domingo, 19 de abril de 2015

RUMANDO

Rumando

 
Meus olhos, rijos navios

Que afrontaram tanto mar

Em calmarias perdi-os

No fundo do teu olhar

 
Com eles foi-se o sossego

Nesta rota mal medida

Meu coração ficou cego

Fiquei sem norte na vida  

 
Quem viaja assim, sem plano,

Pode encontrar um tesouro

Ou sem ter vento, nem pano,

Só marés de mau agouro

 
Ninguém pense que o destino

Está sempre à vista, a bombordo,

Porque um vento repentino

Provoca um caos absurdo

 
Agora, mais velho e sábio

Uso bússola e anemómetro

Astrolábio e balestilha

Traço as rotas ao milímetro

 
Esperando não ficar cego

Em qualquer porto ancorado

Sou marujo, mas estratego,

Muito mais acautelado

 
Quero “dar vela” à paixão

Mas não em roteiros escuros

Deixando que o coração

Só navegue em mares seguros.

 
Ninguém me diga: a razão

Mata o amor natural,

Dá-lhe, sim, a dimensão

Que o torna celestial.

 
O êxtase e a emoção,

num terno abraço despertam

Mas não passam de ilusão

Quando nunca se libertam.   

 
Calendas Poéticas 2000

 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

ETERNA MORADIA


Eterna moradia

 
Sob o cisma do ozono

Do aquecimento global

Da repulsa dos cigarros

De tanta falta de sono

Sem sonhos, sem ideal

Num espaço e tempo bizarros…  

 
Minh´alma nasceu sem sorte,

Penou que nem desgraçada,

Quase morreu de agonia.

Quero dar-lhe após a morte

Vida eterna repousada  

Numa boa moradia

 
Quero livrá-la do céu

E do inferno também

No dia do meu velório

Não sou crente nem ateu.

Se houver lugar no além,

Que seja no purgatório.

 
No céu, estrelado de incenso

E de êxtases espirituais,

Receio que a minha alma

Viciada em ritmo intenso

Nestes ares celestiais

Se canse de tanta calma.

 
No inferno, a fumarada

Cheirando a breu e pecados

Não é clima a sugerir

Minh´alma, sacrificada,

Tem os poros saturados

De tanto fumo “engolir”. 

 
Aposto no purgatório

Pra passar a eternidade

Não vou perder este ensejo

É melhor que um sanatório

Um lugar com dignidade

Prá alma, como eu desejo.

 
Calendas Poéticas 2000

sábado, 11 de abril de 2015

PUNIÇÃO

Punição

Mil poemas de amargura

Rimas de fel e quebranto

Lanço aqui pra que se saiba

São minha herança futura

Que vos deixo a bom recanto

Devem ser lidos com raiva…

 
Pra todo o tirano ouvir

Se possível, assestados,

Curtos, grossos, poucas falas.

Hei de no inferno sorrir

Se souber que os meus recados

Fazem mais estragos que balas.

 
Pudesse fazer magia

Usaria cada verso

Como um gume de navalha

Pra punir a tirania

E qualquer ato perverso

De tanta gente canalha.

 
Calendas Poéticas 2000

terça-feira, 7 de abril de 2015

SEM PALAVRAS

Sem palavras
 
Quando sonho em pesquisar

Algures, no impossível,

Um conjunto de palavras

Que transcendam a razão,

Metafísicas, sagradas,

Pra retratar a paixão,

Não passo do limiar

De um alfabeto sofrível,

De letras mal soletradas

Desprovidas de emoção.

 
Todos os dias me apuro,

Todos os dias eu esforço

Os neurónios ao limite.

Às vezes, quase desmaio,

Sem ganza nem transcendência,

Mas nada sai deste ensaio,

Usadas todas as manhas,

E tamanha persistência.

 
Passo os dias a cismar,

Consumindo a paciência

Buscando palavras estranhas.

Leio mágica e ciência,

Alfarrábios com aranhas,

Sem tais vocábulos achar.

Ponderando então com calma,

Chego a esta conclusão:

Palavras, assim, com alma,

Só dentro do coração.

Calendas Poéticas 2000