segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Por esse espaço fora


Se fores capaz de guiar
a minha mente
por esse espaço fora,
não a tornes servente, tua escrava,
aponta-lhe uma luz como horizonte,
dá-lhe um pouco de espaço, de ilusão,
concede-lhe um desejo íntimo, secreto…
Se a vires sequiosa, diz-lhe apenas:
aqui estou eu, a tua fonte,
mata a sede e se quiseres, agora,
sacia também o teu afeto.
Depois, podes ir embora…
Verás que desse gesto, tão simples,
nascerá um sorriso a céu aberto,
leve e puro, na essência,
que o entardecer guardará,
talvez pra sempre, entre mil sóis,
na tela imensa da tua consciência
na memória que não morre de nós dois.


Joti Horus
Calendas 2000









Frustração

“Há sempre…
Uma claridade que domina,
Uma sombra que te desfaz,
Um corpo que te esconde
Ou um nada indefinível…”
Jorge de Sena

Réplica a Jorge de Sena

Há sempre um qualquer senão
que surge, como realças,
uma luz, uma sombra, um corpo
que nos tolhe sem quartel
gerando esperanças falsas.

É maldição, é má sorte?
É o destino cruel
Que fez de nós sua aposta
E nos persegue de perto?
Quando procuro a razão
Meu amor, pra tanto azar,
Nunca sei qual a resposta…

Apetece-me gritar:
Ou é do cu ou da calças.
Joti Horus
Calendas 2000






Poema do desencanto

Vivemos, tantas vezes, sem aqueles que amamos,
tristes, sós…  
E amamos, outras tantas, quem não vive junto a nós.

Joti Horus
Calendas 2000


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

GRITO DO IPIRANGA

GRITO DO IPIRANGA

ABAIXO ESTA DEMOCRACIA BOLORENTA
ONDE NÃO HÁ HONESTIDADE E RETIDÃO!
QUANTAS ESPERANÇAS PERDIDAS E VAZIAS…
AGONIZAMOS, DIA A DIA, EM MORTE LENTA
E POUCO MUDA COM VOTOS DE ELEIÇÃO!
JÁ SÓ NOS RESTAM MERAS UTOPIAS…
DE QUE NOS SERVE PROTESTAR, SE A NOSSA VOZ
MESMO SEM ALGEMAS, MORRE AOS POUCOS?
DE NADA VALE GRITAR, SE A MULTIDÃO,
AMORFA E SURDA, NÃO SE JUNTA A NÓS
E OS TIRANOS FINGEM QUE SÃO MOUCOS.
ABAIXO ESTA DEMOCRACIA BOLORENTA
É TEMPO DE ENTOAR: REVOLUÇÃO!




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

AFINAL, QUEM SÃO OS CULPADOS DA CRISE?

