quinta-feira, 28 de agosto de 2014

2015 – Um Novo Paradigma na Vida Política e na Governação

Austeridade, sacrifícios, solidariedade, paciência, porque, não tarda, dizem os nossos governantes, a começar pelo Primeiro Ministro e a acabar em todos os papagaios que afinam pelo seu tom, baritonado ou não, e seguem fielmente a sua demagógica linha retórica e dialética, tudo vai voltar à normalidade. 
Os deputados da maioria, como seria de esperar, neste “cante” dirigido por dois maestros, todos encostadinhos uns aos outros…e não serão todos alentejanos…nem podiam ser, já que há pantomineiros a mais neste rancho… afinam pelo mesmo diapasão. O país, apregoam todos eles, está no bom caminho, quase tão bem delineado e ainda melhor construído como a A26, estrada que ligaria, mas não liga, Sines a Beja, rumando a Rosal de la Frontera (Espanha). 
A mudança de paradigma aí está: a reposição gradual dos atuais cortes nos salários da função pública é uma realidade imparável a partir de 2015 e a correção total durará cinco anos, garante o Governo. 
Até agora, porém, o défice continua a aumentar, os orçamentos retificativos sucedem-se e nem o PM nem os incompetentes que vão regendo democraticamente os nossos desígnios ponderam em participar neste tremendo esforço que impõem à grande maioria dos portugueses, ou seja, a cerca de 85% da população, senão mais. 
Estarão mesmo decididos a alguma espécie de sacrifício que desconhecemos?! Ou estão confiados que se descubra petróleo ou ouro ou acreditam que serão as exportações a chave para reduzir o défice e a dívida pública do país, entre 2014 e 2015 ?  
Os milhares de milhões que se têm desbaratado em aplicações ruinosas, e são tantas que nem nos atrevemos a elencá-las, bem como em favores a amigos, compadres, afilhados e companheiros mais diletos da mesma seita ou do mesmo clube clânico-partidário, e os despautérios a que todos fecham os olhos, porque jogam todos nos mesmos clubes e irmandades (de golfe, de futebol, de degustação, etc), têm sido os maiores flagelos das finanças públicas. A Banca é só um desses exemplos. Medite-se quantos políticos, deputados, ex-deputados, ex-governantes estão ou estiveram ligados a este setor, onde se movimentam e oferecem lucros fantásticos! 
As ações do BPN falam por si. 
Dez mil milhões tiveram que ser reentregues pelo BES em poucos dias ao Banco Europeu! Esta fração de dez mil milhões foi apenas uma pequena verba dos milhares de milhões autorizados pelo Banco de Portugal ao BES para as suas aplicações, obtidos a juros baixíssimos, podemos dizer “a preço da uva mijona”, os quais, como se viu, serviam para tudo, menos para dinamizar a economia e a sociedade portuguesas.
Nestes últimos anos, as classes média-alta, média e média-baixa, cada vez mais sufocadas pela crise e pela austeridade empobreceram espantosamente e, pelos vistos, este flagelo, é para continuar. Aumentos de salários?! O dinheiro falta, os salários baixam, sobem ligeiramente, para corar a pílula, e voltam a baixar, o IVA aumentou e continuará a subir, a poupança, perante o roubo descarado a reformados e pensionistas, não representa grandes reservas monetárias, porque o custo de vida, perante um poder de compra cada vez mais limitado, consome tudo o que sobra ao fim do mês, depois de garantidas as necessidades básicas de alimentação e alojamento, o comércio vende pouco, porque os consumidores se retraem necessariamente, perante tanta austeridade, o setor industrial nacional (assente na micro, pequena e média empresa), sem adquirentes, não produz e entra em falência, a oferta de emprego diminui, o desemprego aumenta, o retorno tributário proveniente do IVA e do IRC afunda, os descontos para a Segurança Social diminuem e, sem contribuições, este setor, também sobrecarregado com tantos programas de apoio, ameaça colapsar. Bela perspetiva de mudança de paradigma! 
