segunda-feira, 27 de abril de 2020

2. COVID-19 e Gripe A (H1N1)v. 2009-10: Semelhanças e Diferenças


2. CORONAVIRUS 2019-2020 e GRIPE A H1N1 de 2009-2010, em Portugal e no Mundo
                                                       Semelhanças e Diferenças

PARTE II - Recomendações e Medidas preventivas

A História é e sempre foi uma das nossas melhores “Mestras”, em todos os campos do saber. Das muitas lições que nos transmitiu, há algumas que pela sua enorme relevância e sentido prático, deve(ria)m ser consideradas, princípios orientadores das regras e conceitos básicos no domínio da prevenção da gripe e de outras doenças transmitidas por via aérea, incluindo as provocadas por coronavírus, a SARS-CoV, em 2002, a MERS-CoV, em 2012, e, agora, a COVID-19.
                                                                       ******
O conjunto de Normas e Recomendações que a seguir apresentamos, não muito diferentes daquelas que as autoridades, nacionais e internacionais de saúde, veicula(ra)m, desde o início da Gripe A H1N1 de 2009 e, agora, durante este surto da COVID-19, justifica que se teçam algumas considerações e reflexões, alertando o leitor para as conveniências destes procedimentos, em termos de higiene e prevenção de qualquer patologia virulenta, endémica, epidémica ou pandémica.  
1• Evitar a permanência, dentro do possível, em ajuntamentos e locais ou espaços, especialmente, fechados, com grande densidade populacional, onde a probabilidade de contágio aumenta, e não hesitar em USAR MÁSCARA; é evidente que o simples facto de se respirar ar condicionado em “circuito forçado”, mesmo fazendo uso de filtros “ditos especiais” (embora estes possam oferecer maior segurança), constitui sempre um risco significativo.
2• Se houver suspeita de se ter contraído Gripe ou COVID-19, deve-se procurar confirmar, junto do médico, o diagnóstico e, até prova em contrário, aconselha-se a proteção das entradas /saídas respiratórias (nariz e boca) com lenços ou, de preferência, Máscaras, a fim de não se contaminar ninguém, através da tosse e espirros; de igual modo, sempre que se tussa ou espirre, para se evitar a projeção de quaisquer partículas (de Flugge) de muco ou saliva sobre outras pessoas próximas, na ausência de lenço disponível, é melhor fazê-lo sobre o próprio braço ou antebraço. Estes conselhos são, de resto, aquilo que qualquer pessoa deve aprender a fazer desde criança, enquanto prática higiénica fundamental diária, e não apenas durante surtos gripais endémicos, epidémicos e pandémicos ou de qualquer outra natureza contagiosa. Criando estas "barreiras", prevenimos a eventual formação de nuvens de aerossóis constituídos pelas pequeníssimas “partículas de Flugge”, sempre passíveis de conter grandes concentrações de vírus.
3• Ao contrário do que verificou hoje, com a COVID-19, a OMS, aquando da Gripe A (H1N1)v. de 2009-10, não aconselha/ou, na nossa opinião, erradamente, o uso preventivo de máscara (cobrindo nariz e boca) para quem, não estando doente, tenha que permanecer em ambientes ou espaços públicos fechados e pouco arejados. Por outro lado, recomenda que se evite, dentro do possível, viagens de avião. Neste meio de transporte, o ar que se respira é forçado a girar, obrigatoriamente, em circuito fechado.
Na nossa opinião, os passageiros, logo que cumpridas as normas de identificação, uma vez dentro da aeronave, exatamente, pelas razões atrás apontadas (emanadas pela própria OMS), deveriam poder fazer uso de máscara. Mas se a bordo de aviões, o uso de máscara generalizado nunca chegou a ser aconselhado e entre as tripulações das linhas aéreas Portuguesas a necessidade dessa proteção, aparentemente, nunca foi considerada, a verdade é que algumas companhias aéreas Americanas e Asiáticas não impediam o seu uso a quem fizesse questão disso. Todavia, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), em Dezembro de 2009 emitia, nas suas orientações provisórias para gestão gripal em aviões, conselhos adequados sobre o uso desta proteção. Os passageiros doentes com suspeita de Gripe ou de qualquer outra patologia respiratória aguda, e com caráter infecioso, como é o caso da COVID-19, em princípio, não deveriam viajar sem vigilância médica. Porém, quando autorizados, deve(ria)m usar máscara, colocando-a, obrigatoriamente, durante o voo e, se possível, teriam que ocupar lugares distantes cerca de 1,80 metros ("6 feet") dos restantes passageiros. Esta medida preventiva, é exatamente a mesma que, enquanto grassa esta epidemia, se recomenda, vivamente, a toda a gente. Mas, se este afastamento se tem verificado, praticamente, em todo o lado, já o uso da Máscara continua a falhar em muitas zonas do país, sobretudo, naquelas onde a população não pressente ou se apercebe que não há casos de infeção. Todavia, esta crença pode ser errada, pode ser fatal. Um infetado, no período prodrómico (inicial) da doença, não traz etiqueta na testa, nem qualquer sinal sugestivo de infeção. Por isso, a Máscara é meio caminho andado para prevenir complicações.
Esta medida iria ter, necessariamente, repercussões enormes em termos económicos e baixar os lucros das demais companhias aéreas, as quais teriam assim de limitar, em todos os voos, o número de passageiros. Quando falamos em viagens aéreas, onde se verifica, normalmente, uma significativa concentração populacional num espaço fechado e de reduzidas dimensões, teremos de pensar também noutros meios de transporte, barcos, comboios, etc. E será que esta medida, dos cerca de dois metros da distanciação entre passageiros, irá mesmo ser, obrigatoriamente, implementada, alguma vez, nestes contextos críticos pandémicos?    
É óbvio que os vírus da Gripe de 2009 e, atualmente, a COVID-19 se disseminaram pelos diversos continentes, especialmente, através das viagens aéreas, e os meios de deteção sanitária de epidemiados, com doença ativa e já com sintomatologia ou ainda em fase prodrómica, não demonstraram a eficácia tantas vezes apregoada. Os potenciais doentes puderam viajar, sem restrições, de avião, de comboio, de paquete-cruzeiro, de automóvel, e espalhar partículas de Flugge à vontade. Segundo Francisco George, Diretor Geral de Saúde, referindo-se à gripe de 2009, dos “107 casos de morte por gripe A (H1N1)v, registados até hoje (2.fev.2010) em Portugal, há 91 casos importados – pessoas que foram infetadas em viagens ao estrangeiro”. Francisco George defende ainda que, salvaguardando os profissionais de saúde a quem se aconselha, como é óbvio, o uso de máscara durante o contacto com doentes suspeitos, não se recomenda, nem se distribui tal acessório, a não ser em casos especiais, porque a infeção não assume níveis de descontrolo como os que se observaram no México, epicentro da pandemia.
Hoje, durante esta tremenda pandemia de Coronavírus, tal como em 2009,  consideramos, uma vez mais, fundamental o uso deste acessório de proteção, a Máscara, para todos os profissionais que servem a medicina do país, os quais, durante o exercício desgastante da sua nobre profissão, nas mais diversas unidades e serviços de saúde, onde, afluem milhares de utentes, alguns deles infetados, outros em fase prodrómica da doença (com poucos ou nenhuns sintomas), não só, se tornam alvos preferenciais deste agente mórbido, como correm também o risco de poderem vir a ser agentes de contágio. E, quer a morbilidade, quer a mortalidade por contágio de COVID-19, observadas entre técnicos de saúde, médicos, enfermeiros e auxiliares de ação médica, durante o exercício da sua profissão de alto risco, nos mais diversos países flagelados pelo vírus, primeiramente, a China, e, em seguida, a Áustria (provável polo de dispersão doença na Europa), têm vindo a aumentar consideravelmente.
A MÁSCARA é, pois, um acessório de uso fundamental, para todos aqueles que vivem, trabalham ou são obrigados a frequentar locais onde, suposta ou comprovadamente, pode haver risco de infeção. Mas, esta preocupação não chega. Segundo estudos desenvolvidos por especialistas em infecciologia e genética viral, a capacidade de sobrevivência ambiental destes microrganismos (coronavírus) é uma coisa séria: podem persistir ativos a temperaturas entre os 21º C. e os 25º C, durante várias horas ou mesmo alguns dias, em superfícies de Vidro, Papel ou Papelão, Cerâmica (azulejos e lajes), Couro, Madeira, Latex (luvas), PVC, Plástico e Metais (cobre, alumínio, aço inox e outros). Puderam também concluir que o vírus, entre aquelas temperaturas, mantém a sua maior durabilidade ativa, cerca de nove dias, em superfícies de plástico ou de aço inox. Nessa medida, deve-se proceder, sempre que possível, à desinfeção dos referidos materiais com produtos antissépticos recomendados: usando toalhetes alcoolizados ou através de pulverização direta (spray) com etanol ou álcool etílico a 70º, na inexistência de 95º C.; peróxido de hidrogénio (água oxigenada a 0,1%) e hipoclorito de sódio (lixívia), usado em mistura aquosa (uma parte de lixívia por nove partes de água).
Para a esterilização de Livros ou de qualquer objeto ou documento feito de papel, a desinfeção é mais delicada e complexa:
- Se for “Capa” de livro, a solução de gel alcoolizado é a melhor solução para o efeito, sem por em risco a estrutura do material.
- Se se tratar do “Miolo” de livro, a esterilização é bem mais difícil, e somente a alta temperatura ou pelo recurso à radiação ultravioleta, é possível proceder à sua esterilização.
- Quanto às “Notas bancárias”, que mudam de mão em mão, diariamente, e podem conter, sem sombra de dúvida, dezenas, senão centenas de germes, uns mais patogénicos do que outros, só através de altas temperaturas e da radiação ultravioleta poderão ser desinfetadas. Reservam-se tais procedimentos para os responsáveis dos Bancos Nacionais, se, eventualmente, alguém lhes fizer lembrar dessa necessidade prioritária, agora que estamos a viver uma crise como esta, da COVID-19. Como tratamento caseiro, garantindo alguma eficácia, aconselhamos a que se borrifem, primeiro, com álcool a 70º e se limpem e sequem, alguns minutos depois, com papel higiénico; podem também ser lavadas, secas e passadas a ferro, sob um pano fino e com as devidas cautelas.
