitos da Baixa Idade Média identificavam-se já com uma nova forma de pensar, em suma, com um novo Homem.
A varíola, também ela um flagelo ao longo de séculos, originando a morte ou deixando marcas terríveis no corpo e no rosto das suas vítimas (a célebre cabeça mumificada do sacerdote egípcio de Amon é, decerto, um dos testemunhos mais antigos da sua acção lesiva), seria, finalmente, dada como extinta em 1977. Os primeiros passos da medicina com vista à sua definitiva contenção viriam a pertencer a Edward Jenner, o qual, depois de ter verificado a imunidade dos tratadores de vacas contra a varíola, realizou com êxito, em 1796, a primeira vacinação contra a doença. Desde então até aos finais dos anos 70, a comunidade internacional, através de programas e acções planificados pela Organização Mundial de Saúde (instituição especializada das Nações Unidas, fundada em 1948), entre os quais se destaca o PAV (Programa Alargado de Vacinação), viria a conseguir a erradicação completa da doença no Planeta. Cólera, febre amarela e tuberculose, também estas entidades têm constituído e são, ainda hoje, um sério desafio para todos os agentes da saúde mundial. Ao longo de um século de medicina científica desenvolveram-se vacinas e fármacos com grande eficácia terapêutica. Estes ganhos e avanços da medicina, em contraste gritante com as condições médico-assistenciais e o nível higiénico e sanitário que caracterizavam a Idade Média e grande parte da Época Moderna, por si só, deveriam constituir um factor limitativo ao aparecimento de surtos epidémico-pandémicos de natureza viral ou bacteriana, na contemporaneidade. Todavia, os mesmos mecanismos geradores das crises demográficas do passado mantêm-se hoje presentes e assumem-se, porventura, como factores tendencialmente reguladores do tremendo desequilíbrio verificado no binómio recursos-população, já pressentido e formulado por Malthus nos finais do século XVIII. Os críticos do malthusianismo defendem que o autor setecentista do Ensaio sobre o Princípio da População e as suas ideias não só entraram, rapidamente, em decadência como se tornaram inaplicáveis à realidade do século XX, «paradigma da industrialização, do desenvolvimento e do bem-estar».
As novas estratégias políticas, teoricamente, tenderão a conciliar medidas económicas com medidas demográficas, a produção será desenvolvida e racionalizada. O emprego, apesar de nunca pleno, tenderá a ser superior ao desemprego, o subsídio de desemprego e as reformas assegurados e as reformas assegurados pelo Estado-Providência evitarão as condições de miséria e de fome, e o nível de vida razoável das populações, desfrutando, nestas circunstâncias, de uma medicina social cada vez mais evoluida e apoiada no planeamento familiar e em cuidados de saúde primários criteriosamente estabelecidos, conduzirá, invariavelmente, à negação do malthusianismo pessimista.
No entanto, o desemprego no Ocidente sobe em crescendo e o aumento da longevidade, a diminuição da natalidade e a senilização populacional põem em risco, cada vez mais, as garantias de continuidade do Estado-Providência. À medida que se criam novas soluções, a população, senil em grande número, cairá na indigência e na miséria e constituirá, por isso mesmo, um alvo predilecto das mais diversas doenças e epidemias. Mas se, por enquanto, a célebre tetralogia carestia/fome/imunodepressão/doença não parece ser no Velho Mundo, com uma produção excedentária, um factor endógeno responsável por graves crises demográficas, já o mesmo não acontece no Terceiro Mundo. Apesar dos esforços envidados pelos países desenvolvidos e do sério empenhamento de muitas organizações intergovernamentais e não governamentais, envolvidas na procura e implementação de estratégias e soluções capazes de minimizar o tremendo desequilíbrio económico e social visível entre os povos do chamado eixo Norte-Sul, a verdade é que os países do Norte continuam mais ricos e os do Sul vão ficando, cada dia, mais pobres.
As guerras, as secas, as inundações, as pragas, a carestia, a fome e as epidemias são, actualmente, um cenário comum entre as comunidades dos países «ditos» em via de desenvolvimento.
Nesta «aldeia global», crises, doenças ou quaisquer outros problemas surgidos em locais mais ou menos recônditos e isolados, mercê de uma dependência internacional cada vez maior e, ao mesmo tempo, de uma enorme facilidade de comunicação e movimentação de homens e animais, podem alastrar rapidamente a todos os continentes desencadeando, por vezes, perturbações de reflexos gigantescos.
