sábado, 30 de maio de 2015

LIVRO BRANCO

Livro branco

Se a total ausência de palavras em que encontro algum alívio e paz de espírito, nesta peregrinação calada, pudesse ser gravada nas páginas de um livro branco, só tu, meu amor, irias saber ler esse silêncio e entender o que me vai na alma.

Calendas Poéticas 2000

João Frada   

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O SILÊNCIO

O Silêncio

«O silêncio não é a ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra.»
Mia Couto

Réplica:

O silêncio pode não significar nem “a ausência de fala”, nem o não querer falar, mas o não saber como falar ou o que dizer, quando não existem palavras para expressar o que vai dentro de nós, no íntimo das nossas ideias e das nossas emoções...e há tantas que não se conseguem traduzir com nenhumas palavras, tão simplesmente, porque elas não existem...ainda não foram inventadas. 

João Frada

quinta-feira, 21 de maio de 2015

AS CERTEZAS E DÚVIDAS CRUÉIS DO PR

As Certezas e Dúvidas Cruéis do PR  

     “Errare humanum est” (Santo Agostinho)

     “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas.”
     (http://pt.wikiquote.org/wiki/An%C3%ADbal_Cavaco_Silva)
   
     Será que não?!
     Duvidava, e vá lá saber-se se não sofre ainda dessa cruel dúvida, da sua capacidade de sobreviver à crise e à austeridade, dispondo apenas de uma miserável receita mensal de 10 a 12 mil euros, independentemente das gordas verbas disponíveis para gastos em despesas de representação e outras mordomias a que Sua Excelência, justamente, tem direito…
     Duvidou, e sabe-se lá se tinha ou não razão, quando pressentiu que lhe teriam instalado escutas no gabinete e, eventualmente, noutros cantos da sua residência…
     Duvidou, até há bem pouco tempo, de que a agricultura, o mar e as pescas poderiam vir a ser áreas estratégicas e verdadeiros motores do emprego e da economia, se explorados com inteligência e racionalidade…medidas fundamentais ao reequilíbrio financeiro do país…e, finalmente, depois de se ter empenhado em aniquilar e destruir estes sectores, cumprindo como bom aluno o que Bruxelas lhe determinava, defende e exalta agora, exactamente, o contrário, pelos vistos duvidando novamente das suas canónicas certezas de outrora…  
     Duvidou ou alguém, atempadamente, lhe fez duvidar de que, se não vendesse as “ações” do BPN na hora certa e a bom preço, ia perder a grande oportunidade financeira de arrecadar uns bons milhares…como aconteceu a outros crentes…
     Arguto e competente na área da economia e das finanças, nunca se enganando e raramente tendo dúvidas, manteve encontros com Ricardo Salgado, durante os quais, seguramente, se terá apercebido de que algo não corria bem no BES e, quando esta instituição se encontrava já em colapso total, confiante nas suas imaculadas certezas, veio à liça impingir ou defender o impensável, diremos mesmo o “impinjável”!
     Aparentemente, sem o mínimo de dúvidas em relação à saúde bancária desta instituição, conforme foi bem noticiado pela comunicação social, “Cerca de duas semanas antes do anúncio da entrada do Estado no banco, (…) [Cavaco Silva] frisou que os portugueses podiam confiar no BES”, levando muitos depositantes e accionistas a crerem nas suas axiomáticas certezas e a não tomarem, atempadamente, as devidas providências, perdendo poupanças de uma vida inteira.(http://www.esquerda.net/artigo/bes-cavaco-silva-sabia-mais-do-que-os-cidadaos-em-geral/34015)
             
     Cavaco Silva encontrava-se de visita à Coreia do Sul, quando declarou, sem qualquer hesitação, que “Os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”, e fê-lo, porque o Banco de Portugal, sob a administração de Carlos Costa, governador desta instituição, também este, visivelmente, algo desatento ao que se passava sob a sua alçada e supervisão, como se viu, lhe tinha garantido que o BES irradiava uma saúde financeira de ferro. 
     “Portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo…-TSF”        (www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=4038266)

     Posteriormente, algo amnésico em relação ao que havia dito, quando interpelado sobre a situação do BES, afirmaria peremptoriamente que jamais se tinha referido a esta instituição bancária, durante a sua visita àquele país asiático. O seu lema proverbial, “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, falhou novamente.