O Conselho Ideal é aquele que já todos nós acabámos de descobrir: USAR CARTÃO DE CRÉDITO, em todas as nossas operações e, depois disso, proceder à sua limpeza com gel alcoolizado, ou Álcool a 70º ou a 96º diluído (7 partes de álcool + 3 partes de água), “por via das dúvidas”.    
                                                               ****** 
Apesar dos esforços desencadeados por todos os intervenientes na área da saúde, da governação e do setor industrial e farmacêutico, no sentido de se responder às imperativas necessidades sanitárias geradas pela epidemia da COVID-19, a verdade é que, numa boa parte das unidades hospitalares do país, como se tem visto, Não Faltam Apenas Máscaras e outros EPI´s; escasseiam também papel, álcool, gel alcoolizado e ventiladores, imprescindíveis para os doentes mais críticos.
                                                                    ******
Face à dificuldade de acesso a máscaras, sobretudo, para uso comum, extra-hospitalar, deixamos aqui uma sugestão útil: faça-a você mesmo! Como?! Consulte a INTERNET ou tente seguir as instruções que se seguem:
- Usando tecido de algodão (um pedaço de uma fronha ou de um lençol), dobrado em duas camadas se o tecido for demasiado fino, ou uma ou duas folhas duplas de rolo de papel de cozinha, com medidas suficientes para cobrir a boca e o nariz, e um ou dois elásticos, que podem ser cosidos à máquina ou à mão, é possível prepararmos uma série de máscaras para uso pessoal ou dos nossos familiares. As confecionadas em tecido de algodão, mais fiáveis, podem ser sempre recicladas, isto é, depois de usadas e sujeitas a lavagem, nos meios aquosos e de alta temperatura já atrás citados, posteriormente à secagem, est(ar)ão novamente prontas a ser utilizáveis. Lembramos que os filtros para coar café, em tecido de algodão ou flanela, usados em muitas casas das aldeias portuguesas, eram quase sempre de confeção caseira.
As máscaras de papel, essas, deverão ser postas no lixo indiferenciado e substituídas por outras.   
Ainda sobre Máscaras: abundam conselhos sobre como confecionar em casa estes equipamentos com viseira, usando uma folha de plástico transparente (de acetato de polipropileno), dessas que se usam como separadores, adquiridas em livrarias ou supermercados. Os óculos, para quem os use, são facilmente adaptados a estas viseiras. Realmente, pode ser improvisada esta viseira e, com ela, limita-se, pelo menos, o acesso às mucosas dos olhos, do nariz e da boca, de qualquer partícula de saliva ou secreções projetadas, direta e frontalmente, sobre estas portas de entrada. A viseira serve, realmente, de proteção, mas relativa. Aberta em cima e em baixo, se o indivíduo vier a respirar quaisquer partículas (de Flugge) em suspensão no ambiente, por exemplo, provenientes de um espirro, as quais podem permanecer no ar, sob a forma de aerossol, durante largos minutos, sobretudo em espaço fechado onde não haja correntes de ar, como é de supor, este tipo de viseira não garante uma grande proteção.  
                                                                    ******
Em 2009, durante a Gripe, e agora, novamente, durante esta pandemia de Coronavírus, quer a OMS, quer a maior parte das autoridades sanitárias dos diversos países flagelados por estas doenças (…), pura e simplesmente, não valorizaram as potenciais trajetórias virais que viriam a acompanhar, como sempre, a deslocação das populações em todos os meios de transporte, terrestre, marítimo e aéreo. Houve, pois, claramente, uma falha estratégica nos planos de contingência, porque a morbilidade resultante da enorme infecto-contagiosidade do vírus A (H1N1)v provar-nos-ia, sem sombra de dúvida, que se poderia ter limitado, um pouco mais, o impacto sanitário e económico desta pandemia, apesar de tudo, não tão mortífera como se temia. Tivesse sido um Vírus de gripe ou qualquer outro vírus mais letal, e todas as medidas teriam sido poucas para limitar a mortalidade. Não é fácil diagnosticar qualquer doença, numa fase clínica inicial (sobretudo, enquanto não surge febre), nem identificar um potencial doente infetado de Gripe ou de Coronavírus no “ato de embarque”. Precavendo o contágio dos seus parceiros do lado ou de uma boa parte deles enclausurados no mesmo espaço, através de tosse, espirros e eventuais contactos corporais, porque não admitir que tal acessório, a máscara, possa ser usado livremente a bordo, durante situações epidémicas ou pandémicas como a que vivemos? O seu uso ficaria ao livre-arbítrio de cada um. Caberia ao passageiro a decisão de a colocar ou de a retirar durante a sua presença a bordo, sobretudo, se a seu lado viajasse alguém com queixas respiratórias sugestivas de doença – febre, tosse ou espirros. Não é a única medida profilática capaz de fazer frente a uma situação desta natureza, é verdade. Mas é mais uma e, se no futuro nos viermos a confrontar com novos surtos infetocontagiosos deste tipo, seria bom ponderarmos que todos os cuidados são poucos. E que os vírus viajam de avião, já ninguém tem dúvidas. O atual coronavírus (COVID-19), viria, infelizmente, a comprovar, uma vez mais, as nossas convicções.
Há, porém, ainda um outro aspeto de ordem logística que deve ser tido em consideração. Sempre que a bordo se torne necessária a ingestão de água, sumos, leite ou outros alimentos sob a forma líquida, o uso de palhinha ou sonda aspirativa, que pode ser recomendado sem comprometer grandemente o sistema de proteção por máscara (tapando a boca e o nariz), resolveria a questão de logística alimentar. Como é óbvio, aplicar máscara protetora e tentar mantê-la em crianças pequenas (abaixo dos 2 anos), é/seria uma tarefa difícil de realizar. Constitui, mesmo, a única dificuldade, que antevemos, de resolução bastante complicada. Por isso, às mães com crianças pequenas damos o conselho que nos parece mais adequado a estas circunstâncias: protelar e evitar viagens de avião, o mais possível, enquanto grassar este ou outro surto epidémico ou pandémico de grande infecto-contagiosidade. Os outros passageiros, no entanto, se pudessem dispor de máscara, sentir-se-iam, seguramente, muito menos vulneráveis. Um “eventual infetado”, a bordo, que possa passar despercebido no controlo das autoridades sanitárias, por se encontrar numa fase prodrómica da doença, tem muito menos hipóteses de contaminar os restantes passageiros. Poderá pensar-se que não permitir o uso de máscara a bordo de aviões comerciais é, não só, uma estratégia inteligente, como a melhor forma de evitar o pânico e a insegurança entre as pessoas. Mas também não parece ser esta a melhor solução para se ultrapassar o temor de permanecer em espaço fechado, respirando o ar que todos respiram, em colisão total com as próprias normas emitidas pela OMS e pelas autoridades nacionais de saúde. Seria melhor refletir sobre tantos paradoxos e contradições e deixar, definitivamente, de “enterrar a cabeça na areia”. Embora sempre com a noção de que não é possível eliminar completamente o risco de contágio, estamos convictos de que todos ganhariam com a medida, incluindo as empresas de transportes aéreos, consideravelmente ressentidas com a quebra do número de viagens, desde o início da pandemia.
4• Ter em atenção o contacto com objetos ou materiais infetados por doentes (FOMITES) - corrimãos, maçanetas e pegas de portas (de casa, de automóveis, de metro, de comboio ou autocarros, etc.), mesas, secretárias, telefones, computadores, mangueiras e teclados em bombas de combustível, teclados de multibanco, solas de sapatos, carrinhos e cestos de supermercados, solas de sapatos, etc. - e proteger as mãos com luvas ou lenços de papel descartáveis. A escolha dos respetivos produtos de limpeza e antissépticos, como já o dissemos, deve ser, naturalmente, adequada a cada material ou objeto, em particular, que se pretende desinfetar ou descontaminar.
5• Desinfetar, sempre que possível, todos os materiais manuseados por indivíduos, crianças ou adultos, e sobretudo, se forem suspeitos de doença.
6• Se se contrair a doença, deve-se respeitar o isolamento no domicílio, se for este o alojamento temporário medicamente aconselhado, e manter a “quarentena” até decisão médica contrária, por forma a não contaminar ninguém e a evitar as complicações secundárias (bronquites e pneumonias), desencadeadas pela Gripe ou, agora, pela COVID-19.
7• Lavar as mãos com Água Quente e Sabão (de preferência Líquido) ou produtos antisséticos medicamente recomendados, e secá-las, sempre que possível, com toalhetes descartáveis.
8• Evitar contactos das mãos ou lenços sujos de muco (de tosse ou espirros) com os olhos e o nariz, também portas de entrada da doença. Com máscara colocada ou não, nestas circunstâncias críticas, em que o país foi colocado em estado de emergência, face ao número crescente de infetados e de mortos pela ação do vírus, recomenda-se a todo o cidadão que Evite, o mais possível, tocar ou coçar o rosto ou esfregar a boca ou os olhos com as mãos, protegidas com luvas ou não. Todas as mucosas, como já o dissemos, constituem portas de entrada e de contaminação viral. A proteção com luvas, como requer procedimentos especiais para a sua utilização, manuseamento e desinfeção posterior, a não ser que sejam descartáveis (e também estas não devem ser retiradas de qualquer maneira), é preferível não ser considerada de uso comum. É mais fácil e garantida a desinfeção regular das mãos com água e sabão ou com qualquer outro meio antisséptico.    
9• Instruir suficientemente as crianças para respeitar o mais possível estes requisitos e normas preventivas. Estes são alguns dos cuidados higiénicos importantes a reter que, se observados em situações de crise epidémica deste ou de qualquer outro tipo, poderão ajudar a fazer a diferença.
10• Dada a possibilidade remota de contagiosidade de animais domésticos de estimação, em particular, gatos e cães, já confirmada em alguns países, quando em contacto com pessoas infetadas de COVID-19, de um modo geral, conviventes próximos com tais animais, seria de bom tom que qualquer indivíduo doente com este vírus, e sob tratamento obrigatório e isolamento social no domicílio, evite contactos muito íntimos com estes simpáticos bichinhos. E, tal como se aconselham os humanos a lavar as solas dos sapatos, com água e sabão, ou a esfregá-las num pano ou tapete bem molhado numa mistura aquosa de  (nove partes) de água com (uma parte) lixívia e a, sempre que possível, não transportar estes acessórios para dentro das residências, recomenda-se a que se proceda também à limpeza das patas dos fiéis amigos caninos e, se possível, felinos (gatos de estimação), quando regressam das suas passeatas, depois de serem levados à rua pelas trelas. A lixívia, diluída em água ou não, nunca deve ser utilizada na limpeza e desinfeção das patas destes animais, pela sua ação cáustica e corrosiva. A lavagem com uma mistura de água e sabão abundante remove, completamente, qualquer microrganismo alojado nas patas destes animais.
