terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Milagre Económico” do Senhor Ministro da Economia

O senhor Ministro da Economia, Pires de Lima, o único caso até agora que se conheça, dentre as excelsas figuras que nos governam crentes que “jamais se enganam e raramente têm dúvidas”, retratou-se em público por ter embandeirado em arco e feito declarações que, ele próprio, considerou demasiado exageradas e otimistas sobre a situação económica do país. E recuou da sua pomposa afirmação, admitindo ter tido um excesso de linguagem quando falou de “Milagre Económico”. As empresas, essas sim, merecem rasgados elogios por serem grandes obreiras da recuperação económica, ao lado da dupla parceria Estado-Governo, dizia Pires de Lima. 
Na verdade, no que toca a exportações, somos um dos países da zona euro que mais temos dinamizado este setor e, através desse esforço, tem sido possível equilibrar não só a balança externa, reduzindo a dívida pública e o défice brutal em que estávamos mergulhados, como dando sinais indicadores aos credores internacionais da enorme capacidade de revitalização do mercado produtivo e, bem entendido, da vontade firme de sair da crise. 
Os senhores Primeiro-Ministro e Vice-Primeiro Ministro, entre outros, deveriam copiar esta atitude de humildade, ainda que forçada ou não convicta, tendo em conta a capacidade que ambos possuem, enquanto políticos natos, de dizerem o que não sentem, de sentirem o que não pensam, de chorarem de felicidade e de rirem da tristeza, como dá para ver quando os observamos sorridentes, bem-dispostos e gargalhantes enquanto debatem, discutem e analisam quais as formas mais sofisticadas de contornar a barreira do Tribunal Constitucional para mais uma taxa, um imposto ou um contributo a acrescentar à enorme carga tributária infligida aos portugueses.
Na verdade, o senhor Ministro da Economia, num rasgo que acreditamos ter sido de total sinceridade, sem deixar de elogiar o aumento considerável das exportações, enquanto marca positiva da atual governação e catapulta da economia, reconheceu implicitamente que o país não pode esperar sair da crise apenas apoiado neste setor. 
As exportações contribuem para minimizar os danos de imagem económica e financeira do país, favorecendo as relações de Portugal no domínio macroeconómico e, ao mesmo tempo, asseguram às empresas e aos recursos humanos envolvidos capital, segurança e continuidade laboral. Porém, nenhuma nação vive apenas de exportações e a grande maioria da população em nada beneficia dos bons resultados obtidos com o desenvolvimento deste setor. Um corpo sem braços, sem pernas, sem coração, sem alma, dificilmente se levanta. Não queiramos acreditar, como o senhor Ministro da Economia também não quis, que só dispondo de um bom braço a funcionar, neste caso, o setor das exportações, vamos entrar na felicidade suprema e sair da tremenda crise em que vivemos.  
Produz-se para o exterior em grande escala, é certo, mas cá dentro a economia estagnou porque o desemprego, os baixos salários, congelados e completamente desfasados da crescente inflação anual, e as magras reformas e pensões, continuamente sangradas e reduzidas em nome de uma salvação nacional, para a qual os mais ricos pouco contribuem, não geram uma dinâmica económica digna de registo. 
Segundo as projeções do Banco de Portugal (para o período 2013-15), o elevado endividamento dos vários setores institucionais, o nível ainda relativamente baixo das qualificações da população ativa e a forte segmentação do mercado de trabalho, que promove uma longa duração do desemprego e uma elevada rotação de alguns grupos de trabalhadores, no seu conjunto, constituem sérios entraves a essa recuperação interna. Esperar que as famílias possam propiciar aos seus filhos melhores qualificações, ao olharmos o que se passa a nível das universidades, quando milhares de estudantes desistem dos seus cursos por incapacidade de pagamento de propinas, por diminuição drástica de bolsas de estudo e de apoios de toda a espécie, incluindo os destinados à investigação, parece-nos uma autêntica utopia. Mas o Banco de Portugal, ao falar de qualificações, ter-se-á esquecido de que aqueles que emigram e emigraram têm qualificações a mais, reconhecidas e bem-vindas pelos demais países com porta aberta a tanta juventude qualificada. Pelos vistos, o desemprego deste enorme contingente não se fica a dever a falta de qualificação. Ou fica? 
Aqueles que não emigraram, e que apostaram uma vida inteira na qualificação profissional, com exceção dos adjuntos e assessores dos nossos Ministros, ganham miseravelmente e, muitos deles nem disso se podem queixar, porque estão no desemprego. Paradoxalmente, como ouvimos ainda ontem dizer num programa televisivo, em alto e bom som, a António Arnaut, é uma perfeita anedota constatarmos que qualquer jovem licenciado adjunto ou assessor do Primeiro Ministro aufere melhor vencimento do que qualquer profissional de saúde, académica e cientificamente, altamente qualificado. É esta a noção apurada que Passos Coelho terá de justiça, disciplina orçamental, equidade e prémios de competência, não duvidamos.  
Com qualificações ou sem elas, o desemprego persiste, porque a cartilha política do atual governo tem sido e parece que continuará a ser a de apostar nas exportações. Se estas servissem para minorar a carga tributária, descida de IVA e IRS, não apenas temporariamente em 2015, com objetivos estritamente eleitoralistas, como dá para adivinhar pela conversa demagógica de Paulo Portas, mas definitivamente, então acreditaríamos que o Milagre Económico de Pires de Lima viria mesmo para ficar. Mas até agora somente observamos austeridade, disciplina orçamental e sangria tributária flagelando, impiedosamente, sempre os mesmos.     
Enquanto o país apenas se apresentar como um gentleman bem-falante, bem aceite e bem vestido por fora, mas doente, fragilizado e canceroso por dentro, não devemos ter grande orgulho nem manifestarmos tanto otimismo perante os rumos favoráveis “da nossa trajetória”, parafraseando o senhor Primeiro-Ministro. 
É melhor acautelarmo-nos, porque o país está coxo, maneta, sem ânimo, com graves arritmias sociais e funcionais. E pode colapsar. 
Ninguém vos pede que aparenteis desolação ou luto, perante a miséria que grassa à vossa frente, mas seria melhor, senhores ministros, dosearem o vosso otimismo, sempre tão exuberante, e serem mais sóbrios nas vossas atitudes, sobretudo, mais realistas…como deu mostras, ainda que incipientemente, o senhor Ministro da Economia. 