Afinal, quem são os culpados da crise?
Vitor Bento foi “um dos primeiros (se não mesmo o primeiro) a afirmar que os portugueses estão a viver muito acima das suas possibilidades, um dos poucos defensores da TSU que não chegou a ver a luz do dia em Setembro de 2012, [e um] opositor acérrimo a qualquer ideia de reestruturação da dívida.”
(http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2014/07/vem-ai-outro-vitor.html
Aparentemente influenciado pela mesma escola filosófica, João César das Neves partilha também da mesma opinião. Na sua ótica, os trabalhadores não diferenciados das classes baixas não devem ser aumentados, porque isso conduz, irremediavelmente, a vícios e exageros e acaba por gerar mais desequilíbrio social, económico e financeiro. A análise brilhante deste economista ficou registado nesta frase lapidar:  
Aumentar o salário mínimo “é estragar a vida aos pobres”.
(http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3537583)
Seguramente, para Vitor Bento, João César das Neves e todos os aqueles que se identificam com o Liberalismo, na sua concepção mais pura e radical (Malthusianismo), há que limitar direitos e meios aos mais pobres, os eternos agentes desestabilizadores da sociedade. E, claro, cerceando-lhes as capacidades a todos os níveis, incluindo o acesso à qualificação profissional, desmotivando-os a apostarem na formação académica e convidando os mais jovens a emigrarem, cumprem-se, definitivamente e na perfeição, os elevados ideais da corrente filosófica concebida por Thomas Malthus (1766-1834): “O Estado [deve ou]devia limitar-se a proteger os mais ricos, recusando quaisquer direitos aos pobres. O único conselho que lhes dá é que não se reproduzam.”
Em Portugal, como os mais jovens, prolíficos por natureza, emigraram e continuam a sair do país em larga escala e os que cá decidiram ficar não têm, como se sabe, quaisquer estímulos à natalidade (paga-se tudo: leites, farinhas lácteas, produtos de higiene, vitaminas, xaropes, vacinas orais e injetáveis, alguns broncodilatadores, mesmo não sendo associações medicamentosas, acesso a estruturas de apoio escolar e educacional, etc., para além de se desencorajarem mulheres trabalhadoras a evitar a gravidez, de modo a que tal condição não colida ou ponha em causa os “elevados objetivos empresariais”, sob pena de perderem emprego ou nem sequer terem acesso ao trabalho se apostarem no “projeto da maternidade”, a natalidade encolheu drasticamente.
Tendo em conta os dados do Eurostat, Portugal foi o país da EU com pior taxa de natalidade em 2013.
Segundo o “Documento de Estratégia Orçamental (DEO) do Governo, apresentado a 30 de abril 2014, em 2015 a TSU passa para 11.2%, aumentando em 0,2% a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social.”
(http://www.economias.pt/taxa-social-unica/)
A TSU passa de 11 para 11,2%. Decisão acertada da governação e dos seus ideólogos.
O rendimento dos trabalhadores, que integram cerca de 85% da grande maioria da população (classes baixa, média-baixa e média), como é demasiado chorudo e bem almofadado de subvenções, mordomias e gorduras de toda a espécie, tem que ser reajustado com mais uma taxa de 0,2 %, a fim de que não haja tentações e estes perdulários se limitem a viver de acordo com as suas possibilidades, até aqui, descontroladas, imponderadas e geradoras de uma crise que lançou o país num caos de défice e de dívida. Resta saber se os restantes 15%, os que mais podem e sempre puderam, e, dentre estes, a minoria cada dia mais enriquecida e protegida pelo Estado, obviamente, na visão de Vitor Bento e de outros inteligentes iluminados e privilegiados deste país, governantes ou não, mais do que justamente compensados pelo seu insubstituível e desgastante contributo de gestão e administração, só possível pela excelência do seu currículo técnico-profissional e académico e pelas competências que lhes são inerentes, tem ou teve alguma responsabilidade na crise crónica que levou Portugal à quase bancarrota e ao níveis de notação que as agências rating nos reconhecem de permanente “lixo financeiro”. Provavelmente, não, dirá Vitor Bento, aplaudido de perto por todos os seguidores da mesma corrente filosófica.
A 30 de Julho, Vítor Bento, acompanhado por José Honório e Moreira Rato, conhecedores da situação caótica do BES, solicitaram à ministra uma reunião, "pois estavam muito preocupados com o volume de prejuízos" semestrais de 3600 milhões, os maiores de sempre da história empresarial portuguesa. "E perguntaram se seria possível uma intervenção no BES nos moldes da do Banco Internacionald do Funchal (Banif)”.
(http://www.publico.pt/politica/noticia/maria-luis-diz-que-nunca-foi-apresentado-um-plano-de-recapitalizacao-do-bes-1676807)
Porém, o “Governo não mostrou disponibilidade para a capitalização pública do BES", concluiria Vitor Bento.
O Governo tirou-lhe o tapete, senão, poderíamos vir a assistir a mais um tremendo descalabro em termos de finanças públicas, orientadas teoricamente para retirar da fossa mais uma instituição bancária mal gerida e esburacada por negócios e atos de corrupção, alegadamente, levados a cabo por Ricardo Salgado e outros membros responsáveis pela sua administração, reabilitação essa que iria realizar-se, uma vez mais, à custa do esforço e suor de todos os contribuintes. O processo BES ainda não terminou e ninguém nos garante que tal não venha a acontecer. Todavia, para Vitor Bento, a recapitalização era a medida mais ajustada ao trabalho de recuperação do segundo maior banco privado português, ainda por cima, com o aval do Banco de Portugal.     
O défice e a dívida lançaram o país nas mãos da Troika, mas os culpados da crise, afirma Vitor Bento, são “os portugueses, [que] estão a viver muito acima das suas possibilidades”. Tem piada, não tem?
Embora este ilustre economista não especifique quais os portugueses que têm vivido ou vivem ainda acima das suas possibilidades, calculamos que se refira àqueles  que constituem a grande maioria, já que a minoria de que faz parte, essa, seguramente, poupada, contida nos gastos, profundamente contributiva e solidária com o crescimento e a riqueza nacional, em nada terá contribuído para tal fatalidade: a crise. Para que ninguém fique com sentimentos de culpa indevidos, com traumas dificeis de apagar, com sentimentos de angústia capazes de gerar transtornos obsessivo-compulsivos dificeis de tratar, seria bom que Vitor Bento pudesse, então, identificar que grupos ou classes de cidadãos têm vivido ou ainda vivem acima das suas possibilidades, por forma a que a restante sociedade possa, definitivamente, estabelecer normas de contenção a esse perdularismo que afeta a paz, a tranquilidade e o equilíbrio psicológico e vivencial do país…e com vista a que se não continuem a afetar, tão violentamente, as “contas públicas”.
João Frada  