11• No atual contexto epidémico de Coronavírus, em acréscimo a todos os procedimentos higiénicos já citados, recomenda-se a todo o cidadão, residente em área considerada de elevado risco de contagiosidade viral, e este grau estabelece-se, como é óbvio, com base no números de infetados diagnosticados no local (aldeia, vila ou cidade) que, caso tenha de romper, pontual ou diariamente, o isolamento sanitário (ou período de quarentena) imposto pelo estado de emergência, a fim de cumprir ou resolver fora de casa alguns dos seus compromissos laborais ou necessidades básicas, deve ter em atenção mais um Conselho fundamental: regressado a casa, todas as roupas externas e o calçado usados durante a saída à rua, sobretudo, se frequentou locais onde possa ter estado muita gente, (supermercados, micromercados, centros comerciais, padarias, farmácias, bancos, etc.),  aumentando a possibilidade de haver potenciais doentes, assintomáticos ou não, deveriam ser deixados fora de casa, no hall, na garagem ou noutro espaço próximo da porta de entrada, se possível expostos ao ar e ao sol, e, posteriormente, depositados em saco próprio ou contentor de roupa suja, seguindo daqui para a lavagem em água quente, acima ou igual a 60º C, como já foi referido mais acima. Os sapatos, tal como a roupa, devem ser lavados e as solas desinfetadas com água e sabão ou uma mistura aquosa de lixívia, já supracitada. Este conselho, sobre o especial cuidado a ter com vestes e calçado, tem sido insistentemente referido por especialistas e pessoal hospitalar, bem conhecedores da resistência deste vírus, quando infiltrado nestes equipamentos.     
12• Às autoridades de proteção civil, em especial, aos bombeiros e às Forças Armadas, seguindo as orientações sanitárias aconselhadas para o controlo de quaisquer crises epidémicas, como aquela que agora vivemos, compete-lhes proceder à desinfeção periódica, através de pulverização ou de limpeza antisséptica direta e manual, todos os locais, onde, supostamente, se corra maior risco de infeto-contagiosidade viral: lares de idosos, prisões e hospitais, bem como todos os espaços públicos onde, porventura, possam haver resquícios ou partículas virulentas de COVID-19. 
Em resumo:
Todos os materiais de uso individual devem ser sujeitos a desinfeção periódica e, depois de lavados com água e sabão ou, eventualmente, passados durante alguns minutos, numa mistura de água e lixívia (tendo sempre em conta que alguns equipamentos, tecidos, em particular, podem ser sensíveis a este produto e sofrer deterioração ou descoloração), aconselha-se a que sejam colocados ao sol, sempre que seja possível. O Coronavírus, assim exposto ao ambiente e às radiações solares, desidrata-se facilmente e, ao sofrer danos na sua estrutura molecular, torna-se inativo e incapaz de infetar qualquer hospedeiro. 
13• Em época de Coronavírus ou não, sempre que precisem de abrir qualquer caixote ou depósito de lixo público, se não quiserem utilizar as vossas luvas, descartáveis ou não, gastar álcool, borrifando o local onde irão pôr os vossos dedos para levantar a respetiva tampa ou usar um qualquer pedaço de papel, para o mesmo efeito, mantendo sempre a necessária distância para evitar sujar ou contaminar as vossas vestes, e evitando, assim, contactos microbianos duvidosos, experimentem levantá-la (a dita tampa) com um pequeno pau ou um pedaço de papelão grosso, do tamanho de um palmo, sem tocar no caixote. Logo que a abertura do mesmo vos pareça suficiente para inserirem os vossos sacos de lixo comum lá dentro, depositem-nos ou lancem-nos ali, sem pressas, mas, antes de o fecharem, procurem deixar o pauzinho ou o papelão que usaram na operação, bem trilhado sob a tampa e com a sua maior porção voltada para o interior do dito depósito. Logo que outro utilizador abra este caixote de lixo, o objeto ou o papelão ali deixado cairá, de imediato, no seu interior.  Caso usem mãos livres, desinfetem-nas, obviamente, com álcool ou, chegados a casa, com água abundante e sabão.       
14• Nos casos especiais, em que há doentes isolados, não no hospital, mas no domicilio, os cuidados, bem mais rigorosos, a serem tidos em conta, para além dos que já citámos, deverão ser instituídos por autoridades de saúde, médicos e enfermeiros, que venham a proceder ao seguimento sanitário e terapêutico do enfermo e, por isso mesmo, entendemos não os referir nesta Lista de Recomendações Gerais.
15• Tendo em conta tudo quanto foi dito acerca da higiene e contenção da COVID-19, lembrem-se que, se o coronavírus pode sobreviver no ambiente, com capacidade ativa e virulenta, e tem havido a preocupação de desinfetar todos o espaços e zonas públicas, ruas e locais, sobretudo, onde possa ter havido ou transitado grande número de pessoas, a utilização dos “ares-condicionados” nas nossas residências ou locais de trabalho, devem ser também, correta e regulamente, sujeitos a desinfeção periódica. As infeções a Legionella pneumophila, que se desenvolve no ambiente húmido dos equipamentos de ar-condicionado, são a prova irrefutável de que há absoluta necessidade de proceder à manutenção destes equipamentos, para evitar riscos de doença.    
16• Nota Preventiva especial, não menos importante do que todos as outras, anteriormente referidas: devam ter em atenção qual o estado do vosso “sistema imunitário” porque é ele que marca a diferença entre a nossa maior ou menor capacidade de resistência em relação a qualquer agente infecioso. Uma boa imunidade depende de muitos fatores, mas, acima de tudo, de uma alimentação equilibrada, da prática de exercício físico regular e de uma boa suplementação vitamínica, o mais possível, natural, mas, se necessário, também farmacológica. E, nesta crise atual, as vitaminas mais essenciais são: todas as que constituem o complexo B, o ácido ascórbico (vitamina C) e a vitamina D, esta última, considerada de especial importância na prevenção e cura de doenças respiratórias provocadas por múltiplos agentes infeciosos, incluindo o Coronavírus.    
Lembramos, no entanto, que também as Vitaminas, ou por fatores idiossincráticos ou por consumo em excesso, podem desencadear efeitos ou reações indesejáveis. Assim, o ideal seria que pudessem consultar o vosso médico assistente ou farmacêutico, antes de iniciar estes suplementos.
Meditem nisto!
Ah, e repetindo-me, na rua ou em qualquer espaço público ou privado (supermercados, repartições, etc.), onde estejam ou onde tenham estado muitas pessoas, não deixem de usar MÁSCARA. Ainda que não seja uma medida 100% protetora, garante-vos, seguramente, maior probabilidade de não contrair doenças como esta, da COVID-19, de transmissão predominantemente aérea, através da tosse e do espirro.
17• Evite, o mais possível, permanecer muito tempo em espaços fechados e onde se concentre muita gente. Faça exercício físico em casa, de preferência, ou ao ar livre, em zonas e locais onde não cruze, necessariamente, com muita gente. Nestas ocupações, tal como em casa, desde que não conviva com doentes, não se justifica, obviamente, o uso de máscara. 
Enquanto não surgir uma Vacina segura e, suficientemente, preventiva, como a imunidade alargada de grupo, só conseguida quando uma grande parte da população, atingida pela doença, recupera e passa a dispor das suas próprias defesas, dos seus anticorpos naturais, o risco de se poder assistir a uma segunda ou terceira vaga viral mais mortífera é sempre uma possibilidade a ter em conta.   Assim, até que surja uma Vacina salvadora, não se deve afrouxar a vigilância e, quer os cuidados higiénicos, quer a Máscara, continuam a ser a melhor defesa contra este ou qualquer outro vírus infecioso, endémico, epidémico ou pandémico. 
Deixo-vos uma última nota de leitura, para meditarem: 
A OMS, em 2009, revelou uma total ingenuidade em relação às suas orientações e, visivelmente, entrou mesmo em contradição. Por um lado, não aconselhava o uso de máscaras, a não ser para quem estivesse doente e tivesse que permanecer em espaços públicos, fechados e pouco arejados; para todos aqueles que não fossem considerados ou não se considerassem doentes, enquanto viajassem de avião, de autocarro ou de comboio, não lhes era recomendado o uso de máscara. Como qualquer indivíduo, numa fase prodrómica da doença, ou não tem sintomas ou não tem queixas suficientes para que alguém o classifique como doente, “sem etiqueta na testa de que está infetado”, pode mexer ou tocar onde lhe apetecer, pode tossir, pode espirrar, que ninguém dará por isso. Foi isso mesmo que aconteceu em 2009-2010, ocasionando a disseminação relâmpago da Gripe Influenza A(H1N1)v. Hoje, uma vez mais, perante a crise de COVID-19, a OMS, claramente, useira e vezeira nestas falhas e contradições, voltou a cometer a mesma imprudência e incoerência, aconselhando as autoridades sanitárias a seguir apenas estas medidas: “Em qualquer espaço fechado, público ou privado, deve ser limitada a concentração de pessoas (quatro por cada 100 m2), e estas deverão manter, sempre que possível, a distância de dois metros entre si. Mas, máscara, quem quiser usa, quem não quiser, não usa, porque não deve ser considerada uma medida obrigatória. Entretanto, a mesma omnisciente instituição e, claro, também as nossas autoridades sanitárias, a reboque destas decisões, perante a situação crescente de doentes e falecidos por COVID, começaram, finalmente, a ponderar se não seria melhor instituir o uso do dito acessório: a Máscara. Mas, o “parto” está difícil. Aguardemos então pela suprema reflexão sobre esta última medida.    
 Máscara - Pelo sim, pelo não, comecem a usá-la, convenientemente, tendo em conta a sua desinfeção e reutilização posterior, de acordo com todos os cuidados acima referidos. 
  