Os microrganismos, que não conhecem fronteiras, circunstancialmente irrompidos dos seus habitats naturais e instalados nos seus habituais hospedeiros, homens e animais, vão assim circulando livremente de país para país, de continente para continente, gerando, cada vez com maior frequência, estados de alarme e de preocupação bem demonstrativos da grande vulnerabilidade de todo o ser humano e de todas as sociedades a estes agentes.
As doenças de carácter infecto-contagioso provocadas pelo vibrião do Cólera, pelo vírus de MARBURG ou pelo vírus ÉBOLA, este último responsável, em 1995 e em 2000, por um considerável número de mortes na África Central e Equatorial, constituem a prova inequívoca de que, mesmo nos finais do século XX, início do século XXI,  a Humanidade e a ciência médica não têm conseguido controlar, por completo, os agentes patogénicos, sejam eles vírus, bactérias, fungos ou protozoários.
E mesmo quando a medicina julga dispor de soluções preventivas e/ou curativas para tais doenças e a imunidade passiva ou activa parece poder garantir algumas certezas para «amanhã», a instabilidade etológica e ecológica da Natureza determina constantes alterações imunogenéticas, quer em hóspedes quer em hospedeiros, e tudo parece voltar ao ponto zero.



PARTE II

Há, claramente, populações melhor imunizadas do que outras contra determinadas doenças.
Na Época Moderna, por exemplo, os Europeus (Espanhóis, em particular), rumando a outros continentes, levaram consigo sarampo, gripe, rubéola e outras entidades mórbidas com as quais facilmente conviviam, desde há séculos, sem grandes problemas. Desconhecendo, em absoluto, a carga potencialmente letal que transportavam – microrganismos, alguns deles, de grande virulência –, contagiaram as comunidades do Novo Mundo (Incas, Aztecas e Maias), as quais, sem defesas imunitárias contra tais agentes, acabariam por ser praticamente dizimadas.
Dispomos hoje de estudos que consideram, inequivocamente, a acção daquelas impremeditadas armas biológicas sobre as populações ameríndias, na Época dos Descobrimentos, como tendo sido mais mortífera do que a própria guerra.
Uma vez que não ficou ainda completamente provada a nova teoria de Acuna-Soto sobre a causa de extinção dos cerca de 22 milhões de Astecas, desencadeada por um terrível surto epidémico de febre hemorrágica, devido à acção do vírus cocolitzli, agente patogénico até agora não observado/identificado pela microbiologia, resta-nos a velha convicção de que a morte desta Civilização se ficou mesmo a dever, em grande parte, à acção de doenças arrastadas pelos europeus para o continente Sul-Americano. (2)
A razia demográfica observada entre as comunidades autóctones da América Central e da América do Sul na Era Colombiana, detentoras de conhecimentos técnicos consideravelmente evoluídos para a época e dispondo de exércitos numerosos e bem preparados, só parece, pois, poder ser compreendida pela debilidade que as doenças bacterianas e virais de índole europeia terão desencadeado sobre os seus organismos, sem o mínimo de imunidade contra tais agentes patogénicos, até aí desconhecidos naquele sistema ecológico. Hoje, a medicina dispõe de um arsenal de conhecimentos e de uma logística que pretende ser coordenada, eficaz e actuante, quer através de mecanismos normais accionados por cada Estado, quer pela própria OMS, esta última responsável por uma alargada estratégia sanitária, cobrindo todas as áreas do Globo.
Assim, nesse esforço conjugado de políticas de saúde desenvolvidas, sobretudo a partir de 1948, o século XX caracteriza-se por uma extensa actividade no domínio preventivo, com vista a reduzir os elevados custos desencadeados pelas doenças e pelo elevado número de mortes registado, especialmente, nas regiões tropicais. Esta vastíssima acção no domínio higiénico e sanitário tem-se centrado na implementação de programas de vacinação massiva (PAV--OMS), nas regulamentações relativas à alimentação e às condições de habitação, nos controlos de fronteiras, nas campanhas de desratização e de desmosquitização (as campanhas desenvolvidas pelos Portugueses em África, contra o paludismo e contra a doença do sono, reduziram significativamente o impacto destas terríveis enfermidades sobre as populações), no saneamento das águas de consumo, na difusão de regras elementares de higiene pública e doméstica e no estabelecimento de convenções de natureza sanitária entre os mais diversos países que compõem o sistema internacional. Todavia, a eficácia desta acção preventiva multidireccional só é observável se, dentro e fora de cada país, reinarem a ordem, a paz e a segurança e as populações puderem dispor de um mínimo de recursos para garantirem uma vivência relativamente condigna.