A classe política e os governantes, em particular, altamente solidários com o país e com todos os portugueses em dificuldades, como dizem que são, e há milhões de eleitores politicamente burros que acreditam nesta falácia, nesta narrativa, parafraseando o nosso filósofo Socrático, reduziram ou vão reduzir o quê, vencimentos, número de assessores e adjuntos? Cortaram os tetos nos cartões de crédito, nas subvenções para viagens, alimentação e despesas de representação…sabe-se lá de quê? Reduziram a frota automóvel e os motoristas? Cortaram nos gastos absurdos com pareceres, projetos, consultorias e despesas telefónicas? Pouparam onde? 
Por que é que a redução da despesa pública tem sido, fundamentalmente, à custa de cortes incidindo sempre sobre os mesmos cidadãos (funcionários públicos e pensionistas com normais carreiras contributivas) e não tem procurado atingir o grosso da coluna da despesa do Estado, que corresponde a cerca de 70% desse esforço? Os consumos intermédios, a subvenções, subsidiações e isenções concedidas aos mais diversos agentes públicos e privados, SWAP, PPP, empresas, associações, observatórios e fundações, uns, escandalosos, sugando e esmifrando os poucos recursos do Estado, através de rendas altíssimas, outros, com pouca ou nenhuma utilidade pública, deveriam ser o alvo principal dessa estratégia governamental. Aqui, sim, o Governo teria muita “gordura” para cortar.
O défice e a dívida, entre 2009 e 2014, não têm diminuído. Pelo contrário. Só a nacionalização do BPN, em 2008, terá custado 3 405 milhões de euros ao Estado, ou seja, a todos nós, sobretudo, àqueles que não têm almofadas, nem subvenções, nem compensações de espécie alguma. A partir de 2010, o impacto do BPN sobre as contas públicas começou a revelar o seu efeito nefasto: de 1 803 milhões (1,2% do PIB), nesse mesmo ano, 1 145 milhões de euros em 2011 e cerca de 500 milhões de euros em 2013.
O BPP, outra instituição bancária, acarretou graves prejuízos para Estado. Dissolvido em 15 de Abril de 2010 pelo Banco de Portugal, o BPP, só em 2010 custou 450 milhões de euros aos contribuintes. 
Estamos para ver o que nos custará agora o BES, mas, a adivinhar pelos escândalos que se somam em torno da gestão desta instituição bancária, bem como pela preocupação do Governo em desmontar, satisfatoriamente, esta teia que se estendia, praticamente, a todos os setores da vida nacional, desde a política, à cultura, à saúde e ao desporto, estamos crentes que iremos todos suportar mais este risco sistémico. 
Pobre país, este, quase sem recursos, tão cheio de misérias e mazelas, condenado a ser delapidado por tantos crápulas, pulhas e ladrões, quantas vezes, perante a passividade, indiferença ou miopia de quem nos governa!
Para que melhor se perceba o estado caótico das nossas Economia e Finanças Públicas, vale a pena olharmos para estes dados do Banco de Portugal, colhidos de um artigo de Eugénio Rosa:
“- Entre Dez/2010 e Mar/2014, a divida das Administrações Públicas aumentou de 185.844 milhões € para 258.486 milhões € (em % do PIB, subiu de 107,5% para 155%); 
- A dívida pública, na ótica de Maastritch (que não inclui a totalidade da dívida pública, mas é a considerada pela União Europeia) cresceu de 162.473 milhões € para 220.684 milhões € (em % do PIB passou de 94% para 132,4%); 
- A dívida de Portugal ao estrangeiro (Ativo-Passivo) aumentou de 185.221 milhões € para 205.158 milhões € (em % do PIB, subiu de 107,2% para 121,4%). 
 E ainda há quem prometa e quem acredite que em 2015 tudo começará a voltar à normalidade, os cortes à função pública serão repostos e, em cinco anos, Portugal vai descobrir, finalmente, a luz ao fundo do túnel! 
Quantos falsos profetas! 
Quantos pobres crentes!
João Frada

