sábado, 14 de abril de 2018

Montenegro facturou 400 mil euros em ajustes directos de autarquias



https://www.tsf.pt/portugal/politica/interior/ninguem-sabe-quantos-deputados-estao-em-exclusividade-na-ar-3817442.html

Há promiscuidade entre o público e o privado, em Portugal, como afirmam tantas vozes, entre elas, Paulo de Morais, mas, como diz o povo, “vozes de burro não chegam ao céu”, neste caso, ao Parlamento. É ver todos os partidos a protegerem, ou a não quererem pôr em causa a excelente prerrogativa dos nossos deputados, em particular, dos que exercem advocacia, actividade que, de acordo, com o Estatuto dos Deputados, não deve ser sujeita a qualquer impedimento legal, por ser considerada pela inteligente “Subcomissão de Ética” uma profissão liberal sem qualquer conotação com prática comercial ou industrial. E, curiosamente, os mesmos partidos que em 2014 votaram a favor da moralização do exercício do poder, nesta altura, parecem agora anestesiados e amnésicos em relação a estas questões: A exclusividade dos deputados “para requalificar a democracia” (BE, pela voz de Pedro Filipe Soares, em 17.abril.2014) e o alargamento do período de nojo, de três para cinco anos, prazo durante o qual nenhum antigo governante deveria poder exercer actividade numa empresa privada (PCP, pela voz de João Oliveira, na mesma data supracitada).
Embora uma grande maioria dos deputados trabalhe em regime de exclusividade total, contam-se ainda em várias dezenas aqueles que, na sua condição de advogados-deputados (e quase sempre figuras mais destacadas dos demais partidos políticos), assumem actividades públicas e privadas, sem qualquer impedimento legal que os condicione: durante 50 por cento do seu tempo fazem leis no Parlamento, muitas delas “verdadeiras camisas à medida” dos seus objectivos; nos outros 50 por cento do dia de trabalho ocupam-se, naturalmente, dos interesses privados de instituições, empresas e sociedades onde exercem ou esperam vir a exercer a sua actividade profissional. Mas, evidentemente, tal exercício, “dando uma no cravo e outra na ferradura”, jamais se reveste, revestiu ou revestirá de qualquer traço de promiscuidade lesiva dos superiores interesses do povo, que representam enquanto agentes do supremo órgão de governação, o Parlamento. Deus os livre, longe disso! E, se acaso alguma vez vier a transparecer essa azarada evidência, tal situação não passa(rá), acreditem, de uma imprevisível e simples coincidência.
Tráfico de influências, favorecimento e informação privilegiada ilícitos, actos de corrupção na forma de “abuso de poder político para fins privados”?! Nem pensar! Daí, que não se justificará, de todo, mexer no assunto da exclusividade e dos impedimentos do exercício parlamentar dos nossos deputados…façam eles os contratos ou “os ajustes diretos” que fizerem.
Honestidade e transparência, acima de tudo! Lema incontornável da nossa classe política.
Porém, verdades absolutas podem conter algumas reticências. Em tempos, Cândida Almeida, ela própria, também não conseguiu esconder as suas dúvidas: “Onde há poder, há corrupção, mas, em Portugal, a haver, é residual”! É tão reconfortante esta certeza!
João Frada
Calendas Semânticas 2000


quinta-feira, 22 de março de 2018

MARCELO REBELO DE SOUSA E O HUMOR NEGRO DA "BOMBA"

"Já pensaram? Uma bomba aqui era uma crise". O humor negro

https://www.noticiasaominuto.com/.../ja-pensaram-uma-bomba-aqui-era-uma-crise-o-.