  Duvidou, uma vez mais, daquilo que todo o país tem conhecimento. Em casa, na rua, nos cafés, nos transportes, em todos os meios de comunicação social, não há ninguém que não saiba que a grande maioria dos jovens portugueses, académica e profissionalmente qualificados, depois de concluir os seus cursos e formações, desacreditada da política e descrente dos políticos, tem como único objectivo a emigração. Sem esperança de empregabilidade e, muito menos, de uma justa remuneração pelo seu trabalho que lhes permita ter em Portugal uma vida digna e sem grandes sobressaltos, embora sentindo a mágoa e a revolta pela bastardia forçada a que se sentem devotados no seu país, milhares de jovens qualificados procuram e continuarão a procurar no estrangeiro o seu futuro.
      Não fora o estudo “Transforma Talento Portugal”, realizado pela COTEC e pela Fundação Gulbenkian, apontando para a insuficiente valorização do talento em Portugal ” e os portugueses, incluindo o PR, o homem que “nunca se engana e raramente tem dúvidas”, jamais “desconfiariam” que 70% dos jovens, […senão mais, dizemos nós…], entre os 20 e 24 anos, não só se estão “borrifando” para os rumos da política e, sobretudo, para os políticos, que consideram, na sua maioria, corruptos e incompetentes, como veem, efectivamente, na emigração o grande objectivo das suas vidas, a única solução para organizarem carreiras profissionais e poderem constituir família.
   Com o descalabro a que o país chegou, em termos de desemprego, salários e remunerações miseráveis, salvaguardando, naturalmente, as imprescindíveis e insubstituíveis classes privilegiadas da governação e da administração pública, onde os empregos abundam… e quando não existem criam-se (boy jobs)… e os respectivos vencimentos são chorudos, apetitosos e, devidamente, acompanhados de subvenções e mordomias, e ainda há quem só acredite e se pronuncie sobre este drama pátrio ― “a fuga de talentos” e de braços ― apenas depois de se ter concluído um estudo especificamente centrado neste problema, estudo este, por sinal, prefaciado por Sua Excelência, o Senhor Presidente da República!
    Santo Deus! Que dúvida cruel, esta, que apenas se desfez perante os resultados estatísticos de um estudo tão brilhante e oportuno! Há que reconhecer que, não se tratando da descoberta da pólvora, foi efectivamente um feito “Nobel”, um trabalho notável de “inteligência colectiva” levado a cabo por cerca de 48 personalidades, todas elas, aparentemente conhecedoras da realidade mas, só agora, conscientes em definitivo da dura realidade: “fuga de talentos” e, com eles, queda demográfica, quebra de rendimentos, definhamento da Segurança Social e empobrecimento global do país.                  
     Mas o PR, que nunca se engana e raramente tem dúvidas, finalmente, elucidado pela claridade da estatística, adianta a “chave do busílis”:
     “Temos, isso sim, de criar condições de atração para todos, para os que desejam ficar e para os que, estando no estrangeiro, aspiram a regressar ou a vir viver para Portugal", afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.”
    
     Temos?! Quem? O Governo, na pessoa do PM? A Presidência da República, na figura do atual PR, ou do próximo? O povo? A Troika que, só a sua conta, destruiu 471 000 empregos entre 2010 e 2015 ?!
     emprego.pdf) 
   
     Temos, quando?! Quando todos tiverem emigrado? Ou o projecto do “temos” visa não esta, mas a próxima geração, daqui a dez ou vinte anos?!

