quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

AFINAL, QUEM SÃO OS CULPADOS DA CRISE?

Afinal, quem são os culpados da crise?
Vitor Bento foi “um dos primeiros (se não mesmo o primeiro) a afirmar que os portugueses estão a viver muito acima das suas possibilidades, um dos poucos defensores da TSU que não chegou a ver a luz do dia em Setembro de 2012, [e um] opositor acérrimo a qualquer ideia de reestruturação da dívida.”
(http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2014/07/vem-ai-outro-vitor.html
Aparentemente influenciado pela mesma escola filosófica, João César das Neves partilha também da mesma opinião. Na sua ótica, os trabalhadores não diferenciados das classes baixas não devem ser aumentados, porque isso conduz, irremediavelmente, a vícios e exageros e acaba por gerar mais desequilíbrio social, económico e financeiro. A análise brilhante deste economista ficou registado nesta frase lapidar:  
Aumentar o salário mínimo “é estragar a vida aos pobres”.
(http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3537583)
Seguramente, para Vitor Bento, João César das Neves e todos os aqueles que se identificam com o Liberalismo, na sua concepção mais pura e radical (Malthusianismo), há que limitar direitos e meios aos mais pobres, os eternos agentes desestabilizadores da sociedade. E, claro, cerceando-lhes as capacidades a todos os níveis, incluindo o acesso à qualificação profissional, desmotivando-os a apostarem na formação académica e convidando os mais jovens a emigrarem, cumprem-se, definitivamente e na perfeição, os elevados ideais da corrente filosófica concebida por Thomas Malthus (1766-1834): “O Estado [deve ou]devia limitar-se a proteger os mais ricos, recusando quaisquer direitos aos pobres. O único conselho que lhes dá é que não se reproduzam.”
Em Portugal, como os mais jovens, prolíficos por natureza, emigraram e continuam a sair do país em larga escala e os que cá decidiram ficar não têm, como se sabe, quaisquer estímulos à natalidade (paga-se tudo: leites, farinhas lácteas, produtos de higiene, vitaminas, xaropes, vacinas orais e injetáveis, alguns broncodilatadores, mesmo não sendo associações medicamentosas, acesso a estruturas de apoio escolar e educacional, etc., para além de se desencorajarem mulheres trabalhadoras a evitar a gravidez, de modo a que tal condição não colida ou ponha em causa os “elevados objetivos empresariais”, sob pena de perderem emprego ou nem sequer terem acesso ao trabalho se apostarem no “projeto da maternidade”, a natalidade encolheu drasticamente.
Tendo em conta os dados do Eurostat, Portugal foi o país da EU com pior taxa de natalidade em 2013.
Segundo o “Documento de Estratégia Orçamental (DEO) do Governo, apresentado a 30 de abril 2014, em 2015 a TSU passa para 11.2%, aumentando em 0,2% a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social.”
(http://www.economias.pt/taxa-social-unica/)
A TSU passa de 11 para 11,2%. Decisão acertada da governação e dos seus ideólogos.
O rendimento dos trabalhadores, que integram cerca de 85% da grande maioria da população (classes baixa, média-baixa e média), como é demasiado chorudo e bem almofadado de subvenções, mordomias e gorduras de toda a espécie, tem que ser reajustado com mais uma taxa de 0,2 %, a fim de que não haja tentações e estes perdulários se limitem a viver de acordo com as suas possibilidades, até aqui, descontroladas, imponderadas e geradoras de uma crise que lançou o país num caos de défice e de dívida. Resta saber se os restantes 15%, os que mais podem e sempre puderam, e, dentre estes, a minoria cada dia mais enriquecida e protegida pelo Estado, obviamente, na visão de Vitor Bento e de outros inteligentes iluminados e privilegiados deste país, governantes ou não, mais do que justamente compensados pelo seu insubstituível e desgastante contributo de gestão e administração, só possível pela excelência do seu currículo técnico-profissional e académico e pelas competências que lhes são inerentes, tem ou teve alguma responsabilidade na crise crónica que levou Portugal à quase bancarrota e ao níveis de notação que as agências rating nos reconhecem de permanente “lixo financeiro”. Provavelmente, não, dirá Vitor Bento, aplaudido de perto por todos os seguidores da mesma corrente filosófica.
A 30 de Julho, Vítor Bento, acompanhado por José Honório e Moreira Rato, conhecedores da situação caótica do BES, solicitaram à ministra uma reunião, "pois estavam muito preocupados com o volume de prejuízos" semestrais de 3600 milhões, os maiores de sempre da história empresarial portuguesa. "E perguntaram se seria possível uma intervenção no BES nos moldes da do Banco Internacionald do Funchal (Banif)”.
(http://www.publico.pt/politica/noticia/maria-luis-diz-que-nunca-foi-apresentado-um-plano-de-recapitalizacao-do-bes-1676807)
Porém, o “Governo não mostrou disponibilidade para a capitalização pública do BES", concluiria Vitor Bento.
O Governo tirou-lhe o tapete, senão, poderíamos vir a assistir a mais um tremendo descalabro em termos de finanças públicas, orientadas teoricamente para retirar da fossa mais uma instituição bancária mal gerida e esburacada por negócios e atos de corrupção, alegadamente, levados a cabo por Ricardo Salgado e outros membros responsáveis pela sua administração, reabilitação essa que iria realizar-se, uma vez mais, à custa do esforço e suor de todos os contribuintes. O processo BES ainda não terminou e ninguém nos garante que tal não venha a acontecer. Todavia, para Vitor Bento, a recapitalização era a medida mais ajustada ao trabalho de recuperação do segundo maior banco privado português, ainda por cima, com o aval do Banco de Portugal.     
O défice e a dívida lançaram o país nas mãos da Troika, mas os culpados da crise, afirma Vitor Bento, são “os portugueses, [que] estão a viver muito acima das suas possibilidades”. Tem piada, não tem?
Embora este ilustre economista não especifique quais os portugueses que têm vivido ou vivem ainda acima das suas possibilidades, calculamos que se refira àqueles  que constituem a grande maioria, já que a minoria de que faz parte, essa, seguramente, poupada, contida nos gastos, profundamente contributiva e solidária com o crescimento e a riqueza nacional, em nada terá contribuído para tal fatalidade: a crise. Para que ninguém fique com sentimentos de culpa indevidos, com traumas dificeis de apagar, com sentimentos de angústia capazes de gerar transtornos obsessivo-compulsivos dificeis de tratar, seria bom que Vitor Bento pudesse, então, identificar que grupos ou classes de cidadãos têm vivido ou ainda vivem acima das suas possibilidades, por forma a que a restante sociedade possa, definitivamente, estabelecer normas de contenção a esse perdularismo que afeta a paz, a tranquilidade e o equilíbrio psicológico e vivencial do país…e com vista a que se não continuem a afetar, tão violentamente, as “contas públicas”.
João Frada  