Neste «grande pátio», onde parecem conviver todos os países, basta haver um que caia ou viva na desorganização e na pobreza temporária, geradas pela anarquia económica, por calamidades ou guerras, e os fenómenos epidemiológicos de natureza infecciosa, de relativamente endémicos e controlados, passam a epidémicos e acabam, quantas vezes, por assumir proporções devastadoras. Os países mais desenvolvidos, de um modo geral melhor equipados medicamente, respondem com grande eficácia e prontidão a esses surtos ou crises. Mas um país pobre, Africano, Sul-Americano ou Asiático, cuja população é, seguramente, mal equipada no domínio médico-sanitário, subnutrida e imunitariamente frágil, sentirá com maior violência a crise demográfica despoletada por qualquer epidemia.
Se até agora a medicina tem conseguido suster no limes ou "fora de portas" essas ameaças, cada vez mais frequentes no Terceiro Mundo, e o desenvolvimento da imunoterapia e da engenharia genética nos deixa antever, para um futuro relativamente próximo, a produção de armas terapêuticas (anticorpos, soros e vacinas) contra os demais antigénios, as certezas de amanhã quanto ao comportamento dos microrganismos são, para nós, uma incógnita. Tal como o ser humano vai sobrevivendo, criando novos recursos e imunidades contra os agentes mórbido-letais que pululam à sua volta, também a Natureza evolui e, durante esse processo, todas as outras espécies vivas, incluindo as patogénicas, sofrem constantemente transformações a nível genético. Deste modo, os genótipos mais favorecidos, quando encontram um terreno favorável, independentemente dos esforços de contenção ou de controlo médico-científico, podem determinar autênticas razias, parecendo reflectir, em alguns casos, uma acção aparentemente reguladoro-demográfica. Ter-se-á, pois, de admitir que os recursos terapêuticos de ponta surgidos entre os finais do século XX e o século XXI, pura e simplesmente, tem sido e continuarão a ser ultrapassados por estes agentes patogénicos, perfeitamente adaptados e sempre situados, podemos dizê-lo, um passo à frente da medicina científica.
Nesta visão algo sombria, mas real, do Mundo, em que a redistribuição de recursos não funciona e em que perecem, diariamente, milhares de pessoas (directa ou indirectamente devido à fome e à miséria), enquanto não surgir uma nova geração de homens-máquina, resistentes a tudo e capazes de substituir o homo sapiens em toda a sua dimensão vivencial, os microrganismos responsáveis por surtos epidémicos ou pandémicos irão continuar a exercer a sua acção mórbida e letal.
Teoricamente, as políticas de saúde desenvolvidas por todos os Estados do século XXI, a par dos esforços desenvolvidos por múltiplas organizações sanitárias espalhadas e activas em todos os continentes, deveriam ser mais do que suficientes para controlar, prevenir e minorar quaisquer riscos epidémicos, poupando assim as populações aos dramas e ao temor que, outrora, pesavam no quotidiano social. [Mas as certezas e previsões no domínio da microbiologia e da parasitologia, apesar dos grandes avanços científicos, nunca virão a ser possíveis de estabelecer com rigor absoluto. Futurologia, neste domínio, como noutros, é ainda matéria  hermética e intransponível para a ciência. Todavia, ponderar sobre a enorme possibilidade de expansão de uma doença tremendamente infecciosa, como o ÉBOLA, perante as miseráveis condições sociais e higiénico-sanitárias dos povos onde esta e outras patologias infecciosas são, desde sempre, constantes flagelos, não é um exercício intelectual tão transcendental. Adivinha-se, a qualquer momento.  Este último surto  viral, em 2014, bem demonstrativo das fragilidades e incapacidades sanitárias, quer dos países onde a doença é endémica quer da própria sociedade ocidental, tecnológica e medicamente mais avançada, é a prova irrefutável dessa imprevisibilidade tão inquietante.
