terça-feira, 7 de abril de 2015

SEM PALAVRAS

Sem palavras
 
Quando sonho em pesquisar

Algures, no impossível,

Um conjunto de palavras

Que transcendam a razão,

Metafísicas, sagradas,

Pra retratar a paixão,

Não passo do limiar

De um alfabeto sofrível,

De letras mal soletradas

Desprovidas de emoção.

 
Todos os dias me apuro,

Todos os dias eu esforço

Os neurónios ao limite.

Às vezes, quase desmaio,

Sem ganza nem transcendência,

Mas nada sai deste ensaio,

Usadas todas as manhas,

E tamanha persistência.

 
Passo os dias a cismar,

Consumindo a paciência

Buscando palavras estranhas.

Leio mágica e ciência,

Alfarrábios com aranhas,

Sem tais vocábulos achar.

Ponderando então com calma,

Chego a esta conclusão:

Palavras, assim, com alma,

Só dentro do coração.

Calendas Poéticas 2000

 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

COFRES CHEIOS

Cofres Cheios

“Tenho mesmo os cofres cheios”

Porque não pago o que devo,

Nem conto nunca pagar.

São dívidas para o futuro

Que consomem o país.

Acreditem, não há meios

Capazes de liquidar

Este mal pela raiz.


Preservando alguns estatutos

De gente da minha cor

Fiz poupança de milhões.

Fui o grande criador

De impostos e reduções,

De taxas, coimas, tributos, 

E ao forçado “doador”

Saquei “Euros”, quanto quis.

 
Guardo-os em sítio seguro

Em sacos de papelão

Algum em cofre, outro em banco

…Não da família do BES…,

Outro ainda, em lugar escuro

Sob a sola dos meus pés,

E o restante bem escondido

Debaixo do meu colchão.

 
“Tenho mesmo os cofres cheios”

Roubei-o a quem o tinha

E se ninguém protestou

Dentre a manada de mansos

Pra quê seguir outra linha,

Se tenho à mão estes tansos?!

 
Hei de sangrar, sim senhor,

Como é óbvio, as Maiorias,

Pra pagar tantos dislates

Uns, do meu antecessor,

Outros, dos meus disparates,

E pagar a quem eu devo

Fidelidade, mordomias

E algumas obrigações.

São futuras garantias

Hoje dou, depois recebo.

 
Dei-me também de penhor

Junto de tantos “patrões”,

Não tenho hipótese de fuga.

Por isso é que não me atrevo

A parar com tal “sangria”.

Sou pra muitos, um tirano,

Um perfeito sanguessuga 

Um ditador, um casmurro,

Mas não altero o meu plano,  

Que se lixe o “doador”,

Ninguém o manda ser burro.

 
Calendas Poéticas 2000

 

 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O PRÓXIMO CANDIDATO



O Próximo Candidato

Sou o próximo PR

Deste país decadente

Já na próxima eleição

Ainda que não tenha votos

Quero hoje anunciar-vos,

Tenham isto bem presente!


Podem pensar que é mentira

Esta minha afirmação

Julgando que sou caipira

Com fértil imaginação

Ou saído da taberna

Sonhando ser presidente…


Mas notem, se quem preside  

Nada atrase ou acrescente 

Presidindo “à Lagardere”

Como aquele que nós temos

Mentiroso e, quando mente,

Mente mais do que tememos,

Porque não eu, um PR?!

 
Podia também dizer-vos

Que vos irei governar

Na próxima legislatura,

Traçando um rumo melhor

Do que o que temos, sinistro.

 
Afirmo com todo o penhor

Se for Primeiro-Ministro

Prometo-vos uma vida santa

A quem for da minha cor

E seguir minha política

Sem esquecer um bom emprego,

Eterno na função pública,

Com reforma antecipada

Muito antes dos sessenta.

 
Pensam que estou a mentir,

Perpetrando algum enleio,

Servindo-me de lisonja,

Ou de manobras de prosa?!

Votem em mim, sem receio

Dêem-me lá o vosso aval.

 
Afinal, chovem exemplos

De mentiras cor-de-rosa

Outras da cor de laranja

E outras tantas de azul

Que não passam de patranhas

Manhosas cheias de ardil

Todos os dias ouvimos

Aos políticos da praça

Mentiras tão mentirosas

E não é o um de abril.

 
Posto isto, em abstracto,

Será que nesta chalaça

Neste estilo de Bocage

Sempre sou um candidato

Ou menti no dia de hoje?

 
Dia 1 de Abril de 2015

JF

domingo, 29 de março de 2015

SEXTO SENTIDO



Sexto sentido

Os meus versos metafóricos,

Herméticos quando se leem,

São como vales profundos

Onde os símbolos alegóricos

Estão ali e não se veem…     

Ou talvez ninguém pressinta

O que escondo nas palavras,

Mas tu, olheira distinta,

Tão atenta ao que eu respigo

Entre clarezas e sombras,

E pretensões literárias, 

Tão solidária comigo,

Aposto que até vislumbras

O que eu penso, mas não digo.

Calendas Poéticas 2000

sábado, 28 de março de 2015

FOSSE EU...


Fosse Eu…
 
Fosse eu uva, um cacho inteiro
Para tu me vindimares
Com a maior devoção
Ou grão de trigo em celeiro
Esperando pra me provares
Numa migalha de pão.
 