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PASSARINHO

PASSARINHO

Meu amor, meu andorinho,
Voa sem medo, a direito,
Traça agora o teu destino,
Escolhe o teu rumo perfeito.
Faz-te depressa ao caminho.

Foi-se o frio, a tempestade.
Tenta não perder o tino,
Voa lesto nesta aberta… 
Cá te espero, com saudade,
Sou a tua sentinela,
Não te abro fresta nem porta
Por ter sempre uma janela
Sem grades nem rede fina,
À entrada do meu peito,
Entreaberta, pequenina,
Sempre à espera de te ver,
Meu amor, meu passarinho,
Pousar no meio dos meus braços
E fazeres aí o ninho.

Cidade das Nuvens (sine data)


AFINAL, EM PORTUGAL, HÁ OU NÃO CORRUPÇÃO?

Afinal, em Portugal, há ou não corrupção?
Cândida Almeida: “Onde há poder, há corrupção”.
Num artigo, da autoria de Carlos Rodrigues, publicado no “Diário de Notícias” de 26 de março de 2009, podíamos ler estas afirmações de Cândida Almeida, nessa data, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal:
 “A penalização do enriquecimento ilícito é fundamental para a existência de um Estado transparente “perante a exibição pública de poder e de dinheiro de um pequeno grupo cada vez mais rico que afronta a sociedade”, disse hoje Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal.”
(…)
Para Cândida Almeida, acabar com a corrupção é uma tarefa impossível. “Onde houver poder, há corrupção. A nossa tarefa é controlá-la, mantendo em níveis aceitáveis.”
(…)
“Uma população menos qualificada, menos crítica, menos atenta, facilita a oferta de decisões ilícitas.”
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1182233#AreaComentarios)
Para Cândida Almeida, a corrupção não deve ou não tende a deixar de existir. Deverá continuar a haver, seguramente, mas em níveis aceitáveis. Cómica, esta afirmação!
O que são níveis aceitáveis? Numa escala de 1 a 10, por exemplo, o que considerará a ex-diretora do DCIAP como um nível razoável?
Na sua perspetiva, pelos vistos, é uma população mais qualificada, crítica e atenta que impede decisões ilícitas. Ou seja, quando há corrupção entre as classes do poder, e esta hipótese não é totalmente afastada por Cândida Almeida em todas as suas decalarações (“onde há poder há corrupção; não há corrupção entre a classe política, mas a haver, é residual; não deve haver corrupção, mas se houver que seja em níveis aceitáveis”), essa terrível mazela entre a elite governativa  fica a dever-se, implicitamente, não ao perfil desonesto, indigno, imoral e torpe do indivíduo que pratica ações ilícitas (branqueamento de capitais, fraude fiscal, favorecimentos, tráfico de influências, corrupção, uso abusivo do erário público, etc.), mas da população, em geral, que, na opinião da ilustre magistrada, dr.ª Cândida Almeida, é acrítica, pouco qualificada, politicamente ignorante, desatenta e indiferente aos rumos de quem governa. Em resumo, é à grande maioria da população que deve ser imputada a culpa da corrupção, quando ela existe e judicialmente fica comprovada enquanto prática ilícita de um ou outro governante, oportunamente, apanhado ou caído nas malhas da judiciária e da justiça.
(http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1182233#AreaComentarios)
Mais recentemente, a dr.ª Cândida de Almeida, depois de uma esforçada análise sobre esta matéria tão preocupante para qualquer instituição que exerce a ação penal e vela pela defesa da legalidade democrática e pela promoção do acesso dos cidadãos ao direito e à justiça, assume publicamente que “a corrupção não existe”. Ainda na qualidade de diretora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), foi à Universidade de Verão da JSD proferir uma oração de sapiência sobre a sua especialidade. Na preleção, a magistrada, a fazer fé na comunicação social, disse "olhos nos olhos" aos jovens sociais-democratas que "o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos".
(http://apodrecetuga.blogspot.pt/2014/10/nao-ha-corruptos-em-portugal-diz.html)
Entretanto, a dr.ª Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, parece ter uma opinião bem diferente e deixa bem clara a sua posição sobre este assunto: “elege como prioridade o combate à corrupção que “mina o Estado de Direito” e a recuperação da credibilidade do sector.”
(http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/politica/detalhe/paula-teixeira-da-cruz-combater-corrupcao.html)
De igual modo, e contrariamente a Cândida Almeida, o vice-presidente da Associação de Integridade e Transparência, dr. Paulo de Morais, garantiu hoje que a crise económica em Portugal não se deve ao facto de os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades, mas aos fenómenos de corrupção. Na sua opinião, expressa sobre a "Origem da Crise" numa conferência onde se discutiu o “Modelo do Estado Social”, promovida pela Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal, "grande parte da dívida pública e privada é fruto da corrupção e não dos alegados excessos dos portugueses. (…) O que o Estado pagou a mais às PPP só é possível porque a sede da política - Assembleia da República - está transformada num centro de negócios". (…) A aquisição de dois submarinos à Alemanha é, segundo Paulo Morais, mais uma caso de "corrupção comprovada", não pelos tribunais portugueses, mas pelos tribunais da Alemanha.(…) Na Alemanha há pessoas [acusadas de corrupção] a dormirem todos os dias na cadeia.”
(http://www.jn.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3197601&page=-1)
Marinho Pinto, ilustre jurista, ex-bastonário da Ordem dos Advogados e fundador do PDR (Partido Democrático Republicano), também no seu jeito muito peculiar de fazer política, vem denunciando o que toda a gente sabe existir e até agora ninguém ou muito poucos têm conseguido provar; segundo ele, há corrupção, e muita, entre a classe política e entre governantes e empresários com ligações profundas ao Estado. 