A sociedade Ocidental, pontualmente alvejada pelo vírus, acordou para o perigo eminente de uma epidemia incontrolável e, apoiada na OMS e nos seus próprios serviços sanitários, apressou-se a definir, não só, protocolos de controlo e prevenção epidémica, dentro e fora das suas fronteiras, como decidiu, finalmente, envidar esforços redobrados na produção e ensaio de novos antivíricos e fármacos, com algum sucesso (Favipiravir, Brincidofovir, Zmapp, TKM–Ébola). Temporariamente, o perigo parece ter sido debelado. Mas, enquanto houver miséria e iliteracia como aquelas que caracterizam grande parte das sociedades africanas, qualquer patologia infecciosa local pode virar epidémica ou pandémica.]      
Neste Planeta, marcado por profundas diferenças sociais e económicas,  grassarão, inevitavelmente, as velhas doenças e virão, decerto, a aparecer e a difundir-se novos microrganismos com carácter virulento. Nessa medida, o esforço de combate farmacológico e terapêutico assumido pela medicina poderá vir a ser debalde. Os recursos médicos e tecnológicos poderão, de facto, periclitar perante tais flagelos. A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) é disso exemplo.
Quando a ciência não parece dispor de qualquer saída medicamentosa, curativa ou profiláctica, para o combate de uma doença que se assume epidémica e mortífera, uma vez mais, a velhíssima medida da quarentena (cumprida por inteiro ou reduzida), instituída durante a Idade Média como a melhor regra preventiva contra a peste, volta a funcionar com eficácia. Isolam-se os doentes ou os suspeitos de contágio. Circunscrevem-se o espaço e os contactos dos contagiados ou que se julga estarem contaminados. Barram-se os acessos a regiões, locais ou países afectados. Fecham-se fronteiras e aeroportos.
Vigiam-se portos e todos os pontos de entrada e de saída. Obrigam-se a fundear e a permanecer ao largo as embarcações oriundas de áreas contagiadas, em regime de quarentena. O tempo define e resolve tudo. Funciona a selecção natural. Morrem os mais débeis. Convalescem e curam-se os mais resistentes com ou sem apoio médico-farmacológico. Cometem-se exageros quando, porventura, se estabelece o corte radical, ainda que temporário, de comunicações com países e comunidades onde a doença prolifera; revivem-se temores e fantasmas de sabor medieval e dissolvem-se, com frequência, os laços e o sentido da humanização e da solidariedade, quer enquanto valores individuais, quer enquanto expressão colectiva.
Por maior evolução que a ciência médica apresente e as técnicas ao seu serviço possibilitem, o ser humano ter-se-á de confrontar sempre com novos desafios, doenças e flagelos, explicáveis ou não à luz da epidemiologia do seu tempo. Nesse duelo permanente, para além dos velhos ensinamentos que a voz da experiência colectiva foi firmando e dos recursos disponíveis à satisfação das exigências de cada época, há princípios indeléveis que, hoje e sempre, são o garante da continuidade e da sobrevivência do Homem, conferindo-lhe um lugar ímpar no reino animal: tolerância, altruísmo, humanização, solidariedade e cooperação.
Só através da orientação ou definição de um estilo de vida inteligente e ecológica e de uma união eficaz de esforços e vontades, a nível intra ou extra-planetário, o «homem de amanhã» pode fazer face aos microrganismos virulentos ou a quaisquer outros agentes patogénicos, velhos ou novos, de carácter epidémico ou não.
Mas se o futuro é, em si mesmo, um enigma neste domínio, as certezas do presente não deixam margem para dúvidas e requerem toda a nossa atenção: em todo o Mundo morrem anualmente mais de 75 000 000 de pessoas, devido a doenças infecciosas. Talvez seja este o preço que a Humanidade terá sempre de pagar à Natureza, pela forma como nela se integra e dela se serve, ameaçando e destruindo, constantemente, elementos vitais à sua natural dinâmica e harmonia e pondo, assim, em causa alguns dos principais mecanismos responsáveis pelo equilíbrio ecológico global.”