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PASSARINHO

PASSARINHO

Meu amor, meu andorinho,
Voa sem medo, a direito,
Traça agora o teu destino,
Escolhe o teu rumo perfeito.
Faz-te depressa ao caminho.

Foi-se o frio, a tempestade.
Tenta não perder o tino,
Voa lesto nesta aberta… 
Cá te espero, com saudade,
Sou a tua sentinela,
Não te abro fresta nem porta
Por ter sempre uma janela
Sem grades nem rede fina,
À entrada do meu peito,
Entreaberta, pequenina,
Sempre à espera de te ver,
Meu amor, meu passarinho,
Pousar no meio dos meus braços
E fazeres aí o ninho.

Cidade das Nuvens (sine data)


AFINAL, EM PORTUGAL, HÁ OU NÃO CORRUPÇÃO?

Afinal, em Portugal, há ou não corrupção?
Cândida Almeida: “Onde há poder, há corrupção”.
Num artigo, da autoria de Carlos Rodrigues, publicado no “Diário de Notícias” de 26 de março de 2009, podíamos ler estas afirmações de Cândida Almeida, nessa data, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal:
 “A penalização do enriquecimento ilícito é fundamental para a existência de um Estado transparente “perante a exibição pública de poder e de dinheiro de um pequeno grupo cada vez mais rico que afronta a sociedade”, disse hoje Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal.”
(…)
Para Cândida Almeida, acabar com a corrupção é uma tarefa impossível. “Onde houver poder, há corrupção. A nossa tarefa é controlá-la, mantendo em níveis aceitáveis.”
(…)
“Uma população menos qualificada, menos crítica, menos atenta, facilita a oferta de decisões ilícitas.”
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1182233#AreaComentarios)
Para Cândida Almeida, a corrupção não deve ou não tende a deixar de existir. Deverá continuar a haver, seguramente, mas em níveis aceitáveis. Cómica, esta afirmação!
O que são níveis aceitáveis? Numa escala de 1 a 10, por exemplo, o que considerará a ex-diretora do DCIAP como um nível razoável?
Na sua perspetiva, pelos vistos, é uma população mais qualificada, crítica e atenta que impede decisões ilícitas. Ou seja, quando há corrupção entre as classes do poder, e esta hipótese não é totalmente afastada por Cândida Almeida em todas as suas decalarações (“onde há poder há corrupção; não há corrupção entre a classe política, mas a haver, é residual; não deve haver corrupção, mas se houver que seja em níveis aceitáveis”), essa terrível mazela entre a elite governativa  fica a dever-se, implicitamente, não ao perfil desonesto, indigno, imoral e torpe do indivíduo que pratica ações ilícitas (branqueamento de capitais, fraude fiscal, favorecimentos, tráfico de influências, corrupção, uso abusivo do erário público, etc.), mas da população, em geral, que, na opinião da ilustre magistrada, dr.ª Cândida Almeida, é acrítica, pouco qualificada, politicamente ignorante, desatenta e indiferente aos rumos de quem governa. Em resumo, é à grande maioria da população que deve ser imputada a culpa da corrupção, quando ela existe e judicialmente fica comprovada enquanto prática ilícita de um ou outro governante, oportunamente, apanhado ou caído nas malhas da judiciária e da justiça.
(http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1182233#AreaComentarios)
Mais recentemente, a dr.ª Cândida de Almeida, depois de uma esforçada análise sobre esta matéria tão preocupante para qualquer instituição que exerce a ação penal e vela pela defesa da legalidade democrática e pela promoção do acesso dos cidadãos ao direito e à justiça, assume publicamente que “a corrupção não existe”. Ainda na qualidade de diretora do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), foi à Universidade de Verão da JSD proferir uma oração de sapiência sobre a sua especialidade. Na preleção, a magistrada, a fazer fé na comunicação social, disse "olhos nos olhos" aos jovens sociais-democratas que "o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos".