     “Temos”, é mais uma das suas certezas indubitáveis, ou continua a ser uma das suas raras dúvidas cruéis?! Será que alguma delas lhe tira o sono, lhe causa infelicidade ou preocupação, solidário como diz ser com a população e com a situação que o país atravessa, devassado por tantas e tão graves mazelas políticas, económicas e sociais? 
(http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=376956)

Calendas Semânticas 2000
João Frada
Professor Universitário (Ph.D.)


terça-feira, 5 de maio de 2015

TODA A GENTE É BIPOLAR



Site: https://www.google.pt/search?q=imagens+gratis+de+bipolaridade&espv=2&biw=1280&bih=699&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=AalIVY_GEMjSUZ-4gNAN&sqi=2&ved=0CCkQsAQ#imgrc=iISer4YFhqwXgM%253A%3BpG2of83ntKF0VM%3Bhttp%253A%252F%252Fhome.earthlink.net%252F~loveguru%252FBipolar.gif%3Bhttp%253A%252F%252Ftomscadufna33.soup.io%252F%3B250%3B250


Toda a Gente é Bipolar

Toda a gente é bipolar
E sente a voz desse drama
─ Dois sentimentos a par ─
Hoje odeia, amanhã ama.

Entre estes pólos distantes
Há quem julgue estar a salvo
Mas roda o mundo, em instantes,
E qualquer um é um alvo

Num momento de loucura
De uma maré tão bizarra
Ora espraiando doçura
Ora ardente raiva perra.

Toda a gente é bipolar
No que toca a sentimento
O que é hoje de encantar
Amanhã é odiento.

Quem diz amar a ternura
E ao ódio quer agradar
Ou é um louco sem cura
Ou um estranho bipolar.

Caído em loucos desejos
E sombras de Grey ousadas
Há quem deseje que os beijos
Alternem com bofetadas.

Será mesmo masoquista
Este desejo invulgar
Ou é uma forma intimista
De se ser um bipolar?

Toda a gente é bipolar
É fruto de ocasião
Uns ficam por revelar
Outros mostram a afecção.

Destes versos singulares
Conclui-se algo provável
Uns são mesmo bipolares
Outros têm humor instável.  


Calendas Poéticas 2000

domingo, 3 de maio de 2015

TU

Tu, para mim, meu amor, és noite, és dia,
minha lua, meu sol e minha deusa
sagrada e frágil, vestida ou nua,
meu pássaro de fogo, meu alento,  
minha rosa aberta, flor de cheiro
que me seduz e suspende o pensamento,
minha tarde de sonho, minha aurora,
minha ilusão real a tempo inteiro.

Calendas Poéticas 2000





sábado, 25 de abril de 2015

O 25 de ABRIL de 1974: O QUE RESTA PARA COMEMORAR

O 25 de Abril de 1974: o que resta para comemorar

Site:https://www.google.pt/search?q=Cravos+vermelhos++fotos+gratis&newwindow=1&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=Csg7VcHUNcTV7ga71oGYBw&ved=0CC4Q7Ak&biw=1280&bih=705

Participei na guerra colonial, como muitos, educado e mentalizado nos valores que à minha volta modelaram princípios, crenças e convicções: os de servir a Pátria e a família.

Envolto no obscurantismo filosófico-político do tempo, que mantinha dentro de portas tanta gente na ignorância, no conformismo ou no analfabetismo, completamente alheada e, ao mesmo tempo, incapaz de acompanhar a evolução e a transformação mental, social e política fora de portas, também eu acreditava que o rumo do país passava por mim, pela minha solidariedade patriótica, pelo meu sacrifício, ainda que isso me custasse os olhos da cara. E custou. Entre abril de 71 e dezembro de 74, estacionei em Angola, convicto como tantos outros que Angola era Portugal. Tive sorte. A experiência não foi traumática, com a de outros jovens da minha geração. Solidário com o meu país, errado ou certo, não ponderei outra atitude que não fosse esta: servir a Grei, sem pestanejar.

Ao contrário de muitos democratas dos nossos dias, eu e outros da minha geração, servimos de carne pra canhão, fomos o isco que alimentou uma guerra, a qual iria servir de leitmotiv de uma revolução, a do 25 de Abril de 1974. Em boa hora, sob muitos aspectos, foi bem-vinda a revolução dos cravos. Findou a guerra colonial, onde muitos pereceram e de onde outros tantos vieram estropiados mental e fisicamente. E o povo Angolano, ainda que na sua maioria viva na miséria, com um ou dois dólares por dia, “entre o lixo e o luxo”, governado por uma minoria cleptoplutocrática, gozando de fausto e de fartura, finalmente, conseguiria a Independência. Resta saber, ainda hoje, de quem ou de quê.