Curiosamente, porém, tal como a dr.ª Cândida Almeida, o dr. Marinho Pinto vai dizendo que “o povo tem os governantes que merece”, já que elege gente com antecedentes pouco fiáveis, com processos de suspeição em curso, com condenaçoes no currículo. Na sua opinião, “O povo não é exemplar nas opções políticas que faz”. Embora essa razão não justifique a venalidade de nenhum político, seja ele governante ou não, a verdade é que um povo sem consciência política é facilmente ludibriado e, numa democracia indireta como a nossa, acaba por delegar o seu poder em representantes que, muitas vezes, cuidam apenas dos seus interesses, atropelando ou corrompendo os supremos objetivos para que foram eleitos: governar com inteligência, isenção, honestidade e sentido ético e moral. Uma população, assim, que apenas manifesta e expressa a sua desilusão e o seu descontentamento em surdina e tolera todos os desmandos, apesar de se sentir mal governada, abstendo-se de votar ou alimentando a fatídica e gasta alternância político-partidária, elegendo em cada ato eleitoral os governantes que puniu quatro anos antes, como se os mesmos, passado este interregno, se tivessem reabilitado dos seus vícios, incompetências e limitações, corre o risco permanente de apostar, não em gente competente e séria, mas em mercenários, ineptos e corruptos, dos quais jamais se poderá esperar uma governação eficaz, saudável e sensata. 
Todas as semanas, ou quase todas, se destampa mais uma “Caixa de Pandora”. A semana passada, no decorrer da Operação Labirinto, centrada sobre os Vistos Gold, num “pré-julgamento” relâmpago, …coisa nunca vista em Portugal, onde a maior parte dos processos envolvendo “gente de colarinho branco” prescrevem e não dão em nada,… foi colocada uma série de altas figuras da vida pública portuguesa em prisão domiciliária e sob prisão preventiva, nos calabouços da PSP, sem apelo nem agravo.
Poucos dias depois, destampa-se outra e sai dela José Sócrates. A braços com a justiça, alegadamente, por fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, encontra-se detido em prisão preventiva, a aguardar julgamento. Ainda que muitos desejem firmemente a sua condenação, sem dó nem piedade, a verdade é que o único julgamento a que foi sujeito foi o da opinião pública, e a esse, que o terá assassinado politicamente, já ninguém o poupa. Mas será que o cidadão José Sócrates, porque foi ex-Primeiro Ministro, não tem direito a um julgamento imparcial e justo?
A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 em seu artigo XI, 1, dispõe: “Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa”.
O sistema judicial nunca correria o risco de sujeitar uma figura mediática como José Sócrates a uma situação de desfiguração pessoal e política tão dramática, acreditamos nós, se não tivesse a certeza plena de que ele “tem mesmo culpas no cartório”. Seria um descalabro total para a cotação dos nossos magistrados e um escândalo ainda maior para a imagem dos tribunais e do próprio Estado português, se viesse a comprovar-se a sua inocência, depois deste tremendo aparato em torno da sua detenção. Todavia, a prisão preventiva de Sócrates causou-nos perplexidade mas, a par disso, a quebra ou violação do segredo de justiça, que em Portugal começa a ser uma doença judicial crónica, preocupa-nos ainda mais. A comunicação social, é claro, aproveitou para fazer um “festival” em torno da prisão do visado. O tratamento conferido a José Sócrates, quer pela justiça quer pelos “media”, tem sido, efetivamente, personalizada e requintadamente humilhante e punitivo, tendo em conta o desvelo “extremoso” concedido a Ricardo Salgado e o moderado grau de punição atribuído, por exemplo, a Isaltino de Morais, a Oliveira e Costa, aos recentes envolvidos no caso dos Vistos Gold e, até agora, a Duarte Lima, também eles considerados como agentes responsáveis por crimes graves de fraude fiscal, branqueamento de capitais, atos de corrupção e uso indevido de dinheiros públicos e privados. Será que a justiça portuguesa dispõe mesmo de dois pesos e duas medidas, como muitos lhe apontam?    
A acreditar que os tribunais portugueses poderão, finalmente, vir a garantir uma criteriosa, isenta, justa, imparcial e continuada prática de justiça e que a espada de Dâmocles acabará por cair em cima de ricos e pobres ou de cidadãos comuns e de figuras públicas com o mesmo gume preciso, afiado e célere, a corrupção tem os dias contados e, então sim, talvez venha a reduzir-se a níveis aceitáveis, como dizia a drª Cândida Almeida.
Suspeitamos que, nesta onda de saneamento judicial do país, aparentemente, visando a reabilitação moral da vida política e governativa, dirigida, pela primeira vez, a altos cargos da administração pública e a figuras de grande notoriedade social, viremos a ter mais surpresas.
Mas a que se deverá esta revoada de purificação na “República” que muitos apelidam “das bananas”? A uma consciência renovadora do poder judicial, isento, equitativo e justo, cumprindo escrupulosamente o seu dever, ou a revanches partidárias entre as habituais forças que, alternadamente, assumem o poder, dispostas a arrasar politicamente os adversários mais incómodos e com telhados de vidro mais quebráveis?  
Qualquer coisa parece estar a mudar neste Oásis, pelos vistos, menos socrático do que outrora, ou neste jardim imaculado da dr.ª Cândida de Almeida, onde talvez haja mesmo alguma corrupção, e não tão residual como ela apregoava.
Aguardemos pelos próximos episódios.
João Frada  