(http://apodrecetuga.blogspot.pt/2014/10/nao-ha-corruptos-em-portugal-diz.html)
Entretanto, a dr.ª Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, parece ter uma opinião bem diferente e deixa bem clara a sua posição sobre este assunto: “elege como prioridade o combate à corrupção que “mina o Estado de Direito” e a recuperação da credibilidade do sector.”
(http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/politica/detalhe/paula-teixeira-da-cruz-combater-corrupcao.html)
De igual modo, e contrariamente a Cândida Almeida, o vice-presidente da Associação de Integridade e Transparência, dr. Paulo de Morais, garantiu hoje que a crise económica em Portugal não se deve ao facto de os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades, mas aos fenómenos de corrupção. Na sua opinião, expressa sobre a "Origem da Crise" numa conferência onde se discutiu o “Modelo do Estado Social”, promovida pela Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal, "grande parte da dívida pública e privada é fruto da corrupção e não dos alegados excessos dos portugueses. (…) O que o Estado pagou a mais às PPP só é possível porque a sede da política - Assembleia da República - está transformada num centro de negócios". (…) A aquisição de dois submarinos à Alemanha é, segundo Paulo Morais, mais uma caso de "corrupção comprovada", não pelos tribunais portugueses, mas pelos tribunais da Alemanha.(…) Na Alemanha há pessoas [acusadas de corrupção] a dormirem todos os dias na cadeia.”
(http://www.jn.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3197601&page=-1)
Marinho Pinto, ilustre jurista, ex-bastonário da Ordem dos Advogados e fundador do PDR (Partido Democrático Republicano), também no seu jeito muito peculiar de fazer política, vem denunciando o que toda a gente sabe existir e até agora ninguém ou muito poucos têm conseguido provar; segundo ele, há corrupção, e muita, entre a classe política e entre governantes e empresários com ligações profundas ao Estado. 
Curiosamente, porém, tal como a dr.ª Cândida Almeida, o dr. Marinho Pinto vai dizendo que “o povo tem os governantes que merece”, já que elege gente com antecedentes pouco fiáveis, com processos de suspeição em curso, com condenaçoes no currículo. Na sua opinião, “O povo não é exemplar nas opções políticas que faz”. Embora essa razão não justifique a venalidade de nenhum político, seja ele governante ou não, a verdade é que um povo sem consciência política é facilmente ludibriado e, numa democracia indireta como a nossa, acaba por delegar o seu poder em representantes que, muitas vezes, cuidam apenas dos seus interesses, atropelando ou corrompendo os supremos objetivos para que foram eleitos: governar com inteligência, isenção, honestidade e sentido ético e moral. Uma população, assim, que apenas manifesta e expressa a sua desilusão e o seu descontentamento em surdina e tolera todos os desmandos, apesar de se sentir mal governada, abstendo-se de votar ou alimentando a fatídica e gasta alternância político-partidária, elegendo em cada ato eleitoral os governantes que puniu quatro anos antes, como se os mesmos, passado este interregno, se tivessem reabilitado dos seus vícios, incompetências e limitações, corre o risco permanente de apostar, não em gente competente e séria, mas em mercenários, ineptos e corruptos, dos quais jamais se poderá esperar uma governação eficaz, saudável e sensata. 
Todas as semanas, ou quase todas, se destampa mais uma “Caixa de Pandora”. A semana passada, no decorrer da Operação Labirinto, centrada sobre os Vistos Gold, num “pré-julgamento” relâmpago, …coisa nunca vista em Portugal, onde a maior parte dos processos envolvendo “gente de colarinho branco” prescrevem e não dão em nada,… foi colocada uma série de altas figuras da vida pública portuguesa em prisão domiciliária e sob prisão preventiva, nos calabouços da PSP, sem apelo nem agravo.