À sombra da nossa Revolução e, sobretudo, dos cravos que a adornaram, cresceram tantas, mas tantas, ervas daninhas que, chegado ao dia de hoje, me interrogo se era este, se foi este o objectivo da mudança: mudar de um regime violento contra ideias e princípios, para outro virulento contra pessoas e bens. A democracia nasceu neste país, não há dúvida, e a escrita e a palavra conseguiram chegar, enquanto formas de protesto, crítica e alerta, onde nunca tinham chegado antes, porque a censura aberta foi banida. A encapotada, essa, continua e não dá mostras de afrouxar. Escutas sofisticadas e pressões de lobbies (políticos, financeiros ou de outra natureza) dirigidas por quem toma as rédeas do poder democrático nas mãos, constituem a negação do 25 de Abril de 74. Até um Presidente da República, não descartou a possibilidade dessa forma de censura.

Excluindo alguns das gerações mais novas, hoje Ministros e Secretários de Estado, muitos dos que têm passado pelas altas hierarquias da governação, identificados por uma diversidade ideológico-política notável, ou foram figuras, plácida e convenientemente, colocadas e vivendo à sombra do antigo regime, ou indivíduos que se opuseram à filosofia ditatorial do Estado Novo, repudiando tudo quanto colidisse com os princípios fundamentais da democracia: igualdade, fraternidade e justiça. Porém, uma vez instalados no poder, ao longo de quatro décadas de democracia, que deveria ser em prol de uma sociedade mais feliz, com maior acesso à cultura, à riqueza e ao bem-estar, aproveitando todo o potencial do país, sobretudo, o humano, delapidaram e continuam a delapidar tudo quanto havia, herança do velho regime, em privatizações, negócios SWAPS e PPP, aplicações erradas, fraudulentas e corruptas da banca, e, finalmente, expulsaram, através do desemprego e da emigração subsequentes, o que de melhor existia cá dentro:  300 a 400 mil jovens, qualificados e em idade ativa e fértil.

Que diferenças nos trouxeram, então, estes novos governantes, do pós-25 de abril de 74, com a sua inteligente gestão, dita democrática representativa? Mais igualdade, fraternidade, justiça?! Menos fome, mais emprego, melhor remuneração do trabalho, mais oportunidades, mais transparência, mais equilíbrio na distribuição de riqueza, maior justiça social?! Onde?! Quando?! Pra quem?!    

Ainda tenho algum fôlego, contudo, para dar Vivas ao 25 de abril de 74. Em relação aos que se seguiram e aos que antevejo, vou-me sentindo cada dia mais desiludido e reticente.

João Frada
Professor Universitário
Calendas Semânticas 2000            

terça-feira, 21 de abril de 2015

CONVERSA DE DOIS BURROS FALANTES, UM DELES MEIO SURDO - "O Povo É Quem Mais Orden(h)a?!"

CONVERSA DE DOIS BURROS FALANTES, UM DELES MEIO SURDO, sobre o tema:

“O povo é quem mais orden(h)a”?!

 Site: http://pixabay.com/static/uploads/photo/2013/04/19/04/23/donkeys-105718_640.jpg

Há poucos dias, algures, nas imediações de uma vila do Norte, aí pelo pino do meio-dia, dois burros, amarrados a uma cancela de uma passagem de nível, aguardando pacientemente pelos seus donos, enquanto estes, de barriga encostada ao balcão numa tasca ali perto, escorropichavam uns brancos pra matar a sede, depois de zurrarem uns bons minutos, cumprimentando-se um ao outro, acabaram também por iniciar um curioso diálogo. Em boa hora, um cidadão, que por ali passava, teve o ensejo de gravar esta conversa de burros, na íntegra, no seu telemóvel. Postada na Internet, a reportagem bizarra e original realizada por este amador depressa se tornaria viral.