sábado, 22 de novembro de 2014

ARAGEM

Manhãs sombrias,
Vento nordeste,
Tardes vazias,
Ecos perdidos
Da minha voz…
São os meus dias
Assim vividos,
Frios e sós.
Outono triste
Que me enregela,
Feito de neve
Que se acastela
Dentro de mim,
E traz em breve
O frio inverno
A morte, o fim.
Mas, soam grilos,
Canta a cigarra
Sem temperança
Outra alvorada
Cobre o jardim.
De tanto ouvi-los
nesta algazarra
inesperada
nasce uma esperança 
dentro de mim.





sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DOENÇAS INFECCIOSAS

Doenças infecciosas mais mortíferas na sociedade planetária, ao longo da História, e respectivas respostas sanitárias para a sua erradicação ou contenção.

PREÂMBULO. IN: FRADA, João – Pandemias de Gripe A (H1N1) em Portugal (1918-2009): ecos e cismas do passado no presente. 2ª edição bilingue (Português/Inglês). Lisboa: Clinfontur edições; 2012. [Texto revisto e atualizado]

PARTE I

“As epidemias marcaram, desde sempre, os ritmos da Civilização. E não só determinaram importantes transformações no processo cultural, mental e técnico do Homem (sempre movido pela sua natural tendência em compreender e controlar todos os fenómenos mórbidos), como ocasionaram, enquanto factores de natureza epidemiológica e demográfica, alterações profundas nos sistemas sociais, políticos e económicos.
Os reflexos, imediatos e tardios, resultantes da acção da peste negra de 1348 sobre a sociedade medieval são, para grande número de historiadores, o exemplo mais paradigmático do que acabámos de dizer.
Fortemente estruturado na Igreja e nos seus valores e, como é óbvio, no próprio feudalismo (em Portugal, sem grande expressão), o modelo de vivência medieval, não restam dúvidas, entrou em falência quando as populações, ceifadas pela terrível epidemia, foram desaparecendo e quando os sobreviventes passaram a interrogar-se sobre a inconsistência dos velhos dogmas e certezas, especialmente inerentes à saúde e à doença. Duvidando da imunidade garantida pela mística e pela fé cristãs, ousando pôr em dúvida a teoria do contágio por desígnio divino(1), os espíritos mais insatisfeitos da Baixa Idade Média identificavam-se já com uma nova forma de pensar, em suma, com um novo Homem.
A varíola, também ela um flagelo ao longo de séculos, originando a morte ou deixando marcas terríveis no corpo e no rosto das suas vítimas (a célebre cabeça mumificada do sacerdote egípcio de Amon é, decerto, um dos testemunhos mais antigos da sua acção lesiva), seria, finalmente, dada como extinta em 1977. Os primeiros passos da medicina com vista à sua definitiva contenção viriam a pertencer a Edward Jenner, o qual, depois de ter verificado a imunidade dos tratadores de vacas contra a varíola, realizou com êxito, em 1796, a primeira vacinação contra a doença. Desde então até aos finais dos anos 70, a comunidade internacional, através de programas e acções planificados pela Organização Mundial de Saúde (instituição especializada das Nações Unidas, fundada em 1948), entre os quais se destaca o PAV (Programa Alargado de Vacinação), viria a conseguir a erradicação completa da doença no Planeta. Cólera, febre amarela e tuberculose, também estas entidades têm constituído e são, ainda hoje, um sério desafio para todos os agentes da saúde mundial. Ao longo de um século de medicina científica desenvolveram-se vacinas e fármacos com grande eficácia terapêutica. Estes ganhos e avanços da medicina, em contraste gritante com as condições médico-assistenciais e o nível higiénico e sanitário que caracterizavam a Idade Média e grande parte da Época Moderna, por si só, deveriam constituir um factor limitativo ao aparecimento de surtos epidémico-pandémicos de natureza viral ou bacteriana, na contemporaneidade. Todavia, os mesmos mecanismos geradores das crises demográficas do passado mantêm-se hoje presentes e assumem-se, porventura, como factores tendencialmente reguladores do tremendo desequilíbrio verificado no binómio recursos-população, já pressentido e formulado por Malthus nos finais do século XVIII. Os críticos do malthusianismo defendem que o autor setecentista do Ensaio sobre o Princípio da População e as suas ideias não só entraram, rapidamente, em decadência como se tornaram inaplicáveis à realidade do século XX, «paradigma da industrialização, do desenvolvimento e do bem-estar».