Poucos dias depois, destampa-se outra e sai dela José Sócrates. A braços com a justiça, alegadamente, por fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, encontra-se detido em prisão preventiva, a aguardar julgamento. Ainda que muitos desejem firmemente a sua condenação, sem dó nem piedade, a verdade é que o único julgamento a que foi sujeito foi o da opinião pública, e a esse, que o terá assassinado politicamente, já ninguém o poupa. Mas será que o cidadão José Sócrates, porque foi ex-Primeiro Ministro, não tem direito a um julgamento imparcial e justo?
A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 em seu artigo XI, 1, dispõe: “Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa”.
O sistema judicial nunca correria o risco de sujeitar uma figura mediática como José Sócrates a uma situação de desfiguração pessoal e política tão dramática, acreditamos nós, se não tivesse a certeza plena de que ele “tem mesmo culpas no cartório”. Seria um descalabro total para a cotação dos nossos magistrados e um escândalo ainda maior para a imagem dos tribunais e do próprio Estado português, se viesse a comprovar-se a sua inocência, depois deste tremendo aparato em torno da sua detenção. Todavia, a prisão preventiva de Sócrates causou-nos perplexidade mas, a par disso, a quebra ou violação do segredo de justiça, que em Portugal começa a ser uma doença judicial crónica, preocupa-nos ainda mais. A comunicação social, é claro, aproveitou para fazer um “festival” em torno da prisão do visado. O tratamento conferido a José Sócrates, quer pela justiça quer pelos “media”, tem sido, efetivamente, personalizada e requintadamente humilhante e punitivo, tendo em conta o desvelo “extremoso” concedido a Ricardo Salgado e o moderado grau de punição atribuído, por exemplo, a Isaltino de Morais, a Oliveira e Costa, aos recentes envolvidos no caso dos Vistos Gold e, até agora, a Duarte Lima, também eles considerados como agentes responsáveis por crimes graves de fraude fiscal, branqueamento de capitais, atos de corrupção e uso indevido de dinheiros públicos e privados. Será que a justiça portuguesa dispõe mesmo de dois pesos e duas medidas, como muitos lhe apontam?    
A acreditar que os tribunais portugueses poderão, finalmente, vir a garantir uma criteriosa, isenta, justa, imparcial e continuada prática de justiça e que a espada de Dâmocles acabará por cair em cima de ricos e pobres ou de cidadãos comuns e de figuras públicas com o mesmo gume preciso, afiado e célere, a corrupção tem os dias contados e, então sim, talvez venha a reduzir-se a níveis aceitáveis, como dizia a drª Cândida Almeida.
Suspeitamos que, nesta onda de saneamento judicial do país, aparentemente, visando a reabilitação moral da vida política e governativa, dirigida, pela primeira vez, a altos cargos da administração pública e a figuras de grande notoriedade social, viremos a ter mais surpresas.
Mas a que se deverá esta revoada de purificação na “República” que muitos apelidam “das bananas”? A uma consciência renovadora do poder judicial, isento, equitativo e justo, cumprindo escrupulosamente o seu dever, ou a revanches partidárias entre as habituais forças que, alternadamente, assumem o poder, dispostas a arrasar politicamente os adversários mais incómodos e com telhados de vidro mais quebráveis?  
Qualquer coisa parece estar a mudar neste Oásis, pelos vistos, menos socrático do que outrora, ou neste jardim imaculado da dr.ª Cândida de Almeida, onde talvez haja mesmo alguma corrupção, e não tão residual como ela apregoava.
Aguardemos pelos próximos episódios.
João Frada