Fosse eu todo, assim, conforme
Teu apetite e teu gosto,
Em qualquer ocasião
Bem podias mastigar-me
Não te traria desgosto
Nem difícil digestão.
 
Calendas Poéticas 2000
 
 

quinta-feira, 19 de março de 2015

O PAÍS E OS PARADIGMAS

O País e os Paradigmas
 
Numa só noite de sessão televisiva ouvimos pronunciar, sem exagero, ao fazermos zapping em vários canais portugueses, da boca de vários supostos “analistas e politólogos”,… e, quase juraríamos, alguns deles estão, claramente, ao serviço do governo, pelo seu estilo “emplumado” de papagaios…, uma boa dúzia de vezes o vocábulo “paradigma”. E tudo numa perspectiva transformista e mais do que evolutiva e positiva da economia e da sociedade portuguesas, numa verdadeira onda salvítica, altamente enriquecedora e conducente ao bem-estar e à libertação definitiva do miserável atoleiro económico e financeiro em que o país mergulhou por culpa de alguns irresponsáveis VIP, de que tarda em haver qualquer lista, na verdade de muitos que por aí andam às claras de carteira e pança recheadas, sem que ninguém lhes peça ou venha a pedir contas das suas atrocidades. Uma convicção inabalável, cantilena artística e engenhosamente manipuladora, alicerçada em números e estatísticas produzidas por “inteligentes crânios” nacionais e internacionais, estes últimos mais suscetíveis a falhanços de previsões e a terem que assumir, não tarda, “orelhas de burro”. Curiosamente, tais orelhas, também por cá, para quem fazia tanta questão de baixar o IVA e o viu subir, enganando-se na previsão, eram ornatos bem capazes de [lhe] caírem na perfeição.
 
O país está em crescendo e, apesar dos “números de défice e de dívida” não serem muito favoráveis, tudo parece tender a um novo paradigma, o da salvação nacional. Um novo paradigma, traduzido pela “carta de alforria” concedida pelos nossos credores internacionais e pela TROIKA, em particular, a quem continuamos devedores de milhares de milhões, está prestes a verificar-se em Portugal. É só questão de meia dúzia de anos…afirmam os mais crentes. Os investimentos externos e consequentes lucros chorudos esperados, agora que pusemos nas mãos do grande capital estrangeiro as nossas melhores “máquinas produtivas”, privatizando os mais importantes setores estratégicos nacionais, não tardam por aí, e os empregos e proveitos para o país e para a sociedade portuguesa, com estes novos gestores tão filantrópicos ao comando destes “barcos” ou do que resta da nossa "frota", vão escorrer às catadupas.   
 
Os milhões que têm sido desbaratados sem dó nem piedade, nem proveito para o país, em negócios ruinosos, em desvios, aplicações e transacções fraudulentas, através da banca e de outros organismos públicos e privados, com altíssimos prejuízos para o Estado, sem que se vejam pesadas punições sobre os responsáveis por estes desmandos de lesa-pátria, constituem um paradigma de tardia mudança, senão mesmo de crónica persistência. Esta palavra, “paradigma”, serve para abrilhantar e etiquetar todas as mudanças, todos os contrastes que, na opinião de tantos papagaios ou aves raras, canoras sim, mas desafinadas, monopolizadoras e manipuladoras dos écrans, se esquecem de aplicar este conceito tão “in” e sonantemente filosófico às demais situações aberrantes, absurdas, deprimentes, abjectas que têm caracterizado a atuação de tantas figuras do poder, governantes, políticos e quejandos, nestas últimas quatro décadas de democracia.
 
Será que o paradigma atual da desonestidade, da corrupção, da vigarice, da mentira, da falta de escrúpulos, da amnésia política, do incumprimento, da incompetência, do conluio público-privado, do roubo camuflado ou da delapidação, às claras, do erário público, do tráfico de influências, da incoerência, da injustiça social, estará para mudar, extinguindo-se de vez na sociedade portuguesa, ou é algo que jamais virá a sofrer alterações de saneamento sociojurídico, ético, cívico e moral?
 
Sempre é mais fácil exaltar os paradigmas feitos de mudanças positivas e esquecer ou querer que nos esqueçamos dos que são verdadeiras misérias, paradigmas que ninguém ou muito poucos hão de querer lembrar ou pôr em causa, nos meios de comunicação social, dando a cara e afrontando os "poderes instalados", quantos deles com culpas no cartório, como se tem visto.
 
João Frada
Professor Universitário
         

SONHOS OUTONAIS

Sonhos Outonais

 
Já te não vejo, qual estrela,

Fitares-me, assim, cintilante,

No céu do meu pensamento.

Nessa luz, que era tão bela,

Brilhando a todo o instante

Apagou-se o sentimento.

 
Já não sinto essa loucura

Quando prendo, apaixonado,

Nas minhas mãos, o teu rosto

Nem sinais dessa ternura

Ou do amor arrebatado 

Que tinhas em cada gesto.

 
Teus sonhos, que eram tão verdes,

Secaram a par das folhas

Já não vivem no meu sono.

Aos poucos também tu perdes

A paixão com que me olhas

Ganhando a cor do Outono

 
Calendas Poéticas 2000