As novas estratégias políticas, teoricamente, tenderão a conciliar medidas económicas com medidas demográficas, a produção será desenvolvida e racionalizada. O emprego, apesar de nunca pleno, tenderá a ser superior ao desemprego, o subsídio de desemprego e as reformas assegurados e as reformas assegurados pelo Estado-Providência evitarão as condições de miséria e de fome, e o nível de vida razoável das populações, desfrutando, nestas circunstâncias, de uma medicina social cada vez mais evoluida e apoiada no planeamento familiar e em cuidados de saúde primários criteriosamente estabelecidos, conduzirá, invariavelmente, à negação do malthusianismo pessimista.
No entanto, o desemprego no Ocidente sobe em crescendo e o aumento da longevidade, a diminuição da natalidade e a senilização populacional põem em risco, cada vez mais, as garantias de continuidade do Estado-Providência. À medida que se criam novas soluções, a população, senil em grande número, cairá na indigência e na miséria e constituirá, por isso mesmo, um alvo predilecto das mais diversas doenças e epidemias. Mas se, por enquanto, a célebre tetralogia carestia/fome/imunodepressão/doença não parece ser no Velho Mundo, com uma produção excedentária, um factor endógeno responsável por graves crises demográficas, já o mesmo não acontece no Terceiro Mundo. Apesar dos esforços envidados pelos países desenvolvidos e do sério empenhamento de muitas organizações intergovernamentais e não governamentais, envolvidas na procura e implementação de estratégias e soluções capazes de minimizar o tremendo desequilíbrio económico e social visível entre os povos do chamado eixo Norte-Sul, a verdade é que os países do Norte continuam mais ricos e os do Sul vão ficando, cada dia, mais pobres.
As guerras, as secas, as inundações, as pragas, a carestia, a fome e as epidemias são, actualmente, um cenário comum entre as comunidades dos países «ditos» em via de desenvolvimento.
Nesta «aldeia global», crises, doenças ou quaisquer outros problemas surgidos em locais mais ou menos recônditos e isolados, mercê de uma dependência internacional cada vez maior e, ao mesmo tempo, de uma enorme facilidade de comunicação e movimentação de homens e animais, podem alastrar rapidamente a todos os continentes desencadeando, por vezes, perturbações de reflexos gigantescos.
Os microrganismos, que não conhecem fronteiras, circunstancialmente irrompidos dos seus habitats naturais e instalados nos seus habituais hospedeiros, homens e animais, vão assim circulando livremente de país para país, de continente para continente, gerando, cada vez com maior frequência, estados de alarme e de preocupação bem demonstrativos da grande vulnerabilidade de todo o ser humano e de todas as sociedades a estes agentes.
As doenças de carácter infecto-contagioso provocadas pelo vibrião do Cólera, pelo vírus de MARBURG ou pelo vírus ÉBOLA, este último responsável, em 1995 e em 2000, por um considerável número de mortes na África Central e Equatorial, constituem a prova inequívoca de que, mesmo nos finais do século XX, início do século XXI,  a Humanidade e a ciência médica não têm conseguido controlar, por completo, os agentes patogénicos, sejam eles vírus, bactérias, fungos ou protozoários.
E mesmo quando a medicina julga dispor de soluções preventivas e/ou curativas para tais doenças e a imunidade passiva ou activa parece poder garantir algumas certezas para «amanhã», a instabilidade etológica e ecológica da Natureza determina constantes alterações imunogenéticas, quer em hóspedes quer em hospedeiros, e tudo parece voltar ao ponto zero.