Autor: 
João Frada
Médico/Professor Universitário, Aposentado
(Especialista em Epidemiologia Histórica)
Doutor em Medicina (FML/HSM)

Fontes
Principais:
- FRADA, João. A Gripe Pneumónica em Portugal Continental - 1918 (Estudo  Socioeconómico e Epidemiológico. Edição Setecaminhos: Lisboa, 2005.
- FRADA, João. Pandemias de Gripe A (H1N1) em Portugal (1918 – 2009) – Ecos e cismas do passado no presente. Edições Clinfontur: Lisboa, 2010. [Excerto da Obra - texto truncado e adaptado]
Secundárias:
- Cadeias de Transmissão de Coronavírus
(https://www.publico.pt/2020/03/22/sociedade/noticia/dgs-ja-nao-divulga-cadeias-transmissao-nao-caracteriza-perfil-doentes-internados-1908929)
- Notícias e dados colhidos a partir da “Comunicação Social” diária - Periódicos e Televisões (Entre Dez. 2019 - 30.Mar.2020) 

Nota: Seguir-se-á a Parte III-IV deste Estudo




1. CORONAVIRUS 2019-2020 e GRIPE A (H1N1) de 2009-2010, em Portugal e no Mundo
                                                
                                  Semelhanças e Diferenças

Considerações Prévias
No trabalho de investigação que efetuámos, apresentado em quatro partes distintas, centrámo-nos, fundamentalmente, no estudo e na compreensão dos diversos aspetos epidemiológicos das duas pandemias, de CoronaVirus Disease (COVID-19) e de Gripe A (H1N1)v. de 2009-2010, e nas respostas sanitárias e sociológico-políticas estabelecidas para a sua prevenção, controlo e contenção.
Considerámos prioritário o levantamento dos dados disponíveis, atualmente, sobre esta pandemia de COVID-19, e o seu tratamento constitui a Primeira Parte deste estudo.
Na Segunda e Terceira Partes, destacamos o papel das várias medidas higiénicas e preventivas, aconselhadas durante a Gripe de 2009-10 e, agora, novamente ventiladas, enquanto decorre este surto pandémico de Coronavírus. Abordamos ainda, com algum sentido crítico, mas sempre construtivo, o importante papel que deve ser reconhecido a todos os intervenientes, às entidades sanitárias, ao governo e à sociedade, em geral, neste complexo processo de luta e contenção, movido contra estas duas entidades nosológicas, mórbidas e letais.
Na quarta e última parte debruçamo-nos, de uma forma geral, sobre algumas das pandemias virais e bacterianas que marcaram, fortemente, os ritmos da Civilização entre a Antiguidade e os nossos dias, e realçamos a importância desses impactos virulentos, mórbidos e mortíferos, quer sob o ponto de vista demográfico, socioeconómico e financeiro, quer no tocante à evolução do conhecimento médico e farmacológico. Refletir sobre estes fenómenos, lições duras e dolorosas, mas, simultaneamente, excelentes guias do comportamento do homem, fundamentais à sua relação com o Mundo, com a Natureza e com a sociedade de que faz parte, constitui o objetivo fundamental da nossa análise.  