(1) Coevos da grande peste negra de 1348, dois médicos hispano-árabes terão sido as primeiras vozes a discordarem das explicações místicas, pré-racionalistas, atribuídas à contagiosidade da doença. Ibn Al-Khatib, numa obra sua, "Compendium de epidemia per Collegium Facultatis Medicorum Parisiis ordinatum", considerado dos primeiros tratados descritivos da peste, põe pela primeira vez em causa a etiologia divina da mesma e avança com a possibilidade de o contágio se poder processar através do contacto com objectos pessoais do doente, ideias não só originais como heréticas, naquela época. Um outro físico, Ibn Khatimah, com uma larga experiência clínica no tratamento de empestados, conclui também que a doença é altamente contagiosa, já que, com grande probabilidade, um indivíduo em contacto com um pestoso acaba por contrair as mesmas queixas: «se o doente expectorava sangue, o contagiado fazia o mesmo (peste pulmonar); se o pestoso era bubónico, o segundo também o seria» (ROQUE, Mário da Costa - As Pestes Medievais Europeias e o «Regimento Proveitoso contra a Pestenença». Lisboa/Paris: Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português; 1979. p. 59-60).

(2) What killed the Aztecs? (http://www.solopassion.com/node/1304).

João Frada
Professor Universitário (Ph.D.) da FML


sábado, 23 de novembro de 2013

ALERTA AO SENHOR MINISTRO DA SAÚDE


Ministério da Saúde controla uso dos antibióticos
Paula Rebelo/ David Araújo/ Virgílio Matos 28 Set, 2013, 14:48 

“Os médicos que abusarem da prescrição de antibióticos vão ser penalizados. O Ministro da Saúde confirmou a criação de equipas de vigilância nos hospitais para controlar o uso abusivo desses medicamentos. No Porto, Paulo Macedo anunciou um milhão de vacinas contra a gripe gratuitas para grupos de risco”.
Esta medida, na sua essência é correta. Todavia, o problema do uso indiscriminado ou abusivo a que se referem os responsáveis da saúde em Portugal, não é tão simples assim de “desmontar”. Muitos médicos, como se provam pelos dados recolhidos a partir da análise do receituário, na opinião dos avisados governantes, prescrevem antibióticos por “dá cá aquela palha”. As razões subjacentes a tal fenómeno são múltiplas, mas atrevemo-nos a apontar as principais e, ao mesmo tempo, a chamar a atenção ao Senhor Ministro da Saúde, bem como aos seus avisados conselheiros, quer para a complexidade quer para as incongruências do próprio Sistema de Saúde, na nossa opinião, determinantes do dito uso abusivo de antibióticos.
- Começaríamos por apontar a maior falha do Sistema Nacional de Saúde, tal como ele está atualmente: Para evitar antibióticos, seria melhor apostar-se em vacinoterapia, seja ela específica ou inespecífica. Ora, algumas das importantes vacinas que poderão fazer a diferença na reconversão do processo de prescrição, considerado como abusivo, de antibióticos, não estão ao alcance da maior parte das famílias portuguesas, porque são caríssimas e não são minimamente comparticipadas pelo Estado. A título de exemplo, citamos a vacina antipneumocócica, disponível no mercado quer na sua forma infantil quer na de adulto, com custos atuais entre os 60 e os 65 euros cada embalagem.
Para a população pediátrica, por exemplo, considerada a faixa etária mais frágil e suscetível quando exposta a esta bactéria virulenta, especialmente responsável pela habitual morbilidade pós-gripal (meningites, pneumonias, amigdalites, faringites e otites), a vacina antipneumocócica 13-valente confere proteção contra os 13 serotipos mais agressivos deste microrganismo. Ninguém da classe médica tem dúvidas disto. Mas o Ministério tarda em a conceder grátis ou em beneficiar os seus utentes com alguma comparticipação minimizadora dos encargos familiares. Mais irónico, senão mesmo cínico, é o facto de nos novos Boletins de Vacinas distribuídos a cada criança pelos Centros de Saúde constar uma rubrica alusiva à dita vacina antipneumocócica. Parece, pois, ser considerada fundamental pelo próprio Ministério e deverá aplicar-se em três ou quatro doses, sem contar com o reforço catch-up dos cinco anos. Mas não faz parte do plano nacional de vacinação. Façamos contas e verifiquemos quanto custa a cada família, por criança, o respetivo programa completo.
Vamos ver quanto vai custar ao Ministério da Saúde a campanha de ensino do uso ou não uso de antibióticos!