PARTE II

Há, claramente, populações melhor imunizadas do que outras contra determinadas doenças.
Na Época Moderna, por exemplo, os Europeus (Espanhóis, em particular), rumando a outros continentes, levaram consigo sarampo, gripe, rubéola e outras entidades mórbidas com as quais facilmente conviviam, desde há séculos, sem grandes problemas. Desconhecendo, em absoluto, a carga potencialmente letal que transportavam – microrganismos, alguns deles, de grande virulência –, contagiaram as comunidades do Novo Mundo (Incas, Aztecas e Maias), as quais, sem defesas imunitárias contra tais agentes, acabariam por ser praticamente dizimadas.
Dispomos hoje de estudos que consideram, inequivocamente, a acção daquelas impremeditadas armas biológicas sobre as populações ameríndias, na Época dos Descobrimentos, como tendo sido mais mortífera do que a própria guerra.
Uma vez que não ficou ainda completamente provada a nova teoria de Acuna-Soto sobre a causa de extinção dos cerca de 22 milhões de Astecas, desencadeada por um terrível surto epidémico de febre hemorrágica, devido à acção do vírus cocolitzli, agente patogénico até agora não observado/identificado pela microbiologia, resta-nos a velha convicção de que a morte desta Civilização se ficou mesmo a dever, em grande parte, à acção de doenças arrastadas pelos europeus para o continente Sul-Americano. (2)
A razia demográfica observada entre as comunidades autóctones da América Central e da América do Sul na Era Colombiana, detentoras de conhecimentos técnicos consideravelmente evoluídos para a época e dispondo de exércitos numerosos e bem preparados, só parece, pois, poder ser compreendida pela debilidade que as doenças bacterianas e virais de índole europeia terão desencadeado sobre os seus organismos, sem o mínimo de imunidade contra tais agentes patogénicos, até aí desconhecidos naquele sistema ecológico. Hoje, a medicina dispõe de um arsenal de conhecimentos e de uma logística que pretende ser coordenada, eficaz e actuante, quer através de mecanismos normais accionados por cada Estado, quer pela própria OMS, esta última responsável por uma alargada estratégia sanitária, cobrindo todas as áreas do Globo.
Assim, nesse esforço conjugado de políticas de saúde desenvolvidas, sobretudo a partir de 1948, o século XX caracteriza-se por uma extensa actividade no domínio preventivo, com vista a reduzir os elevados custos desencadeados pelas doenças e pelo elevado número de mortes registado, especialmente, nas regiões tropicais. Esta vastíssima acção no domínio higiénico e sanitário tem-se centrado na implementação de programas de vacinação massiva (PAV--OMS), nas regulamentações relativas à alimentação e às condições de habitação, nos controlos de fronteiras, nas campanhas de desratização e de desmosquitização (as campanhas desenvolvidas pelos Portugueses em África, contra o paludismo e contra a doença do sono, reduziram significativamente o impacto destas terríveis enfermidades sobre as populações), no saneamento das águas de consumo, na difusão de regras elementares de higiene pública e doméstica e no estabelecimento de convenções de natureza sanitária entre os mais diversos países que compõem o sistema internacional. Todavia, a eficácia desta acção preventiva multidireccional só é observável se, dentro e fora de cada país, reinarem a ordem, a paz e a segurança e as populações puderem dispor de um mínimo de recursos para garantirem uma vivência relativamente condigna.
Neste «grande pátio», onde parecem conviver todos os países, basta haver um que caia ou viva na desorganização e na pobreza temporária, geradas pela anarquia económica, por calamidades ou guerras, e os fenómenos epidemiológicos de natureza infecciosa, de relativamente endémicos e controlados, passam a epidémicos e acabam, quantas vezes, por assumir proporções devastadoras. Os países mais desenvolvidos, de um modo geral melhor equipados medicamente, respondem com grande eficácia e prontidão a esses surtos ou crises. Mas um país pobre, Africano, Sul-Americano ou Asiático, cuja população é, seguramente, mal equipada no domínio médico-sanitário, subnutrida e imunitariamente frágil, sentirá com maior violência a crise demográfica despoletada por qualquer epidemia.
Se até agora a medicina tem conseguido suster no limes ou "fora de portas" essas ameaças, cada vez mais frequentes no Terceiro Mundo, e o desenvolvimento da imunoterapia e da engenharia genética nos deixa antever, para um futuro relativamente próximo, a produção de armas terapêuticas (anticorpos, soros e vacinas) contra os demais antigénios, as certezas de amanhã quanto ao comportamento dos microrganismos são, para nós, uma incógnita. Tal como o ser humano vai sobrevivendo, criando novos recursos e imunidades contra os agentes mórbido-letais que pululam à sua volta, também a Natureza evolui e, durante esse processo, todas as outras espécies vivas, incluindo as patogénicas, sofrem constantemente transformações a nível genético. Deste modo, os genótipos mais favorecidos, quando encontram um terreno favorável, independentemente dos esforços de contenção ou de controlo médico-científico, podem determinar autênticas razias, parecendo reflectir, em alguns casos, uma acção aparentemente reguladoro-demográfica. Ter-se-á, pois, de admitir que os recursos terapêuticos de ponta surgidos entre os finais do século XX e o século XXI, pura e simplesmente, tem sido e continuarão a ser ultrapassados por estes agentes patogénicos, perfeitamente adaptados e sempre situados, podemos dizê-lo, um passo à frente da medicina científica.