Um dos burros, com ar de mais novo, empertigado e de orelhas bem levantadas, tece este comentário:

─ Olha lá, não estás cansado de ouvir por aí uma cantilena curiosa, que se entoa em todo o lado, nas ruas, na rádio, na televisão: “o povo é quem mais ordena”?!

̶  Tens razão, é um refrão bem conhecido e ouve-se todos os anos muita gente, por esta altura, a afirmar o mesmo.

─ Pois é, o problema é que não percebo quem é que ordena, se é que tenho ouvido bem a palavra. Tenho dúvidas, se é “ordena” ou “ordenha”.

̶  Bem, na verdade, também não te posso confirmar. De resto, há muita gente disléxica e, no meu caso, surda. Pode não ser “ordena” mas “ordenha”. E sabes porquê?

̶   Não. Mas diz-me lá o que pensas.

̶  Simples. Ordenar, não me parece que o povo ordene coisa nenhuma, porque se bem te lembras, nas últimas eleições, e foi coisa que segui atentamente na cavalariça da estalagem onde passei a noite da contagem dos votos, pude constatar que metade do povo nem sequer votou. Por isso, se não vota, não manda, não pode ordenar nada.

̶  Espera aí. Para além de estares bem informado, como vejo, tens acesso a televisão nos teus alojamentos?

̶  Claro. Como já deves ter reparado, sou um burro de nova geração, não carrego sacos de carvão como muitos burros que para aí andam, faço turismo rural e monta-me apenas gente de “pedigree”, tirando o meu dono, claro, o Senhor Cientista, que é ex-bancário na reforma e, para ganhar mais uns cobres, dedicou-se a fazer serviços em estalagens e casas de turismo rural aqui por estes lados. Esse, monta-me quando lhe apetece.

̶   Mas, então o teu dono, é cientista de quê?

̶  Bem, que eu saiba, não domina ciência nenhuma, a não ser de gestão, tal como o pai, que também era conhecido como Cientista. Possuía uma tasca lá para o Sul e o prato típico que era servido aos clientes consistia em cabeças de borrego no forno. Não tinha qualquer outra oferta gastronómica, a não ser queijo e azeitonas, mas fez uma fortuna. Comprava cabeças de borrego, a preço da uva mijona, e vendia-as assadinhas, a bom preço.

̶   Ainda assim,  ̶  insistia o burro mais velho  ̶  não entendo como é que o homem havia de ser batizado de Cientista. O que eu acho é que esta alcunha resultará de outra razão qualquer, eventualmente, de algum familiar que foi mesmo cientista.

̶   Não, não. O senhor Cientista foi alcunhado de cientista, por ser especialista em “crânios” assados de borrego, que atraíam freguesia até da capital, tal era a categoria dos assados, miolos e bochechas. Ora, daí a ser alcunhado de Cientista, foi um pulo.

̶   Já percebi. Um cientista gastronómico.

̶   Nem mais. E é essa a razão, pela qual somos sempre tratados com toda a cortesia, onde nos solicitam presença e serviços de turismo, passeios pedagógicos, durante os quais o meu patrão, o Senhor Cientista, dá autênticas palestras sobre usos, costumes, ecologia, ambiente, gastronomia e culinária local, aos turistas que eu e os meus colegas carregamos no lombo.

̶   Tu e os teus colegas?! Quais? Há mais gente a trabalhar nesse ramo?

̶   Claro. Somos doze burros, ao todo. A “Associação de Proteção dos Direitos dos Burros”, da qual sou filiado, uma espécie de Sindicato profissional, vela pelos nossos direitos e conseguiu um acordo de horário de trabalho razoável com o Senhor Cientista. Para folgarmos as costas e nos recompormos do desgaste a que nos sujeitamos, metade da equipa descansa, enquanto a outra trabalha. Já lá vai o tempo de termos de trabalhar 24 horas seguidas.

̶   Estou espantado, com tudo o que me contas. Eu, nem fazia ideia que havia Sindicato de burros. O meu patrão, é um bronco que só me vê como burro de carga e me trata abaixo de cão. Estou velho e surdo e já não tenho fôlego para lhe fazer frente. Vou amochando as orelhas e cumprindo o meu trabalho, mas, acredita, como tantos que para aí andam, não sou um burro feliz  ̶  termina, com ar profundamente descoroçoado, o burro mais velho.