- As atuais unidades de saúde a que recorrem os portugueses, sejam elas centros de saúde ou hospitais públicos ou privados, todas elas deverão ser geridas tendo em conta, cada vez mais, objetivos economicistas que traduzam, naturalmente, bons índices de desempenho e, no caso das últimas, também lucrativos. Com exceção das crianças e dos pacientes idosos, estes últimos psicologicamente mais dependentes do apoio médico e farmacológico, os indivíduos na idade profissional ativa recorrem, normalmente e apenas, a estas unidades sempre que o seu estado de saúde se encontra comprometido. Tendo em conta que o absentismo ao trabalho, mesmo por doença, tem hoje mais do que nunca, face às leis e exigências laborais, reflexos sérios sobre os magros proventos auferidos no fim do mês, estes pacientes não se podem dar ao luxo de curar um quadro gripal deixando-se ficar no domicílio entregues apenas ao “avinha-te, abifa-te e abafa-te” (chazinhos, com um ou dois dedais de conhaque, caldos proteicos de galinha, suadoiros e, eventualmente, antipiréticos). As patologias altas e baixas do aparelho respiratório e, em particular, a gripe, bem como as complicações respiratórias que quase sempre a acompanham são, ainda hoje, as causas mais frequentes da ida ao médico. Para quem vive mal, deprimido ou em stress permanente (condição a que a maioria da população não consegue fugir, agredida pela maldita crise económica que o país atravessa) e se alimenta pior, porque não beneficia de subsídios de alimentação ou não tem possibilidades de sonhar com fartas e lautas refeições, a fome parcial, ou seja a subnutrição proteica e vitamínica, é o estado fisiológico habitual. Ora, Senhor Ministro, a fome acompanha-se sempre, sempre, de imunodepressão e de doença subsequente. Mas até acreditamos que entre gente de casta superior como aquela a que Vossa Excelência e outros governantes pertencem nem se apercebam destas coisas comezinhas e insignificantes. Há até quem defenda que aumentar o salário mínimo é “ estragar a vida aos pobres” e que a “a maior parte dos pensionistas estão a fingir que são pobres” (João César das Neves – economista e ex-assessor de Cavaco Silva). Aludirmos aqui a esta teoria idiota, a priori, poderá parecer despropositado, mas, na verdade, ela traduz a opinião mais do que convicta da governação a que o Senhor Ministro pertence, ainda que, no fundo, bem lá no fundo, enquanto alto dirigente da saúde em Portugal Vossa Excelência possa sentir o drama da real situação económica de grande parte das famílias portuguesas, afogadas na austeridade e sem recursos para lhe fazerem frente, dotadas apenas do dito salário mínimo. Por isso, perguntamo-nos aqui se o distinto economista, João César das Neves, dispõe de dados estatísticos para justificar o que diz sobre os tais pensionistas que considera fingidos e se ele próprio entende ou acredita que o salário mínimo a que se refere lhe chegaria, a ele, para encher a barriga condignamente durante um mês. Será que as suas convicções (de César das Neves), aquelas pelas quais Carlos Paz  se atreve a mandá-lo, e muito bem, a um lugar bastante mal cheiroso (Carlos Paz – Carta Aberta a um Mentecapto (João César das Neves) https://www.facebook.com/carlos.paz.756/posts/700844983261907) foram estabelecidas com base em sondagens e análise estatística de amostras de população residente no condomínio onde vive ou no bairro onde faz as compras ao fim de semana?!  Já nem nos atrevemos a perguntar-lhe se o dito salário mínimo, que considera um montante mais do que suficiente para a sobrevivência condigna seja de quem for, lhe chegaria para alimentar mais alguém a seu encargo!
A acreditarmos que o Senhor Ministro se pauta pela mesma medida, de manter o salário mínimo onde ele está, para que não surjam imediatas convicções de luxo, de riqueza e de perdularismo na cabeça dos assalariados, percebemos porque é que está preocupado com o uso abusivo dos antibióticos, os quais, afinal de contas, mesmo genéricos e comparticipados, acabam por pesar na balança da saúde. Tendo em conta a sua mística cruzada socio-cifrónica dentro do Ministério que dirige, e aplaudimos sem ironia algumas das suas estratégias, temos muita curiosidade em saber como é que as equipas de especialistas em antibióticos vão poder resolver este imbróglio do uso e abuso destes fármacos. De resto, até achamos algo paradoxal o título do projeto sanitário, porventura, criado como marca perene da passagem do Senhor Ministro por esta área: “Como usar corretamente antibióticos”.