João Frada

          

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Reflexão I: “PENSO, LOGO EXISTO”

“Penso, logo existo”, afirmou o filósofo René Descartes.
Nesta ótica filosófica, a possibilidade de pensar, para qualquer cidadão, define-lhe e garante-lhe a existência. Todavia, não pensar também não lha nega nem lha anula.  O ato cerebral de pensar, em si mesmo, como dom humano, só  é possível quando alguém existe fisicamente. Se reconhecermos, porém, que pode não haver pensamento, enquanto realidade neuropsicofisiológica, pura e simples, mas há a consciência de que não se pensa ou não se quer pensar sobre qualquer coisa, apenas pela negação de sujeitar a mente a qualquer tipo de raciocínio ou exercício de reflexão ou análise, ou não se detém, em última instância, tal capacidade, concluiremos, de igual modo, que até aquele que não pensa existe. 
Pensar ou não pensar decorre da prerrogativa existencial e pessoal que designaríamos de livre arbítrio. Mas, em determinados estados de consciência, de êxtase e meditação transcendental levada ao extremo ou de impossibilidade total de cerebração, por degeneração neuronial acentuada, por exemplo, em patologias senis ou demenciais profundas, o ato de pensar pode ficar simplesmente suspenso, desativado ou definitivamente extinto. E, nestas circunstâncias, porque não se pensa, não se existe? Ou, aqui, o indivíduo deixa de ter, apenas, temporária ou perenemente, a consciência da sua própria existência? 
A tese cartesiana do “Penso, logo existo”, quanto a nós não pode nem deve ser tomada como uma verdade absoluta. A sua antítese, “Não penso, logo não existo”, também não. 
Resta-nos acrescentar que, tal como os seres humanos, também alguns animais parecem ter formas de consciência elementares, consideradas manifestações decorrentes da inteligência animal que a ciência etobiológica lhes reconhece. Entre os antropoides, por exemplo, há macacos que não só manufaturam instrumentos rudimentares que utilizam e reutilizam nas suas atividades vivenciais diárias, em particular, na captura de alimentos, como revelam sinais indesmentíveis de uma capacidade de reflexão que se situa bem para além dos meros instintos de sobrevivência comuns a todas as espécies de animais, incluindo seres humanos. Poder-se-ão considerar estas manifestações esboços de uma consciência reflexiva, também assente numa certeza protocultural adquirida e comprovada através da relação causa-efeito? Parece que sim. Estes animais conhecem e exploram bem tal relação. Todavia, não terão consciência da sua existência nem enquanto símios nem enquanto seres vivos. Então, numa análise subliminar e quase paradoxal, senão mesmo aberrante para alguns analistas deste paradigma, muitos seres humanos, patologicamente desprovidos da sua capacidade de cerebração, apenas conservando ativos os instintos, porque não pensam, nem têm consciência de si próprios nem de que estão vivos, não existem. Filosoficamente, não detêm essa capacidade de introspeção. Não discorrerão sobre o seu ego ou sobre a sua identidade anímica, física e pensante. Mas existem. 
“Penso, logo existo”, não passa, pois, de uma verdade muito subjetiva e relativa. 
Analisada na sua enorme abrangência mensagística, esta frase leva-nos muito para além da existência e da consciência que o pensamento, enquanto ato cerebral, pode ou não permitir.             