     Durante alguns minutos, ficaram ambos calados, olhando um para o outro.    

̶   Agora, vou entendendo porque é que o teu patrão dorme a teu lado, quando te aluga e acompanha nesses passeios rurais. E porque é que têm acesso a boa cama, a boa mesa e a ver TV.

̶   Bem, não tem a ver apenas com a consciência profissional do meu patrão. Nos tempos que vão correndo, ou nos tratam bem ou sujeitam-se a ver-nos partir, definitivamente, para qualquer outro local onde nos consideram como gente. Tens lá a noção, porque é que o número de burros chegou onde chegou? Estamos em vias de extinção, ou não tinhas dado por isso?

̶ Então, não?! Montavam-nos de todas as maneiras, albardavam-nos sem o mínimo de respeito, sobrecarregando-nos como se fossemos “cavalos a abater”. Resultado: houve uma emigração em massa e por cá só ficaram meia dúzia de burros. Aqui tens a explicação.

̶   Eu considero-me sortudo, porque tenho uma profissão e vou sobrevivendo com o que me pagam. De resto, sou um burro instruído, não sou um jumento qualquer. Ah, e nunca tive tantos admiradores como agora. Por outro lado, sinto-me razoavelmente seguro, já que a “Associação de Proteção dos Direitos dos Burros”, fundada por uma série de veneráveis, gente de alta estirpe asinina, vela pelos nossos interesses e bem-estar.

̶  Bem, já percebi porque é que tens tido direito a tantas mordomias. O teu patrão é um homem com nível e, apesar de não ser um verdadeiro cientista, recebe alojamentos adequados ao seu estatuto.

̶  Pareces então admirado pela forma como o meu patrão não me discrimina e até partilha o mesmo teto comigo. Deixa-me perguntar-te uma coisa:  ̶  Nunca ouviste falar de gente que vive paredes meias com cabras, vacas e bois, burros, mulas, cavalos e éguas, aqui por estas bandas? Melhor dizendo, no rés-do-chão ou sub-loja, vive a bicharada toda; no andar imediatamente acima ou loja, vivem os patrões com direito a ar quente condicionado, durante o Inverno.  

 ­̶  Já ouvi, e não só. Eu próprio, durante uma noite de invernia, fiquei alojado num desses palheiros. E, ao contrário de ti, sem direito a TV. Apenas nos divertimos, ouvindo os traques uns dos outros. As cabras, então, são fedorentas. Julguei morrer sufocado, dessa vez.

     Os dois burros estavam nesta lengalenga e, a seu lado, passava um bando de indivíduos, de cartazes na mão, entoando meio desafinados: “O povo é quem mais ordenaaaa”!

̶   Ora aqui temos o mote da conversa. Deixa-me lá ouvir o que eles dizem, porque ler aquelas parangonas esborratadas a esta distância, com a minha miopia, já não é pra mim.

̶   É, claramente, “ordena”, asseguro-te   ̶  diz o mais novo.  ̶  E acrescenta: 

̶  Voltando à vaca fria, o povo não ordena, mas é ordenado e cumpre tudo, integralmente, tudo quanto lhe mandam. Por isso, não me parece que tenhamos ouvido bem.

̶   Talvez não seja “ordena”, mas “ordenha” ̶  remata o burro velho.  ̶   Às tantas estamos mesmo a ouvir mal. Fazia mais sentido que fosse “ordenha”. O povo, o que vota e o que não vota, quer queira quer não, é quem mais “ordenha”.

̶   Realmente, quem está no terreno, quem vive no mundo rural, onde há vacas, cabras e ovelhas pra ordenhar, é o povo. Não quem governa. Esses mamam, directamente, de outras tetas bem mais fartas, preocupam-se com outras ordenhas.

̶   Bem visto. É uma verdade tão à vista que não precisa de ser enfatizada, muito menos, cantando ou protestando, como esses de há pouco, já para não falar que a mesma cantilena tem constante direito de antena na rádio e na televisão. Pra quê, bater tanto nesta tecla. Não vai mudar nada. Ainda se se tratasse de ordenha, perceberia, agora ordena!