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

COMEMORAR DESCIDA DA TAXA DE DESEMPREGO com PIROLITO OU COM CHAMPANHE: eis a questão.

“Tínhamos uma taxa de 17,8% e neste momento estamos nos 13,9%, é evidente que está a melhorar”, afirmou o jornalista, sublinhando, todavia, que “a situação é péssima” pois “tudo o que seja desemprego acima de 5% é grave”. Não dá para grandes festas e seguramente estes resultados não de devem apenas à ação do Governo, diz Miguel Sousa Tavares.
Miguel Sousa Tavares, arguto como é para tanta análise, desta vez, limita-se a apontar dados do INE e a aplaudir, com algumas cautelas, de uma forma que poderíamos classificar de politicamente correta, com convicção ou sem ela, que o desemprego está a baixar. O que ele não se atreveu a especular, e apostaríamos que terá pensado nisso, é se a taxa de emprego aumentou, reduzindo a péssima situação do desemprego em que nos encontrávamos, igual a 17,8%, à custa de emprego sazonal e temporário desta época de Verão, ou se é e foi a Economia estruturante do país que, finalmente, por artes mágicas, deu o primeiro salto em frente, arrancando da letargia pantanosa em que se tem vindo a afundar, estes últimos anos. Esperemos pelas estatísticas do próximo e último trimestre de 2014 e não nos entusiasmemos com grandes aplausos antes do tempo, nem ousemos abrir garrafas de champanhe para comemorar o que ainda cheira e lembra féretro: desemprego, crise e austeridade. Só à nossa conta, conhecemos uma boa dúzia de licenciados que, ainda não tendo resolvido sair do país, tiveram a sorte de conseguir emprego precário, com horário reduzido, e pelo trabalho de estiva que executam, carregando caixotes e assumindo o serviço de limpeza, entre outras funções, recebem miseráveis remunerações, bem abaixo dos rendimentos mínimos de inserção concedidos a muitos parasitas que vegetam por este país afora, e, é claro, como era de esperar, não se inscreveram nos Centros de Emprego. 
Será que a miserável taxa de desemprego de 17,8% baixou mesmo e estes 13,9% constituem uma amostra objetiva, coerente com a real situação do país, de melhoria socioeconómica, ou tudo não passa de uma ilusão temporária e não merece sequer que se abra um pirolito, quanto mais champanhe para comemorar?!

João Frada

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Afinal quem é o pai da natalidade em Portugal?