Humor Negro?! Uma bomba no meio deles todos, incluindo-o a ele, claro!…
Marcelo, ou fez humor, ou deixa transparecer algum remoto receio do imprevisível, comum nos tempos que vão correndo, ou, então, ironizando ainda com maior acuidade cáustica, sabe-se lá se, bem no fundo da sua consciência, não acharia ele que alguns dos presentes não mereceriam, mesmo, um castigo desta natureza. Seria crueldade demais. Acreditamos que tenha sido apenas humor negro aligeirado!
Mas, que o diabo as tece, tece.
Devemos pensar nisso.
De igual modo, se o nosso humor, na oralidade ou na escrita, alguma vez vier a assumir a mesma cor, creiam que não está ou esteve, minimamente, imbuído nem de radicalismo dissimulado, nem de qualquer forma de fundamentalismo extremista ou terrorista. Não. Trata(r))-se-(á), apenas e tão somente, de uma manifestação ou excerto ficcionista, que, simultaneamente, pretende glorificar a literatura libertária e, porventura, servir de alerta para quem por aí anda susceptível aos desmandos de tanto psicopata ou radical mais revoltado e criminoso. Porque, não se iludam, o pacífico silêncio e a paz que reinam à nossa volta, neste jardim florido plantado à beira mar, podem não durar sempre. Talvez, por isso mesmo, recorrendo a humor negro, Marcelo tenha expressado o seu temor.
Tal como o humor presidencial, também a ficção também pode ser premonitória.
“ Morreram vinte e duas pessoas electrocutadas na piscina [da unidade Termal de Aurora]. (…) Horas depois, conheciam-se as identidades de todos os falecidos: Um ex-chefe de Estado, três ministros, dois ex-primeiros ministros, cinco deputados, um ex-deputado, dois banqueiros, dois empresários, quatro ex-secretários de Estado e dois velhos dinossauros da vida política do país. (…) Soube-se, mais tarde que a piscina tinha sido reservada para aquele grupo especial de congressistas, barões mais notáveis da Banca, da Economia e da Política (…), ali reunidos no 1º Congresso Nacional de Reconciliação Política. (…)”  [Frada, João, Livres e Intocáveis. 1ª edição, Lisboa: Clinfontur; 2015, pp. 217; 231.]
Devemos pensar nisso.
João Frada

Calendas Semânticas 2000










quarta-feira, 21 de março de 2018

LUZ DIVINA




Posso cruzar mil portais, tempos perdidos,
voar sem asas, saltar de uma cascata,
sulcar o cosmos em busca de outros sóis,
de arcos-íris jorrando rios de prata,
finos rubis, tesouros e esmeraldas,
de mágicos faróis, jardins suspensos
de amores perfeitos, rosas e grinaldas…

Sonhando o impossível, sem temor,
posso alhear-me nas raias da loucura,
porque sei que a tua alma, meu amor,
olha por mim, zelosa, com ternura.
Meu anjo branco, sempre vigilante
nas minhas perdas de rumo e de razão,
luz divina que vejo a cada instante    
e traz o meu destino pela mão.

João Frada
Calendas Poéticas 2000
   
  

quarta-feira, 14 de março de 2018

METEOROLOGIA POÉTICA


A chuva, fria,
madrasta  deste inverno,
tão triste e estranho,
continua a cair, teimosamente,
em grossa gota, ora fustigante,
ora em mortalha fina, saturante,
como se um céu de nuvens,
grávido e negro,
nos julgue seus reféns,
e, numa maré louca de agonia
e de raiva, sem quartel e sem alívio,
apostado num martírio, noite e dia,
queira afogar-nos, de vez, neste dilúvio.

João Frada
Calendas Poéticas 2000

    

segunda-feira, 12 de março de 2018

DESILUSÃO


Bem, já cheguei,
já partiste,
de nada me serve protestar
ou ficar triste,
esperar que as estrelas brilhem
e os grilos cantem…
A noite de hoje, igual à de ontem,
mais uma, cheia de insónias,
sombras, nuvens,
um autêntico cortejo de “carneiros”,
percorrendo céus de breu,
feros, tamanhos,
tantos que contei,
todos eles  iguais,
feios rebanhos.