̶  Se a intenção de quem escreveu o cartaz não era “ordenha”, mas “ordena”, e foi o que li  ̶ diz o burro mais novo  ̶ , então o povo ordena o quê, a quem, quando, quanto, de que forma?

̶   Tens razão. Na verdade, não faz sentido.

̶   Pois não. É que o povo, do jeito que ordena, é mais burro do que nós. Delega o seu poder político em gente que não tem o mínimo de credibilidade para governar o que quer que seja. A não ser as suas carteiras. Aí, esmeram-se.       

̶   Por esse prisma, não há dúvida. Se se trata mesmo de “ordena”, então o povo é um desastre a ordenar   ̶  remata o burro mais velho.    

̶  Pensando bem, “ordena” ou “ordenha”, no fundo, vai dar ao mesmo: o povo é quem mais ordenha e quem menos ordena. E ponto final   ̶ conclui o mais novo.

    Zurrando de gozo, deste trocadilho, acabam por rir até às lágrimas.    

     O burro velho, remoendo ainda sobre as considerações do seu colega, lembra-se também de uma curiosa notícia que ouvira ao seu patrão, quando este conversava com a sua filha mais nova, a propósito do horário especial de aleitamento que esta solicitara na empresa onde trabalhava, procurando continuar a amamentar o filho, já com um ano de idade.

̶   Pode não significar nada, mas ouvi a filha do meu patrão frisar, e bem, que vai ter direito a um horário especial de trabalho, mais reduzido, para continuar a amamentar o miúdo, pelo menos, até aos dois anos, como aconselha a OMS. O director da empresa é que parece que não está pelos ajustes e exige que o médico pediatra ou uma Junta de clínicos confirme se ela continua ou não a produzir leite, ou se trata de uma trapaça.

̶   Há que ter em conta essa possibilidade. A manha das pessoas, por vezes, deixa-nos realmente boquiabertos. A nós, se fingimos cansaço ou recusamos uma albarda, estamos lixados. E há muitos que se não livram do chicote  ̶  comenta o mais novo.  ̶  Mas, já agora, explica-me lá essa coisa do aleitamento e da relação com o nosso tema da “ordenha” e da política. 

     O burro velho, temporariamente ocupado em enxotar algumas moscas impertinentes que lhe não largavam as orelhas, depois de umas fortes abanadelas de rabo, continuaria a conversa:  

̶   Pretendo apenas confirmar que talvez não seja tão irreal “ordenhar” humanos por decisão governamental, mulheres lactantes, neste caso. De resto, se o Governo já tosquia, e bem, os milhões de carneiros que por aí andam, porque é que não há de também ordenhá-los?!

     A ironia desta análise acabaria por gerar em ambos um ataque de riso e gargalhadas, durante largos minutos. Mais recomposto, o burro velho retoma o tema:              

̶   Para evitar e controlar situações fraudulentas, segundo o que ouvi, em número significativo e com algum impacto em termos de “baixas” e consequente penalização das empresas e da Segurança Social, o Governo não vai ordenhar ninguém, mas pede aos médicos que vigiem e confirmem se as lactantes, obrigadas a auto-ordenharem-se de três em três meses à sua frente, devem ou não continuar a gozar das respectivas regalias que esta condição lhes confere.

     A conversa iria ser abruptamente interrompida pelos seus donos que se haviam, entretanto, aproximado e discutiam a qualidade e o preço do vinho acabado de beber na tasca ali ao lado.  

     Zurraram bem alto, numa despedida calorosa, e ainda tiveram tempo de lembrar um ao outro que aquele “slogan” já escutado por diversas vezes, sempre no meio de protestos, de palavras de ordem e de uma constante chinfrineira, tanto podia ser “ordena” como “ordenha”. O repórter amador afastara-se, entretanto, mas iria deixar para a posteridade um diálogo de burros que de burros não tinham nada.     

João Frada

Professor Universitário (Ph.D.)

Crónicas Semânticas 2000