Nesta visão algo sombria, mas real, do Mundo, em que a redistribuição de recursos não funciona e em que perecem, diariamente, milhares de pessoas (directa ou indirectamente devido à fome e à miséria), enquanto não surgir uma nova geração de homens-máquina, resistentes a tudo e capazes de substituir o homo sapiens em toda a sua dimensão vivencial, os microrganismos responsáveis por surtos epidémicos ou pandémicos irão continuar a exercer a sua acção mórbida e letal.
Teoricamente, as políticas de saúde desenvolvidas por todos os Estados do século XXI, a par dos esforços desenvolvidos por múltiplas organizações sanitárias espalhadas e activas em todos os continentes, deveriam ser mais do que suficientes para controlar, prevenir e minorar quaisquer riscos epidémicos, poupando assim as populações aos dramas e ao temor que, outrora, pesavam no quotidiano social. [Mas as certezas e previsões no domínio da microbiologia e da parasitologia, apesar dos grandes avanços científicos, nunca virão a ser possíveis de estabelecer com rigor absoluto. Futurologia, neste domínio, como noutros, é ainda matéria  hermética e intransponível para a ciência. Todavia, ponderar sobre a enorme possibilidade de expansão de uma doença tremendamente infecciosa, como o ÉBOLA, perante as miseráveis condições sociais e higiénico-sanitárias dos povos onde esta e outras patologias infecciosas são, desde sempre, constantes flagelos, não é um exercício intelectual tão transcendental. Adivinha-se, a qualquer momento.  Este último surto  viral, em 2014, bem demonstrativo das fragilidades e incapacidades sanitárias, quer dos países onde a doença é endémica quer da própria sociedade ocidental, tecnológica e medicamente mais avançada, é a prova irrefutável dessa imprevisibilidade tão inquietante.
A sociedade Ocidental, pontualmente alvejada pelo vírus, acordou para o perigo eminente de uma epidemia incontrolável e, apoiada na OMS e nos seus próprios serviços sanitários, apressou-se a definir, não só, protocolos de controlo e prevenção epidémica, dentro e fora das suas fronteiras, como decidiu, finalmente, envidar esforços redobrados na produção e ensaio de novos antivíricos e fármacos, com algum sucesso (Favipiravir, Brincidofovir, Zmapp, TKM–Ébola). Temporariamente, o perigo parece ter sido debelado. Mas, enquanto houver miséria e iliteracia como aquelas que caracterizam grande parte das sociedades africanas, qualquer patologia infecciosa local pode virar epidémica ou pandémica.]      
Neste Planeta, marcado por profundas diferenças sociais e económicas,  grassarão, inevitavelmente, as velhas doenças e virão, decerto, a aparecer e a difundir-se novos microrganismos com carácter virulento. Nessa medida, o esforço de combate farmacológico e terapêutico assumido pela medicina poderá vir a ser debalde. Os recursos médicos e tecnológicos poderão, de facto, periclitar perante tais flagelos. A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) é disso exemplo.
Quando a ciência não parece dispor de qualquer saída medicamentosa, curativa ou profiláctica, para o combate de uma doença que se assume epidémica e mortífera, uma vez mais, a velhíssima medida da quarentena (cumprida por inteiro ou reduzida), instituída durante a Idade Média como a melhor regra preventiva contra a peste, volta a funcionar com eficácia. Isolam-se os doentes ou os suspeitos de contágio. Circunscrevem-se o espaço e os contactos dos contagiados ou que se julga estarem contaminados. Barram-se os acessos a regiões, locais ou países afectados. Fecham-se fronteiras e aeroportos.
Vigiam-se portos e todos os pontos de entrada e de saída. Obrigam-se a fundear e a permanecer ao largo as embarcações oriundas de áreas contagiadas, em regime de quarentena. O tempo define e resolve tudo. Funciona a selecção natural. Morrem os mais débeis. Convalescem e curam-se os mais resistentes com ou sem apoio médico-farmacológico. Cometem-se exageros quando, porventura, se estabelece o corte radical, ainda que temporário, de comunicações com países e comunidades onde a doença prolifera; revivem-se temores e fantasmas de sabor medieval e dissolvem-se, com frequência, os laços e o sentido da humanização e da solidariedade, quer enquanto valores individuais, quer enquanto expressão colectiva.
Por maior evolução que a ciência médica apresente e as técnicas ao seu serviço possibilitem, o ser humano ter-se-á de confrontar sempre com novos desafios, doenças e flagelos, explicáveis ou não à luz da epidemiologia do seu tempo. Nesse duelo permanente, para além dos velhos ensinamentos que a voz da experiência colectiva foi firmando e dos recursos disponíveis à satisfação das exigências de cada época, há princípios indeléveis que, hoje e sempre, são o garante da continuidade e da sobrevivência do Homem, conferindo-lhe um lugar ímpar no reino animal: tolerância, altruísmo, humanização, solidariedade e cooperação.
Só através da orientação ou definição de um estilo de vida inteligente e ecológica e de uma união eficaz de esforços e vontades, a nível intra ou extra-planetário, o «homem de amanhã» pode fazer face aos microrganismos virulentos ou a quaisquer outros agentes patogénicos, velhos ou novos, de carácter epidémico ou não.
Mas se o futuro é, em si mesmo, um enigma neste domínio, as certezas do presente não deixam margem para dúvidas e requerem toda a nossa atenção: em todo o Mundo morrem anualmente mais de 75 000 000 de pessoas, devido a doenças infecciosas. Talvez seja este o preço que a Humanidade terá sempre de pagar à Natureza, pela forma como nela se integra e dela se serve, ameaçando e destruindo, constantemente, elementos vitais à sua natural dinâmica e harmonia e pondo, assim, em causa alguns dos principais mecanismos responsáveis pelo equilíbrio ecológico global.”