PARTE I

COVID-19: alguns aspetos clínicos 

Deixando para a medicina as questões específicas relativas ao diagnóstico e ao tratamento dos enfermos, iremos apenas debruçar-nos, de forma pontual, sobre alguns aspetos clínicos da doença, uma vez que todos os meios de comunicação, periódicos, televisão e redes sociais, têm procedido, diariamente, à sua divulgação exaustiva. 
Eis um desses quadros informativos:
SINTOMAS            Coronavírus     Constipação   Gripe
Febre                      Habitual            Rara                 Habitual
Fadiga                     Às vezes            Às vezes          Habitual
Tosse                      Habitual (seca) Moderada      Habitual (seca)
Espirros                  Não                    Habitual          Não
Dores no corpo     Às vezes            Habitual          Habitual
Nariz entupido      Raro                   Habitual          Às vezes
Dor de garganta    Às vezes            Habitual          Às vezes
Diarreia                   Raro                   Não               Às vezes (em crianças)                                           
Dor de cabeça        Às vezes            Raro                Habitual
Falta de ar               Às vezes            Não                 Não
Fonte: Quadro extraído do Correio da Manhã (12.03.2020)
        
A doença a Coronavírus, ao contrário da simples Constipação ou da Gripe, apresenta:
 - Falta de ar, não, apenas, “Às vezes”, mas Sempre, entre o grau Ligeiro e o Severo
- Cefaleias (dores de cabeça), não “Às vezes”, mas Sempre, entre o grau Ligeiro e o Severo.
A explicação é simples:
Aliada “Falta de ar”, resultante da habitual destruição da mucosa e submucosa pulmonar, pela ação viral, com compromissos imediatos dos normais mecanismos respiratórios, os índices arteriais e teciduais de O2 e de CO2 sofrem desregulação imediata. Entre as demais repercussões orgânicas, geradas pelo compromisso da hematose pulmonar, a hipoxemia cerebral traduz-se, habitualmente, entre outros sintomas, por cefaleias. Aliada a este desequilíbrio químico-molecular, a “Tosse”, quando persistente, violenta e prolongada, uma queixa comum na pneumonia a coronavírus, a par da pressão intratorácica que a acompanha, diminui frequentemente o fluxo sanguíneo cerebral, já de si comprometido pela oxigenação deficiente, e contribui também para agravar, um pouco mais, ou despoletar as Cefaleias.
- Alguns médicos, com experiência no terreno, constataram que uma grande percentagem de doentes (cerca de 30%), referiam também Anosmia (perda total de olfato) e Hiposmia (perda parcial de olfato), provavelmente, resultante da destruição da mucosa nasal e destruição das terminações nervosas olfativas.
                                                    ******
COVID-19 em Portugal e no Mundo: aspetos epidemiológicos, sanitários e sociológico-políticos 
                                                      