João Frada
Calendas Poéticas 2000    

quinta-feira, 1 de março de 2018

POETISA


Poetisa


Poetisa, poetisa,
Sabe-se lá vinda de onde,
Cantando odes à vida
Ao toque de um realejo.
Feiticeira de olhos verdes
Que cruzaste o meu caminho
E me soubeste encantar
Com rimas doces, falantes,
Ditas em verso, poema
Feito de cor e perfume.

Poetisa, poetisa,
Que nos teus versos me prendes
E em cada palavra solta
E em cada rima sentida
Sinto ser o meu ensejo
De colher céus, horizontes,
Raios de sol e luar,
Brisas repletas de aromas
De hortelã e alfazema,
De rosmaninho e poejo.

Poetisa, poetisa,
Enquanto o vento lançar
Odores, assim, de arrastão,
Meu amor, a minha vida,
Presa a ti por tantos laços
É como o trigo e a fonte,
Nascidos do mesmo chão,
Saídos da mesma fenda.
Quando me estreitas nos braços
Ceifando a fome, o desejo,
És a ceifeira mais linda
Das terras do Alentejo.

Calendas Poéticas 2000
J.F.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

INCÊNDIOS e PUNIÇÕES

Quando os incêndios resultam de intervenção dolosa humana, piromaníaca, sádica e cruel, as respostas da Justiça nem sempre são, nem têm sido, as mais dissuasoras e educativas. Sou do tempo em que sentir a Pátria não era nem foi, apenas, emocionarmo-nos ao ouvir o nosso Hino, vestir a farda da mocidade portuguesa ou, mais tarde, defender o território nacional, de G3 na mão. Formatavam-nos, mal ou bem, para reagir com dureza e agir, sem dó nem piedade, contra quem pusesse em causa os valores da Pátria, a integridade e o património nacionais. Pelos vistos não era crime defender a todo o custo o país e os seus bens, fossem eles continentais ou coloniais. O Mundo mudou, entretanto, a democracia tende, agora, a marcar os ritmos de vida, do pensamento e da sociedade dos nossos dias e é o espírito humanista de tolerância e de perdão que passa também a ser o “fiel” da balança da Justiça, na opinião de muita gente, desequilibrado e a necessitar de aferição urgente. Incendiar, arrasar, destruir e pôr em causa a vida de seres humanos e animais passam a ser uma prática comum todos os verões. E a Justiça continua a pautar-se pela brandura e por um espírito penal generoso e humanista: - prisão preventiva no domicílio, que sai mais barata aos cofres de Estado, aplicada aos que não conseguem demonstrar a sua inimputabilidade, e liberdade condicional a muitos outros, que sofrem de piromania mórbido-recorrente e acabam por voltar a cometer os mesmos atropelos. Já, em tempos, João Cravinho terá exaltado essa característica tão fundamental das “nossas leis”: "temos o Código Penal mais humanista da Europa". Que maravilha de sociedade, tão compreensiva e voltada à psicanálise e ao tratamento da piromania compulsiva, seja ela dissimulada / fraudulenta ou não! Para além disso, tanto quanto se sabe, o código penal português, bem mais evoluído do que os demais europeus e do resto do mundo, também não prevê que um tarado piromaníaco, indiscutível e comprovadamente, homicida e patrimonicida...apanhado com as "patas no fogo", receba uma punição exemplar, nem, tão pouco, seja obrigado a trabalhar. De resto, se a avaliação psicológica ou psiquiátrica garantir que o indivíduo é inimputável, ficará, quando muito, sob vigilância policial e tratamento médico, em prisão preventiva ou efectiva, mas não mais do que isso. Segundo estatísticas, apenas 20% dos presos portugueses aderem, voluntariamente, a atividades ocupacionais, visando a reeducação e reinserção social. Pouco, muito pouco! Os restantes 80%, mantêm-se de "férias forçadas", numa "boa". Por tudo isso, não nos pareceria inapropriada, nem demasiado pesada a aplicação de penas cívicas a indivíduos comprovadamente “incendiários”, obrigando-os, incondicionalmente, a trabalhar na abertura de aceiros, limpeza de matas, estradas, caminhos