(1) Coevos da grande peste negra de 1348, dois médicos hispano-árabes terão sido as primeiras vozes a discordarem das explicações místicas, pré-racionalistas, atribuídas à contagiosidade da doença. Ibn Al-Khatib, numa obra sua, "Compendium de epidemia per Collegium Facultatis Medicorum Parisiis ordinatum", considerado dos primeiros tratados descritivos da peste, põe pela primeira vez em causa a etiologia divina da mesma e avança com a possibilidade de o contágio se poder processar através do contacto com objectos pessoais do doente, ideias não só originais como heréticas, naquela época. Um outro físico, Ibn Khatimah, com uma larga experiência clínica no tratamento de empestados, conclui também que a doença é altamente contagiosa, já que, com grande probabilidade, um indivíduo em contacto com um pestoso acaba por contrair as mesmas queixas: «se o doente expectorava sangue, o contagiado fazia o mesmo (peste pulmonar); se o pestoso era bubónico, o segundo também o seria» (ROQUE, Mário da Costa - As Pestes Medievais Europeias e o «Regimento Proveitoso contra a Pestenença». Lisboa/Paris: Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português; 1979. p. 59-60).

(2) What killed the Aztecs? (http://www.solopassion.com/node/1304).

João Frada
Professor Universitário (Ph.D.) da FML


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Passos Coelho e as suas teimosias

Marcelo Rebelo de Sousa: «Teimoso como é, Passos não vai fazer nenhuma remodelação»

Passos Coelho é teimoso, firme e inabalável nas suas atitudes e decisões, diz o Professor Marcelo de Sousa e afirmam outros analistas. E não vai alinhar nem em remodelações nem em reformas do Estado. Não há dúvida. Os que esperam ver ousadias dessas, podem esperar sentados. 
É pena, realmente, que essa determinação e firmeza governativas não sejam orientadas para iniciar a esperada remodelação, depois de uma tão intensiva programação do “Perdoa-me” governamental, na qual outros ministros ainda podem vir também a ser tentados a participar, e brilhariam certamente, quanto mais não seja pela sua enorme capacidade de improviso, patente em todo o seu percurso governativo. 
A par disso, tem faltado também a Passos Coelho a vontade de se aplicar com a necessária perseverança no controlo do descalabro das despesas públicas. Reduzir drasticamente as "gorduras" do Estado, os gastos supérfluos, as despesas exageradas com a manutenção de privilégios de todos os altos cargos da administração pública e de instituições ligadas ao mesmo Estado, deveria  constituir o objetivo supremo da sua teimosia. Aí, sim, é que Passos Coelho poderia dar azo à sua insistente obstinação, erradicando de vez esse cancro que tanto pesa nas contas públicas. Mas, comprende-se que não o faça, já que nesta fatídica alternância governativa, do ora agora  mando eu ora agora mandas tu, o “inteligente” licenciado Passos Coelho tem bem a noção do que ficará a perder quando passar, mais dia menos dia, a enfileirar as hostes da oposição. Mais vale não mexer nestas áreas tão sensíveis, senão pode pôr em causa as compensações tão generosas de tanta gente e as dele próprio. E é capaz de já não poder contar com outros “prémios de representação” como aqueles que recebeu, in illo tempore, da Tecnoforma. Por isso, é melhor não se exceder na pertinácia. Ir por aí teria altos custos políticos, os quais, seguramente, não deve estar disposto a pagar. 
Extinguir vícios e reduzir mordomias a toda a classe política, enfrentar notáveis que o colocaram e mantêm no poder, mexer em poderes instalados, rever contratos ruinosos do Estado, equilibrando assim as despesas públicas, sem ter de carregar impostos sobre a grande maioria dos portugueses, isso, não irá fazer parte da sua persistente e inflexível ação governativa. Que ninguém duvide. E se tem de afirmar a sua tão rígida e esforçada mão de ferro, não afrouxando a soga do país, pois hão de ser os mais dóceis e fáceis de domar que virão a sofrer a tirania da sua teimosia. Corre menos riscos. Pensa ele. 
João Frada 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

AUMENTAR OU REEMBOLSAR A FUNÇÃO PÚBLICA ESPOLIADA: EIS A QUESTÃO?

“O secretário de Estado do Orçamento, Hélder Reis, afirmou hoje no Parlamento que, canalizar o aumento adicional de receita para redução de despesa implicava não pagar salários à função pública, uma opção que o Governo não considerou.”
Claro está que esta, agora, “generosa” decisão de pagamentos destinados, como o Senhor Secretário de Estado Hélder Reis diz,  a funcionários públicos, supostamente usufruindo de estatuto de segunda categoria, em termos de vencimentos, para ele, Secretário de Estado, parece até que não vem a contemplar também os outros funcionários da administração pública a que ele próprio pertence! Ministros, secretários de Estado, deputados, altos cargos governativos e magistrados são considerados castas especiais e, como tal, usufruem não só de condições remuneratórias diferentes dos outros mortais, como não necessitam nem se sujeitam a esperar por qualquer "aumento de receita" para se aumentarem e poderem suportar, como os outros cidadãos de segunda, a inflação e a austeridade que atingiram o nosso país estes últimos anos. Estas castas superiores sempre cuidaram bem dos seus interesses e quando não têm lata para contornar a lei e não conseguem escapar às TSU, às Contribuições Extraordinárias de Solidariedade e a outras alcavalas que lhes tocam e sangram também nos ordenados, bem mais elevados do que os da grande maioria dos restantes funcionários públicos com estatuto de segunda, fazem uso das suas belas "almofadas" anti-crise, através de uma série de subvenções bastante diversificadas e generosas a que só eles têm direito. E, finalmente, a partir de agosto de 2013, os nossos deputados, preocupados com o acesso constante da comunicação social aos bastidores dos seus privilégios remuneratórios, evitando assim o incómodo striptease a estas contas, produziram o diploma que faltava, tornando sigilosa essa matéria através de uma “verdadeira lei da rolha”. 
Imagine-se o peso que estas almofadas gordas, pensões, subvenções, despesas de representação, telefones e viagens não representam na despesa pública! 
Perante esta realidade, o Senhor Secretário de Estado, Hélder Reis, ainda põe alguma reserva no aumento, ou melhor, no reembolso, muito parcial, do que tem sido  espoliado a toda a função pública, especialmente de segunda categoria, durante vários anos de assalto fiscal. E não só afirma  “a parte adicional de receita podia ser usada para redução de despesa”, como defende que “aí a opção era a de não pagar salários” aos funcionários públicos. 
Opção?! Pagar ou reembolsar a quem se espoliou é, no seu entender, não uma obrigação mas uma opção reticente e despropositada. Não fora o "cheiro das próximas legislativa", que por aí vêm, e, seguramente, esta "generosidade" não aconteceria. Afinal, parece-nos que ninguém está interessado em que se lixem as eleições, nem Hélder Reis nem o seu chefe. 
João Frada