Com o epicentro em Wuhan, cidade chinesa com mais de 11 milhões de habitantes, a COVID-19, rapidamente, transpôs as fronteiras deste país e pôde acompanhar milhares de infetados que, assintomáticos ou em fase ligeira e prodrómica da doença, diariamente, foram saindo da China, rumo a todos os cantos do Mundo, durante as suas deslocações de trabalho ou de lazer, sem que ninguém os impedisse. O governo chinês, por seu lado, confrontado com a terrível situação que ali se vivia, perante a altíssima contagiosidade e virulência do coronavírus, pressentida, supõe-se, em primeira mão, por um médico oftalmologista, o qual, ao lado dos seus doentes, na cidade Wuhan, viria também a ser infetado e a perecer pela ação deste microrganismo, optou pelo silêncio; encerrou-se dentro de portas, procurando suster, como podia, este surto epidémico, não informou, como devia, nem a comunidade internacional, nem a OMS, em tempo útil, e acabou por permitir e facilitar, através das constantes pontes aéreas, marítimas e terrestres, a disseminação, em larga escala, de inúmeras cadeias de transmissão viral. O resultado “foi o que se viu, o que se vê e o que ainda há de vir”, sobretudo, em países onde a higiene, a miséria, a fome e as condições sanitárias, em geral não funcionam ou não existem.
Os países ocidentais, como seria de esperar, não estavam, e muitos ainda não estão, preparados para uma calamidade desta natureza. “E a procissão”, podemos dizê-lo, lamentavelmente, “ainda vai no adro”.      
Portugal, à imagem de outros países, praticamente, parou, e os hábitos de milhões de pessoas parecem ter mudado, quase radicalmente. Seguindo e prosseguindo os cuidados higiénicos básicos aconselhados, nestas circunstâncias, a grande maioria da população, assim isolada e preservada dos eventuais focos de contágio, diagnosticados e sujeitos a vigilância médica, domiciliária ou hospitalar, terá sérias probabilidades de escapar ilesa. Curam-se os doentes, falecem os mais débeis e consideram-se, definitivamente, indemnes aqueles que não manifestaram sintomas da doença, ainda que alguns tenham desenvolvido quadros ligeiros e quase impercetíveis da mesma.
Perante o panorama que se tem verificado em Portugal, em termos de contabilidade diária de infetados, curados e falecidos, no contexto desta pandemia de Coronavírus, em contraste com o quadro geral observado, quer na China, quer noutros países europeus afetados pela COVID-19, parecem-nos  demasiado otimistas a afirmações da senhora Ministra da Saúde e de outras autoridades sanitárias, debruçadas sobre a curva epidémica e a expansão geográfica da doença. Apontando o “pico da doença” para breve, por volta de meados do próximo mês de Abril, a alta responsável pela Saúde, exageradamente otimista, parece esquecer-se de que as cadeias de transmissão aumentaram significativamente, a partir dos últimos dias (da terceira semana do mês de Março), e, esse facto, torna extremamente difícil o trabalho de contenção da epidemia. O controlo rigoroso que se deveria ter feito nas fronteiras, pecando, como já o dissemos, por insuficiente e tardio, permitiu a disseminação da COVID-19 em território nacional e, a partir daqui, seria de esperar a sua transmissão comunitária. Qualquer indivíduo passou a ser um potencial agente de propagação da doença, e, nesta altura, há que estabelecer outras medidas, “mitigando” o mais possível a extensão da epidemia ativa e os seus efeitos nefastos. Tal como se verificou nos países asiáticos afetados pela pandemia, o uso de máscaras, fora ou dentro dos serviços de saúde ou no contexto de pequenos grupos de pessoas, distanciadas devidamente umas das outras, passa a ser de uso recomendado, ainda que, por ora, não obrigatório, para toda a gente.
O isolamento do doente, suspeito ou confirmado por teste específico, de acordo com a gravidade do seu estado e das suas queixas, deverá processar-se ou no domicílio ou em unidade hospitalar, dotada dos recursos adequados ao respetivo tratamento. Qualquer indivíduo com sintomas sugestivos da doença, febre em particular, deverá ser de imediato sujeito a Teste de diagnóstico de COVID-19. Se positivo, todas as pessoas com quem contactou terão também de ser sujeitas ao mesmo teste. Mantendo as necessárias medidas de mitigação, que tememos não serem fáceis de cumprir durante muito tempo, e rastreando, dentro do possível, toda a população, eventualmente, identificada como próxima ou convivente com um infetado, é possível anular e quebrar qualquer cadeia de transmissão, conduzindo a um controlo mais eficaz, mais rápido e seguro deste surto de coronavírus.
Mas, se a população, de um modo geral, após duas semanas de isolamento domiciliário, parece estar preparada, pelo menos, por ora, para uma verdadeira quarentena, aderindo e apoiando contenção à epidemia, as múltiplas carências observadas nas mais diversas unidades de saúde do país, põem em risco toda a luta estabelecida contra a disseminação do vírus. A falta dos equipamentos fundamentais para a prevenção e combate desta calamidade, aliada aos constantes descuidos e falhas de vigilância no controlo de entradas, atribuídos aos agentes e autoridades ligados à segurança aeroportuária, alfandegária e à proteção civil, constituem verdadeiras “brechas” nesta frente de combate à COVID-19.
Esperar que o vírus se dissemine e percorra, numa louca maratona, todas as regiões do país, e aguardar que “ele toque a campainha” da doença e da morte, avisando-nos da sua passagem e presença, e acreditar que a DGS, entretanto, num “trabalho incansável de detetive”, sempre na retaguarda do mesmo, possa mapear os focos e cadeias de transmissão viral e aconselhar, finalmente, o isolamento preventivo da população e o cumprimento das demais regras higiénicas essenciais, é francamente insuficiente. Rastrear toda a população, considerada de risco, nesta fase de mitigação, através de teste específico, embora sabendo que seria a forma mais perfeita de isolar os infetados dos saudáveis, não acreditamos que possa ser, economicamente, exequível; a menos que tais testes, credíveis, em absoluto, e de fácil utilização, venham a ser disponibilizados pelos serviços de saúde ou colocados no mercado farmacêutico a preços acessíveis a todas as bolsas. Defendemos, contudo, que esse diagnóstico laboratorial, se possível, deveria estender-se a todos aqueles que, mesmo sem queixas, conviveram de perto com indivíduos infetados. Esta medida, levada a cabo pelo Serviço Nacional de Saúde, iria provocar um grande abalo aos Cofres Públicos e provocar, eventualmente, algum desequilíbrio ou compromisso Orçamental ao Ministério das Finanças? Admitimos que sim!
Mas, não se gasta(ra)m e continuam a injetar milhões para evitar o Risco Sistémico da Banca, recapitalizando bancos falidos, mal geridos e corrompidos por fraudes e incompetências?!
Pois, neste momento, o Risco Sistémico Sanitário deverá ser a vossa prioridade, senhor Primeiro Ministro, senhores Governantes.
Tendo em conta que o mercado internacional não está a responder às encomendas do S.N.S, está na hora de se investir o que for preciso na produção nacional de Ventiladores, fundamentais às unidades de cuidados intensivos, de EPI´s (equipamentos de proteção individual), destinados a todos aqueles, médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde, na  linha da frente de combate à COVID-19. De igual modo, é Urgente que se disponibilizem as verbas necessárias para a aquisição de Kits de diagnóstico específico do vírus, ou no mercado nacional, caso alguma empresa ou laboratório venha a apostar no seu fabrico, ou no mercado internacional, desde que os mesmos venham a ser certificados em termos de total fiabilidade e precisão, junto dos organismos nacionais dotados para este fim. O Instituto Nacional Ricardo Jorge é, seguramente, a instituição que mais garantias pode oferecer neste domínio.
Na impossibilidade de sujeitar toda a população saudável a esta triagem, rastrear o vírus no máximo de pessoas, nesta fase epidémica, em especial naquelas que possam ter tido contacto com as diversas cadeias de transmissão já identificadas, seria, quanto a nós, a melhor medida de contenção sanitária da doença. “Doentes, para um lado, Saudáveis, para o outro, e Duvidosos sujeitos a contra-análise e a avaliação clínica”. Os doentes, isolados no hospital ou no domicílio, e todos, infetados ou não, teriam de ter consciência dos cuidados a tomar. 
Nesta complicada “fase de mitigação” a que chegámos, por indecisões, erros e ingenuidades das demais autoridades, políticas, sanitárias e de proteção civil, envolvidas no trabalho de vigilância e contenção alargada da epidemia, parece-nos que este diagnóstico global da COVID-19 poderia vir a poupar muitas vidas e menos estragos, a posteriori, na economia do País. Os doentes seriam isolados, e os não infetados, sujeitos aos cuidados fundamentais que hoje se aconselham, exigem e processam, em termos de desinfeção de espaços e prevenção de contágio individual, poderiam continuar a laborar nos seus postos de trabalho, assegurando e dinamizando a economia e a vida do país.
É urgente pensar nisto, senhor Primeiro Ministro, senhores Governantes. Senão, assistiremos, seguramente, depois desta Crise sanitária, a uma crise, não menos dolorosa, uma Hecatombe económica e financeira.
O País tem seguido e respeitado, mais ou menos, pacificamente, os conselhos e medidas de isolamento e contenção veiculados por todos os órgãos de saúde e subscritos pelo Governo, na nossa opinião, positivamente representado pela atuação do Senhor Primeiro Ministro, mas até quando irá cumprir acatar tais restrições?!
“Não se trabalha, não se produz, não se ganha, não se compra, não se paga, não se come…”. Não é, seguramente, com esta Receita que o país, sem grande atividade laboral e empresarial, irá conseguir reequilibrar as contas públicas, manter o Orçamento de Estado a salvo, diminuir o Défice e a Dívida Publica.     
Há nesta altura, em Portugal, três semanas depois do primeiro paciente diagnosticado com coronavírus, cerca de 24 cadeias de transmissão da doença…talvez mais…, e a DGS, perante o facto do aumento considerável de focos populacionais de infeção, terá optado por deixar de revelar diariamente este dado epidemiológico. Apesar das corretas medidas estabelecidas pelo Governo, que, voltamos a afirmar, só pecaram por tardias, as “brechas” têm sido muitas “na linha da frente” de combate ao vírus. Desde finais de fevereiro de 2020, este microrganismo pôde viajar de barco, de comboio, de automóvel e de avião, sem restrições, inicialmente, a partir da China, depois, de Itália, de Espanha e de outros cantos do Mundo afetados pela doença, e, nestas circunstâncias, o risco de aumento das cadeias de transmissão era previsível. No seu imparável percurso contagioso e sem as necessárias barreiras sanitárias, que ainda vão faltando ou nem sempre são cumpridas com rigor, a COVID-19, silenciosa e mórbida, tem vindo a somar pontos, aumentando, como seria de esperar, o referido número de cadeias de transmissão e dificultando a capacidade de resposta sanitária, em todo o país. O número de infetados e de mortos, pela doença, sobem diariamente.
Seguindo o rasto mórbido e mortífero da COVID-19, a quantidade de doentes e de vítimas mortais não cessa de aumentar. Há quatro dias, contabilizavam-se 350.000 pessoas infetadas e mais de 15.000 vítimas mortais em todo o Mundo. Hoje, só na Europa, já se registaram cerca de 260.000 casos de infeção e cerca de 30.000 mortos. Estas cifras, entretanto, em função das mais diversas fontes de informação, variam significativamente. Em Portugal, com 6.408 casos confirmados de doença, a mortalidade elevou-se para 140 óbitos (Informação SIC Notícias - 30.3.20).
Observando-se, por outro lado, a distribuição da doença por grupo etário, constata-se que, praticamente, todas as faixas etárias têm sido alvos da COVID-19, em maior ou menor grau. Todavia, é nos idosos, sobretudo, nos que sofrem de patologias crónicas (diabetes, doenças cardíacas e respiratórias, etc.), que a pandemia tem feito mais estragos, com elevado número de internamentos e de vítimas mortais. Alguns estudos estabelecidos a partir de dados recolhidos, até agora, na China, na Coreia do Sul, em Itália e em Espanha, permitem-nos também afirmar que, nestes países, as crianças, saudáveis e sem fragilidades congénitas ou imunitárias, com idades iguais ou inferiores aos nove anos, quando infetadas pela COVID-19, ou se apresenta(va)m assintomáticas ou revela(va)m quadros clínicos relativamente ligeiros, de tosse, congestionamento nasal, diarreia e cefaleias. E, ao contrário de todos os outros grupos etários, esta faixa não registou qualquer mortalidade.
Confrontada, diariamente, com uma verdadeira torrente epidémica desencadeada pela COVID-19, que, pouco a pouco vai deixando sem capacidade de resposta os centros e unidades hospitalares reservados ao internamento e tratamento dos doentes infetados, a comunidade médica mundial, ainda sem protocolos terapêuticos específicos suficientemente eficazes para o combate a esta doença, tem ensaiado, com sucesso, velhos fármacos e experimentado novos produtos, muitos deles com resultados bastante promissores, e nesta luta, nesta contínua procura do impossível, vai ganhando batalhas, contrariando e limitando os efeitos da virulência deste germe, o coronavírus. Mas, esta “guerra mundial”, acreditamos, só findará quando surgir definitivamente uma vacina.    
Venceu-se a varíola, e é hoje possível controlar melhor a tuberculose, a malária e a maior parte das doenças virais que flagelaram o Mundo no passado e ainda inquietam algumas comunidades no presente, especialmente, em zonas tropicais.
Sabemos que é hoje possível, através da engenharia genética, produzir microrganismos virulentos. Mas, a Mãe Natureza continua a ser, apesar de tudo, a grande “obreira e fonte” destes seres tão peculiares. A evolução das espécies não é um fenómenos estacionário, e, tal como todos os seres vivos, os microrganismos, ainda que relativamente benignos nos seus hospedeiros animais e pouco ou nada patogénicos em seres humanos (como é o caso dos vírus bacteriófagos da flora intestinal), são, naturalmente, suscetíveis a alterações desencadeadas por múltiplos fatores, entre os quais se apontam,  como mais preocupantes, os de natureza climática e ecoambiental, que, hoje, mais do que nunca, agridem todo o Planeta. Saídos, acidentalmente, dos seus nichos (plantas ou animais seus hospedeiros), e uma vez em contacto com o homem, neste caso particular da COVID-19, através do consumo de espécies selvagens, desde há muito, na China, consideradas comestíveis (pangolim, cobra, morcego, etc.), depois de cruzarem as barreiras naturais do ser humano (pele, mucosas, etc.), estes seres microscópicos, vírus e bactérias, são capazes de espalhar a sua virulência mórbida e mortal por todo o lado, quando as condições climatéricas e sociológicas lhes são, particularmente, favoráveis. Os surtos endémicos, epidémicos e pandémicos têm assim marcado e continuarão, seguramente, a acompanhar os ritmos da nossa Civilização.  
O Homem, porém, confrontado com estas adversidades, não tem cruzado os braços e, nessa luta permanente, acaba sempre por criar respostas farmacológicas capazes de as suster ou de as aniquilar; os antibióticos e os antivíricos são, efetivamente, grandes “armas convencionais” ao serviço da saúde, mas as vacinas têm-se revelado, sem sombra de dúvida, as “armas de proteção massiva” mais eficazes contra a maior parte das doenças que o afligem e flagelam. 
Este coronavírus (COVID-19), tal como outros microrganismos de grande expressão epidémica, pôs em causa todas as certezas civilizacionais, fez estremecer todas as estruturas económicas e sociais, mas, indubitavelmente, despertou o Mundo para a prática dos bons hábitos de higiene e prevenção. Esta tomada de consciência, que nos parece ter-se tornado universal, enquanto não for lançada no mercado farmacêutico a respetiva Vacina profilática, constitui(rá), sem dúvida, a maior arma de proteção contra este vírus pandémico, altamente mórbido e mortal.
Para muitos, desanimados e pessimistas, a COVID-19 veio para ficar, com esta expressão contagiosa e virulenta. Mas enganem-se esses crentes. A História da Ciência Médica Contemporânea prova-nos que não há pestilências incontroláveis e invencíveis. As luzes salvíficas ao fundo do túnel, emitidas pelas curas e vacinas, vão surgindo cada vez mais céleres, como resposta às constantes agressões epidémicas e pandémicas, desencadeadas por microrganismos virulentos e impiedosos. E, como todos os “tiranos”, também este chegará, em breve, ao final do seu reinado.
É esta a Mensagem de Esperança que queremos deixar a todos os leitores.
Autor:
João Frada
Médico/Professor (Ph.D) Universitário (FML), Aposentado
(Especialista em Epidemiologia Histórica)