Não seria melhor, Senhor Ministro, ter pensado num título slogânico mais adequado às reais conveniências da saúde, designando-o de: “Como não usar antibióticos”. Seria, quanto a nós, bem mais dissuasor. Mas, enfim, esta nossa sugestão não passa de uma questão semântica, porque, de facto, sempre se continuarão a prescrever e a usar antibióticos nas situações que o justifiquem.
- Perante o número cada vez menor de técnicos, médicos e enfermeiros, que compõem as equipas de saúde, e o volume de consultas diárias solicitadas/impostas aos mesmos técnicos, como resposta aos objetivos economicistas e de rentabilidade institucional exigidos pelo próprio Ministério, o tempo disponível para cada utente é de alguns escassos minutos. Vossa Excelência, inclusive, sonha desde há muito com o trabalho médico feito e pago à peça e considera que o número de consultas despachadas por hora e não a sua qualidade é que constitui a prioridade número do seu Ministério. O doente, entretanto, contrariamente ao que se possa pensar, não pode nem quer sujeitar-se a perder dias de trabalho, isolado no domicílio, face à imediata e lesiva repercussão no seu magro salário, para se recompor calmamente de uma gripe ou de uma complicação respiratória secundária, recorrendo apenas a mezinhas ou às medidas simples,… e sem antibióticos…, do “avinha-te, abifa-te e abafa-te”. O médico prescreve-lhe antibióticos para obviar o curso da doença e, quando não o faz, é o próprio utente que o exige. Alguns dias de ausência no trabalho pode ser um salário mínimo ainda mais baixo ou mesmo, em alguns casos, a rescisão do contrato e “um pé no olho da rua”, porque compromete o desempenho do cargo que executa e não atinge ou põe em causa os superiores e incontornáveis objetivos da empresa. Não é fácil ficar doente e, por vezes, a tentação do antibiótico fala mais alto.
Ora, nestas circunstâncias socioeconómicas e sanitárias e sem deixar de ter em conta a precaridade alimentar e os estados de imunodepressão que ela acarreta, e não precisamos de confirmação estatística como a que se deveria exigir a João César das Neves para confirmar a sua tese (“o aumento do salário mínimo estraga a vida aos pobres”), o que se deveria então fazer para não usar e abusar de antibióticos?!
Simples:
- Alimentar melhor a população, educando-a nesse sentido e, como é óbvio, garantindo-lhe também mais rendimentos para tal. Porque a alimentação equilibrada (assente na qualidade, quantidade, adequação e harmonia) é cara. Ou o Senhor Ministro, porque ganha bem acima do salário mínimo e come bem e fartamente, desconhece o custo de vida em Portugal e quanto representa essa fatia em termos de despesa mensal para qualquer vulgar cidadão de poucos recursos? Cremos que não.
- Depois, o não uso de antibióticos, Senhor Ministro e caros especialistas convidados a participarem neste programa nacional de educação clínica, supostamente experts na prescrição destes fármacos, deveria passar, não apenas pela preocupação de orientar os médicos prescritores no âmbito da Terapêutica Curativa, mas também  pela aposta na Terapêutica Preventiva. Assim, este seu projeto deveria, isso sim, centrar-se na orientação e aconselhamento da classe médica sobre o Não Uso de Antibióticos, através das necessárias estratégias de formação no domínio da Prevenção, apostando na difusão e no ensino das normas, regras e conselhos ligados à higiene respiratória (evicção alergénica), tendo em conta que muitos dos indivíduos a quem é prescrito o antibiótico sofre frequentemente de patologia respiratória de etiologia atópica e, ao mesmo tempo, possibilitar ao doente o acesso comparticipado aos diversos fármacos e, em especial, às vacinas disponíveis para prevenir tais situações. Curiosamente, este ano de 2013, até as vacinas antigripe anunciadas como dádiva grátis em todos os centros de saúde do país não têm estado disponíveis em farmácias nem nestas instituições de saúde pública. E depois, Senhor Ministro da Saúde, Vossa Excelência não quer que os quadros virais derrapem em patologias bacterianas e em antibioterapia subsequente?!
Mas, o Senhor Ministro, porque alguém lhe disse que se usa e abusa de antibióticos, e teve razão, esqueceu-se de outros tantos “pequenos pormenores”:
- Consignar mais “tempo de antena” ao médico para uma boa anamnese, um melhor exame objetivo e uma adequada orientação terapêutica, quer no domínio dos conselhos higiénicos, quer no uso dos fármacos prescritos.