e bermas, plantio e reflorestação, já que, sem sombra de dúvida, sentem uma atração irresistível, ainda que mórbida, pela Natureza. Seria, talvez, uma forma psicoterapêutica de se reencontrarem, não com a Natureza morta que tanto apreciam, mas com o ambiente vivo da floresta, árvores, plantas, flores e animais, e descobrirem o respeito que não têm, nem nunca tiveram por esse mundo tão frágil e desprotegido. Mantê-los com pulseira electrónica no domicílio, babando-se orgasmicamente frente ao ecrã de televisão, todos os verões, enquanto desfrutam as inevitáveis notícias escaldantes dos fogos e incêndios que lavram nas nossas florestas, isso não, senhores juízes! Fazer justiça, assim, não passa de uma utopia! Segundo estatísticas de 2016, mais de 75% dos incêndios que ocorrem em Portugal terão tido “mão humana” implicada, direta ou indiretamente, agindo por “de motu próprio” ou a mando ou interesse de outrem. Recebendo uma justa punição, sem tolerância, apelo nem agravo, estes criminosos, doentes psiquiátricos ou não, deveriam então redimir, obrigatoriamente, sob vigilância policial ou do exército, os seus pecados, as suas faltas, os seus atos criminosos, cumprindo tarefas de limpeza de matos, bosques e áreas florestais (que ainda, felizmente, sobrevivem por esse país fora), durante os meses frios do ano. Quando tantos cidadãos com deficiências participam e trabalham com esforço e sacrifício, ultrapassando com denodo as suas limitações diárias, quando tantos doentes lutam pela sua sobrevivência e não param de cumprir as suas obrigações profissionais, quando tantos idosos labutam na terra e de enxada na mão, de sol a sol, será que ainda há alguém capaz de advogar que um tarado destes, piromaníaco insensível e quantas vezes recorrente, não deva receber um castigo exemplar, cumprindo, voluntariamente ou não, trabalhos de protecção, preservação e recuperação da floresta?! Será que um serviço cívico desta natureza, enquanto punição de cumprimento obrigatório, atenta contra a dignidade humana destes presos ou choca, eventualmente, com o elevado espírito humanista do nosso ou de outro qualquer código penal?! Não nos parece. E julgamos que constituiria uma excelente e inovadora alternativa à pena de prisão efetiva, com enorme peso reeducativo, dissuasor e terapêutico, levando o preso “incendiário” a ponderar naquilo que destruiu e a ligar-se àquilo que passa a preservar e a criar. Entendemos que esta forma de punição, a qual, na nossa opinião, nunca terá sido aplicada em nenhum julgamento ocorrido em tribunais portugueses, nem tão pouco discutida enquanto proposta parlamentar ou sugestão governamental, poderia vir a ser uma extraordinária medida jurídico-penal, de reflexos reeducativos e socio-inclusivos e, acima de tudo, um “ponto” favorável à subida de “rating” na atual escala de (des)crédito da população em relação à brandura do sistema judicial e ao amorfismo dos políticos e da governação, perante o crónico problema dos incêndios e dos incendiários. De igual modo, acalmaria também os ânimos das populações, revoltadas e desiludidas, minimizando-se o risco de radicalismos, sempre indissociáveis do sentido e dos atos de justiça popular................................................................................................................... Fontes: - Estatísticas negras dos fogos em Portugal… https://www.sapo.pt/noticias/economia/estatisticas-negras-dos-fogos-em-portugal_59467ba3e0aeff873df429aa - Detidos [em 2016] mais incendiários do que em 2015. Menos de metade, ficam presos. https://www.sapo.pt/noticias/economia/estatisticas-negras-dos-fogos-em-portugal_59467ba3e0aeff873df429aa................................................................................................. João Frada Calendas Semânticas, 2000