Nota - Seguir-se-á a publicação da Parte II-IV deste estudo

sábado, 1 de junho de 2019

DESABAFOS MUDOS

Tenho Saudades de desabafar, ainda que nada diga, ainda que ninguém me leia ou oiça. Ainda que a confusão de ideias, sentimentos e emoções sejam tantos que nenhuma espécie de catarse se concretize. Os desabafos são como as camisas. Em qualquer loja de roupa, correndo o risco, apesar de tudo, de se contrair sarna ou micoses fúngicas, ao longo do dia, não é raro contabilizar-se uma meia dúzia de clientes a experimentar uma mesma vestimenta. Sobretudo, quando o preço é convidativo, ou está em saldo. A uns, fica-lhe bem no comprimento, mas apertada nas mangas, a outros, bem no colarinho, mas demasiado justa nos ombros, a outros ainda, folgada no tronco, excelente nas mangas, todavia, demasiado estreita no pescoço. Há sempre algo que agrada e outro tanto que pode desagradar. Há, contudo, camisas, como desabafos, que não têm ponta por onde se lhe pegue, mesmo quando são de “marca e de bom corte”. Considerem os desabafos que se seguem como as ditas camisas e, aí, perceberão se vos transmitem, ou não, algum conforto, encorpando-os como vossos. Se nada vos transmitirem, em termos mensagísticos, considerem-nos apenas humildes ensaios pseudo-filosóficos ou meras dissertações sem conteúdo. Nada mais. As opções de cada um, medidas e devidamente acauteladas, quando se acautelam, com todas as consequências que elas representam, só cada um as entende…e o fardo que elas possam trazer ou acarretar só pesam mesmo nos ombros de quem as assume ou tem de assumir, por imposição, medo, obrigação ou conveniência, pragmática ou não…mas eternos flagelos, esses, só os suporta quem tem espírito de mártir ou resistência para tal. Não há suplício sem carrascos, e admitir eternas penas ou punições físicas ou psicológicas, ou ambas, por pecados cometidos ou supostas faltas ou factos nunca provados ou confessados, quando não mesmo impossíveis de provar, é alimentar sadismo e, nessa demonstração de fragilidade, sei lá se não um pouco masoquista, é também favorecer ou eternizar a violência e certificar que até as incertezas e improbabilidades podem vigorar e impor-se como certezas. O alívio que as palavras ternas, balsamizantes ou simples, como um simples olá, possam trazer, hoje, amanhã, daqui a meses ou a anos de distância…e o tempo, imparável, vai “rodando”…não nos parece que compense o sacrifício que a luta surda e silenciosa de eterna prisioneira do medo de gritar “Basta” exige, seja a quem for. Devemos lembrar aos outros, sobretudo àqueles que à nossa volta parecem viver surdos e cegos, que não podem esperar respeito e consideração, se não nos concederem igual tratamento…a não ser que não nos importemos de copiar a cruzada de Cristo, de oferecermos uma face a quem nos esbofeteou a outra. Não deveríamos nunca transformar o nosso silêncio num alforge de culpas que só nós sabemos carregar ou não na nossa consciência. Porque quem cala, consente e sofre, quantas vezes para além dos limites do razoável e tolerável. Nada se deve, nada se fica a dever,…quando, em consciência, não há noção de pecado, de traição, de atropelo a sentimentos, sobretudo, quando eles são sublimes. Não devemos ajoelhar, eternamente, perante ameaças ou sevícias que nos comprometem gravemente a nossa saúde física e psicológica, sem o mínimo de contestação firme e peremptória. É fundamental reencontrar algum equilíbrio, dentro de nós mesmos, repudiando, terminantemente, quaisquer pressões ou intimidações que nos anulem enquanto pessoas e seres emocionais. Não há palavras doces, nem afetos escritos ou ditos por ninguém que favoreçam ou preencham essa necessidade vital, esse equilíbrio, tão essencial ao nosso dia-a-dia. E, de resto, de uma forma ou de outra, ninguém é insubstituível. Não devemos alimentar, nem mesmo através de uma farsa diária, nem a nossas utopias nem as de ninguém. A vida real já é bastante complicada e cheia de sonhos por realizar... Há que não vergar perante chantagens cobardes e desumanas, porque ceder a tais aberrações e vícios, é assumir culpas e faltas, mesmo quando elas não existem ou se apagaram de vez na nossa memória, como atos passados ou nunca acontecidos. Acordar lembranças nostálgicas, sobretudo quando nos enternecem e nos conferem alguma força anímica, é positivo e salutar. É mesmo! … ainda que nos custe afirmá-lo, por receio, por insegurança, por opção ao silêncio. Na verdade, não deveríamos permitir que elas nos sejam roubadas ou se tornem pesadelos no nosso espírito. Recordemo-las o melhor que pudermos. Como corolário nada filosófico, para que todos entendam, em “língua pátria”, como só os lusos sabem dizer: Saudades! Sentimentos lixados! Roem-nos, a todos, por dentro, mas são elas que alimentam as nossas utopias, os nossos sonhos diários. "Calendas Semânticas 2000" João Frada

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Carlos Costa: Governador de Quê? Do Banco de Portugal?!

Comprou um monte no Alentejo sem saber que era de Vara... dá-se-lhe o benefício da dúvida... descuidado como é e tem sido enquanto governador do BdP... mas não participou "nem meteu prego nem estopa" em nenhuma das alegadas 25 reuniões que implicaram decisões e empréstimos ruinosos da CGD. Enquanto governador do BdP e, por inerência, vigilante e decisor máximo de operações financeiras tão avultadas como as que foram executadas, mal e porcamente, pela CGD, perguntamos o que é que Carlos Costa faz à frente de uma instituição como o BdP?! Se não é nem foi incompetente ou distraído, permitindo "arrombos" desta natureza num banco de Estado como a CGD, sem o mínimo de preocupação de controlo, só pode ser um Palerma, e, o mais grave de tudo, é que continua de "pedra e cal" sustentado por todos nós, portugueses, agarrado a uma teta bem farta que o alimenta todos os meses, mesmo sem cumprir as funções para que foi designado: Governador do BdP. É caso para dizer que apenas governa, e bem, a sua conta pessoal e os seus bens privados. Quanto a interesses públicos, não está, nem esteve, nem vai estar em nenhuma das reuniões que possam vir a prejudicar o Estado português. De resto, como ele próprio confessou há anos em Bruxelas, não se sente capaz de exercer as funções de Supervisor do BdP, sem uma comissão de experts em matérias económicas e financeiras que o coadjuve. Tem graça! Mas não desiste de governar o que ele próprio assumiu que não pode nem sabe governar, por incapacidade pessoal, não obstante ir buscar ao fim do mês os gordos proventos de uma missão que considera impossível de cumprir. Tem piada ou não tem?!

sábado, 28 de abril de 2018

OBAMA VEM AO PORTO…por 500 mil euros

https://eco.pt/2018/04/28/obama-vem-ao-porto-por-500-mil-euros/

Sem menosprezar o papel que Obama representou ou possa vir ainda a representar na vida política dos EUA e no resto do Mundo, que formação, poder de decisão e influência terá ele, atualmente, no campo da Climatologia e das Alterações Ambientais, para vir dar conferências a Portugal (ao Porto) sobre tais matérias, armado em "Al Gore" (este sim, um "expert" neste domínio), exigindo que lhe paguem meio milhão de euros?! Desde quando Obama é ou foi especializado em questões ambientais? Durante a sua presidência, os EUA deixaram, porventura, de contribuir, significativamente, para o impacto negativo sobre a atmosfera e o ambiente, reduzindo os seus níveis de poluição industrial??!... só para não citarmos outras formas de agressão ambiental. Apesar da sua postura, favorável ao Acordo de Paris de 2015, no qual os EUA e a China, os maiores produtores mundiais de gases com efeito estufa, se comprometeram a reduzir esse impacto ambiental tão negativo para o nosso Planeta, Obama, em termos práticos, na sua acção política, teve pouco sucesso no campo da redução dos tremendos índices de poluição gerados pela "grande indústria" norte-americana. Durante os últimos anos da sua administração, apesar da sua pressão e vontade política, patentes nas mais diversas instâncias internacionais, os maiores agressores ambientais pouco ou nada adiantaram ou se esforçaram, visando o controlo efectivo dos gases com efeito estufa. Por tudo isso, será que em tal Cimeira, a realizar no Porto, não virão a estar presentes outros especialistas bem mais e melhor preparados do que Obama e, seguramente, cobrando muito menos pela sua participação e contributo científico?! Bom, a sua presença valerá pela simbologia, já que Trump teima em não dar ouvidos a ninguém nesta área tão sensível. Paradoxos dos nossos tempos! Mas, cada um gasta o que quer. Se Câmara do Porto quer investir tal montante para ouvir o que já ouviu, está no seu direito.