- Exigir cursos de formação na área da higiene respiratória, da infeciologia e, sobretudo, da alergologia a toda a classe médica e, em particular, àqueles clínicos que, comprovadamente, têm usado e abusado de antibióticos, segundo os dados oficiais recolhidos.
- Garantir que todas as vacinas disponíveis no mercado, orais ou injetáveis, como é óbvio, com ação profilática mais do que comprovada, quer por ensaio experimental quer por evidência clínica, sejam fornecidas grátis à população ou, no mínimo, razoavelmente comparticipadas, o que não se verifica desde há muito, por forma a prevenir as doenças mais comuns e, desta forma, reduzir o uso de antibióticos.
Quem está no terreno como nós e, ao longo de décadas, consegue que milhares de crianças, recorrentemente agredidas por antibioterapia, tenham deixado de usar estes fármacos ou nem sequer os tenham nunca tomado, apenas pelo recurso aos cuidados exaustivos de higiene respiratória (medidas de evicção alergénica), à reconversão e ao reforço do seu sistema imunitário com vacinas e fármacos apropriados, sabe do que estamos a falar. Mas a maior parte destes recursos terapêuticos, desde há muito, não têm a menor comparticipação e pesam bastante nas magras bolsas das famílias. São estas, as pobres famílias com pouco mais do que o salário mínimo, que têm de desembolsar os custos totais destes protocolos para que os seus filhos possam ver-se livres ou quase do uso de antibióticos. E ficam mesmo, acredite, Senhor Ministro, sem passes de mágica, de hipnose ou de milagres por intercessão divina. Só recorrendo a simples procedimentos hipocráticos e ao uso de fármacos, não antibióticos, de farmácia alopática. O problema é saber quais e como aplicá-los com critério e eficácia e isso, Senhor Ministro, não me parece que as suas equipas o venham a conseguir tão depressa, nessa urgente e árdua tarefa por todo o país, especialmente, quando confrontados com todas as impossibilidades que apontamos. A menos que muita coisa mude e isso acarreta-lhe despesas com reflexos sobre o malfadado défice. Por isso, suspeitamos que a sua cruzada não passará de uma montanha a parir um rato.  
Será que o Senhor Ministro, em vez de se concentrar na escolha das tais equipas de experts em antibióticos, destinadas a fiscalizar por este país afora o receituário médico, (re)ensinando os clínicos negligentes a prescreverem corretamente estes fármacos e limitando o risco de infeções super-resistentes decorrente da utilização abusiva de alguns deles, tarefa esta que, dada a superior formação dos “mestres” convidados, vai sair bem cara a todos  nós, contribuintes voluntários e involuntários do sistema,  não quer antes atinar sobre os nossos humildes conselhos ou solicitar a alguém mais avisado nesta matéria que o faça em sua representação?  Muitos irão ser os médicos penalizados, acreditamos, mas, salvo melhor opinião, não será desta forma que o Ministério da Saúde irá pôr termo ao uso considerado abusivo de antibióticos. É bem mais simples, a solução do problema.
Se não víssemos tantos incompetentes à frente da governação,  boyjobs pagos a peso de ouro que pouco ou nada fazem a não ser afundar a Fazenda Pública com gestão danosa e perdulária, sem qualquer penalização ou responsabilidade criminal pelos seus atos, ficaríamos tentados a oferecer os nossos préstimos pro bono ao Senhor Ministro dando-lhe/ensinando-lhe a solução que [ele] precisa para resolver este problema do uso excessivo de antibióticos, com maior detalhe. Ah, e faríamos acompanhar a “chave do busílis” do necessário suporte estatístico, como convém.
Entendemos que as nossas sugestões, mesmo enquanto orientações gerais, poderiam ser úteis se fossem objeto de reflexão de alguém mais entendido nestas matérias de medicina preventiva. Usar-se-iam, seguramente, menos antibióticos.
Senhor Ministro, ainda que o ceticismo prevaleça, e muito bem, como atitude cautelar subjacente às criteriosas decisões de Vossa Excelência, face à conjuntura sociológico-política que se atravessa, solicite, pelo menos, a alguém de “olho clínico” mais apurado que se concentre nos avisados sinais que aqui deixamos. Creia que não aparecem todos os dias Bons Samaritanos como nós, humildes e dedicados cultores da nobre Arte Hipocrática, dispostos a tais préstimos.

João Frada
Médico/Professor Universitário