Passos Coelho descobriu agora, porventura alertado pelo Senhor Ministro da Saúde, obrigatoriamente mais atento às questões de saúde, morbilidade, natalidade, senilidade e mortalidade, que a demografia portuguesa está “doente” e em vias de extinção acelerada, pondo em risco, como é óbvio, a sua reforma e a de todos os seus pares mais diletos, dentro de poucos anos, se bem que todos eles, seguramente, tenham tido possibilidade, face ao que auferem e forram enquanto governantes, de fazerem umas boas poupanças, ao contrário da maioria dos “portugas”, os quais mal ganham para sobreviverem, quanto mais para pensarem em pecúlios destinados à velhice. Seja como for, o Senhor Primeiro Ministro anunciou que agora, depois de todas as estratégias e medidas draconianas a que sujeitou o país, impondo-lhe uma austeridade sem limites e espoliando-o até à exaustão, é chegado o momento de pensar na natalidade. Falamos de reformas fora da esfera governamental, é evidente, porque aquilo que há muito se aguarda e que deveria contemplar o Estado, não está nem virá a estar tão depressa nos horizontes reformistas de Sua Excelência, o Senhor Primeiro Ministro. De resto, alguns dos projetos de lei que deveriam servir de suporte a essa reestruturação, pondo termo à ganância e acautelando o espírito de agiotagem e o risco de corrupção a nível do poder político, foram chumbados no Parlamento pela maioria parlamentar, a que se juntou o PS: exclusividade dos deputados e período de nojo para governantes, propostas estas apresentadas pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP. Ainda que alguns analistas afirmem que a exclusividade sujeitaria o deputado a amarras de disciplina clãnico-partidária e, na sua atual condição, tem mais hipóteses de contrariar tal situação, expressando livremente a sua opinião, entendemos que em qualquer circunstância, desde que não pactue com os seus iguais, pode sempre ser afastado pela cúpula do Partido. Simplesmente, o maior perigo não tem vindo de dentro mas de fora, do mundo das empresas e dos escritórios com quem partilham o seu dia-a-dia, porque não são profissionais em exclusividade, correndo sempre o risco de se tornarem agentes da promiscuidade entre o público e o privado. 
Poupar num lado para aplicar no outro, em projetos, áreas e negócios necessitados e socialmente prioritários, deveria ser esta a preocupação do Governo, mas não nos parece que tenha sido ou venha a ser a sua filosofia de atuação, pelo menos até aqui. 
A capitalização e recapitalização da Banca, sempre protegida pela “almofada do risco sistémico”, tem sido e parece-nos que irá continuar a ser a prova cabal do que afirmamos. Mas, a par destas inteligentes estratégias governativas, o Estado tem também esbanjado milhões de euros em muitos projetos, áreas e negócios onde não devia apostar um cêntimo ou então onde deveria ser mais cauteloso e parcimonioso nas suas aplicações (SWAP, PPP e BPN são os exemplos mais paradigmáticos e vergonhosos dessa insensatez e desrespeito pelos cidadãos) e, por outro lado, em setores nos quais já devia ter investido os seus melhores recursos económicos e humanos, como é o caso do estímulo à natalidade e à fixação de jovens através da criação de emprego e de proteção familiar, sobretudo na área da saúde e da segurança social, nada tem feito… a não ser, claro, na largueza com que atribui rendimentos sociais de inserção a indivíduos que pouco ou nada produzem e jamais virão a contribuir para a riqueza do país, apesar da larga prole que têm a seu encargo, completamente pendurados nestes rendimentos, sem qualquer retorno. 
Todos estão atualmente preocupados com o incentivo à natalidade e com a criação de estratégias conducentes ao aumento dos agregados familiares, e todos tinham na manga, de há muito, estas ideias. Curiosa esta irrupção tão alargada e esclarecida, sobre projetos políticos virados à natalidade, oriunda dos dois Partidos no poder, PSD e CDS, surgidos quase em simultâneo! Fica-se sem saber a quem se deva atribuir o prémio da paternidade, da exclusividade, da originalidade ideológica e conceptual de tamanha descoberta ou criação – o projeto da natalidade portuguesa – se a Passos Coelho, se a Paulo Portas, quando o que precisamos, e de há muito, meus senhores, é de prémios de maternidade. 
O cómico da questão é que todos eles reivindicam a ideia luminosa da natalidade, estupidamente tão apagada pelas políticas levadas a cabo por todos os Governos destas últimas duas a três décadas, nomeadamente pelo colapso do emprego, pelo empobrecimento familiar e pela fuga brutal de jovens que poderiam ser o motor geracional do nosso país e foram fazer filhos para outro lado.
E ainda pretendem saber quem é que deve considerado o pai da natalidade em Portugal! 
Gente medíocre.

João Frada

quarta-feira, 16 de julho de 2014

DESALENTO

Os meus versos são quadrados
Mas, mesmo, sendo redondos
Ecoantes e rimados,
Soariam como bombos.

Que ninguém pense o contrário
Não se trata de modéstia
Meus versos são mostruário
De um coração com moléstia

Esburacados de ideias
Vazios de sentimento
E podres de inspiração

Saídos das minhas veias
A custo, com desalento,
São versos sem cotação.

João Frada, 09.07.2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O SONHO

Dizem que o sonho corrói
Os elos das incertezas,
Mas também nos alivia
De frustrações e fraquezas,
Como se fora um feitiço,
Um reino de fantasia
Sem ninguém, sem conteúdo,
Que ora nos prende e separa
Que ora nos leva e nos traz
Entre beijos e abraços
Pelos céus… o sonho é tudo,
É bálsamo que não se espera
É expoente de ilusão,
De dor, de céu, de magia
De tanta falsa quimera
Que nos arrasta e nos guia
Entre as chamas da paixão
E os caminhos da utopia.

João Frada
Lisboa, 07.07.14

terça-feira, 8 de julho de 2014

POESIA TRAPEIRA

Eu queria amar toda a gente que me ama,
Bem entendido, amar só por amar,
Não mais do que isso,
Porque amar sempre acaba numa cama
E termina, muitas vezes, num enguiço.

João Frada
Lisboa, 07.07.13