João Frada
Calendas Semânticas 2000

domingo, 22 de abril de 2018

A Duplicação e o Desdobramento dos Subsídios de Viagens dos Deputados

O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, declarou hoje [17.04.2018] que os deputados das regiões autónomas "não infringiram nenhuma lei nem nenhum princípio ético, nem nesta nem em qualquer legislatura", relativamente às despesas de deslocação. 

(https://www.publico.pt/.../ferro-defende-que-deputados-das-ilhas-nao-infringiram-nenhu...)


Isto tem a ver com a duplicação de subsídios de viagens para os deputados eleitos pelas ilhas. Beneficiando do normal subsídio de Estado recebido por qualquer cidadão residente nas regiões autónomas, desde que apresentando um comprovativo dos CTT, e do respectivo subsídio ou compensação semanal de 500 euros (ainda que não efectuem qualquer viagem), concedido pelo Parlamento para o mesmo efeito, o deputado ilhéu acaba por ter direito a um montante que cobre o custo global da deslocação e lhe propicia ainda um considerável excedente, o qual, legalmente, não é obrigado a devolver às finanças públicas.
Eticamente, porém, o caso assume outra configuração. Pois se um deputado recebe do Parlamento mais do que o suficiente por semana para se deslocar ao local de residência (nos Açores ou na Madeira), fará sentido, sempre que viaja, vir também a reclamar o reembolso do custo do bilhete concedido pelo Estado, "benesse" indistintamente extensiva a todos os [outros] cidadãos residentes?!
Pelos vistos, os deputados que têm recorrido a esta dupla compensação são indivíduos de todos os partidos políticos: José Paulino de Ascenção (BE), Paulo Neves (PSD), Carlos Pereira (PS), João Azevedo Castro (PS), Luís Vilhena (PS), Lara Martinho (PS), Carlos César (PS) e outros.
O Parlamento, todavia, ao longo da nossa jovem democracia, tem sido fértil em situações deste tipo, em que a legalidade e a ilegalidade andam quase de mãos dadas e a ética é uma “nebulosa” difícil de descortinar.
Lembremos o caso das “viagens-fantasma”, “longa metragem” realizada, seguramente, durante mais de uma década, entre meados dos anos setenta (1975) e finais dos anos oitenta (1989), com projecção e estreia vergonhosa no Parlamento português nesta última data, da qual viria a ser António Coimbra, deputado do PSD, o principal protagonista, que ficaria conhecido pelo “Batman”! O dinheiro que lhe foi atribuído pelo Parlamento para pagar as três deslocações anuais ao estrangeiro, muitas delas nunca realizadas, serviu essencialmente para pagar viagens, refeições, telefonemas e alojamentos de familiares. Um jornalista da época, perplexo perante a comicidade da situação, chegou mesmo a afirmar que este deputado requisitou ao Parlamento o pagamento de tantas ou tão poucas deslocações, que bem poderia ter dado uma volta ao mundo, à conta do erário público. O inquérito levantado em 1989 a estas viagens, após a morosidade habitual determinada pelos sucessivos adiamentos, por ausência do arguido, entre 1991 e 1996, apenas viria a conheceu o seu desfecho final em 1996, data em que António Coimbra recebeu, finalmente, uma pena suspensa de três anos de prisão, por burla agravada. Porém, outros deputados e, entre eles, Luís Filipe Menezes, alegadamente, haviam cometido irregularidades do mesmo género, em relação a esta prática de requisições de viagens e de indevidos depósitos em conta-corrente nas agências de viagem onde habitualmente tratavam das suas deslocações. Todavia, como se tratava de um assunto demasiado delicado, envolvendo estas altas castas da nação, supostamente impolutas e indemnes a irregularidades desta e de outra natureza, o Tribunal de Contas nunca viria a denunciar à PGR estas mazelas, e apenas António Coimbra terá sentido na pele a vergonha de se ver confrontado com as suas artimanhas ilegais, na barra do tribunal.
No entanto, António Coimbra não foi o último deputado a encerrar a era das prevaricações no capítulo das viagens. “Em 12 de abril de 1986, noticiava o Expresso, em primeira página, que deputados, em deslocação ao México, tinham trocado bilhetes de avião em primeira classe por bilhetes de turística”.
Miguel de Albuquerque, actual Presidente do Governo Regional da Madeira, referindo-se ao mesmo caso, afirma-nos que “esta bronca rebentou e também respingou para deputados eleitos pela Madeira”.
Os ditos deputados arrecadariam, deste modo, a diferença ou, acumulavam-na numa conta-corrente destinada a pagamento de despesas pessoais e futuras viagens, suas, de amigos ou familiares. Reconhecida como uma prática corrente na Assembleia, apenas em alguns casos, a referida diferença era e foi devolvida ao Parlamento.
Estas questões de alegadas faltas de ética e de “ajustes” favoráveis da lei, no Parlamento, não acabam por aqui. Em 1997, o Tribunal de Contas, após auditoria às contas da Assembleia da República de 1994, constata que 23 deputados haviam gasto verbas indevidamente, utilizando de novo o mesmo processo de “desdobramento de viagens”, sem devolverem a respectiva diferença ao Parlamento. Almeida Santos, nessa altura, presidindo à Assembleia da República, viria à comunicação social, em particular, à televisão, afirmar que a situação era melindrosa, mas que iria ser corrigida, apaziguando, de certo modo, a opinião pública, estupefacta com a recorrência ou reincidência destas manigâncias parlamentares. Ninguém viria a ser punido, pois esta prática, na verdade, era larga e vulgarmente seguida entre os deputados de todos os partidos. A partir daqui, viria a ser regulada a reposição da diferença entre os custos de viagens, sempre que o passageiro optasse por um lugar mais económico. Atente-se que, nessa altura, duas viagens em turística ficavam quase sempre mais baratas do que uma só em primeira classe.
Do igual modo, perante as recentes notícias vindas a lume, é o próprio Ferro Rodrigues, que, embora convicto de não ter havido qualquer infracção a leis ou princípios éticos em matéria de despesas de deslocação, vem a sugerir à Comissão para a Transparência e à Comissão de Assuntos Constitucionais a análise e possibilidade de alteração das regras de apoio a viagens dos deputados. Aguardemos, então, pelo fim desta polémica!
Não obstante acreditarmos que alguma coisa possa vir a ser corrigida futuramente no domínio normativo, extensivo a subsídios de viagens dos parlamentares, perante os dados históricos, recentes e passados, assiste-nos o direito de formular algumas dúvidas:
- Ou Eduardo Ferro Rodrigues estará mesmo convicto do que diz, que “os deputados das regiões autónomas não infringiram nenhuma lei nem nenhum princípio ético, nem nesta nem em qualquer legislatura”, relativamente às despesas de deslocação, …porque as alegadas faltas de ética, a existirem, reportam-se a outro grupo de deputados e já fazem parte do “arquivo morto”…afinal de contas, ocorreram no século passado…ou, então, ao contrário de Miguel de Albuquerque, Ferro Rodrigues se não pretendeu passar uma esponja sobre os erros do passado, “noutras legislaturas”, revela alguma amnésia em relação aos factos apurados pelo TC, supracitados. Não sabemos o que pensar. Mas, a amnésia selectiva, por vezes, dá jeito, sobretudo em política.
- Como última hipótese, custando-nos muito a encarar essa possibilidade, porque é um homem inteligente e ponderado, Ferro Rodrigues achará, porventura, como tantos outros políticos, que “o povo é burro e tem memória curta”?
João Frada
Professor Universitário (Ph.D.)
Calendas Semânticas 2000