João Frada

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

VERDADE É AMOR?

Verdade é Amor?
Que tipo de amor? Amor à verdade? Amor à causa? Amor eterno ou passageiro? Amor à mãe?
Amor ao pai? Amor ao dinheiro? Amor a Cristo?
E que tipo de verdade? Verdade relativa ou absoluta? Em qualquer dos casos deve ser sempre considerada como amor? 
Se assim for, se uma verdade relativa ou absoluta é sempre um ato de amor, então uma verdade parcial, relativa, incompleta, sentida como verdadeira ainda que o não seja, é sempre um ato de amor, em tudo idêntico à relação da verdade e do amor, considerados numa escala absoluta. Não parece haver aqui uma contradição ou uma discrepância flagrante em termos de qualificação de valores? A realidade, o imaginário e a ficção, enquanto questões antropológicas, artísticas, filosóficas e conceitos psicofisiológicos, podem ser encarados sob diferentes perspetivas e determinar, por isso mesmo, diversos níveis de inter-relação entre a Verdade e o Amor.   
A verdade consiste em quê, para além do conceito etimológico que encerra?
Dizer o que se deve e o que se não deve, o conveniente e o inconveniente? E quem e como se estabelece o que é verdade e o que não é? Verdade para uns pode ser a inverdade de outros. Que verdade ou poder conferido pela verdade, e que verdade, detém aquele que define ou pretende definir o que é verdade, conotando-a, sem quaisquer restrições ou reticências, com o amor? 
Tudo pode ser dito em nome da verdade, aquela que, subjetiva e caracterizadora do conceito pessoal de cada indivíduo, crente nos seus dogmas e valores humanistas, éticos e morais, é considerada como verdade indiscutível. 
A verdade de uma maioria pode não representar a verdade de uma minoria e vice-versa. A verdade de uma civilização pode não ser a verdade de outra. Compare-se a verdade Islâmica e a verdade não Islâmica. Será que a verdade não Islâmica é amor para os Islâmicos? E a verdade Islâmica é amor para os não Islâmicos? Duvidamos que, na sua plenitude visível e palpável, tais verdades sejam algum dia sobreponíveis, almas gémeas de um único amor inquestionável. 
“Amor a Cristo é a Verdade”. Para os cristãos, assim é. E para os não cristãos? Deixa de ser verdade, passa a ser mentira ou menos verdade ou torna-se apenas num amor que deve ser condenado à rejeição?   
E aquela verdade que se espera ouvir e não se ouve? Não a emitir pode ser um ato de amor, emiti-la, considerando os seus reflexos e consequências negativos, também. Em qualquer das situações pode ser um ato de amor, mas a verdade assim dita deixa de ser uma verdade total e confunde-se com uma meia-verdade ou uma omissão.   
Emitir a verdade, clara, total, transparente, em total consonância com a realidade, pode resultar apenas de uma necessidade de vingança. Será isso amor? 
A verdade, quando é nua e crua, mostra-se tal ela é, desnudada de artifícios, de engenharia cosmética, completamente desligada do impacto ou mensagem agradável ou desagradável que encerra ou possa revelar. Estas duas características, “nua e crua”, nem sempre equivalem a um  sentimento de amor, ainda que contenham em si mesmo amor à verdade, mas podem significar desamor, raiva, indiferença, insensibilidade, frieza, ódio, tristeza, angústia, desencanto, agonia. Será esta verdade um ato de amor, puro e simplesmente? 
A verdade magoa, a verdade dói, a verdade mata, a verdade castiga, a verdade desencanta, a verdade não constrói apenas a felicidade mas também a quebra e destrói…
Será que a Verdade é sempre Amor? 

João Frada

domingo, 2 de fevereiro de 2014

CREPÚSCULO


Quem dera que eu não visse esse crepúsculo
e a hora da partida não chegasse
e não fosse tão longe o nosso adeus
que te leva, meu amor, de volta à praia…
E tu, meu sol, eternamente pelos céus,
não mais me deixarias na penumbra…

Quem dera que o crepúsculo não chegasse
e tu me iluminasses todo o dia
e fosses meu tronco e minha sombra…
Libertava-me, de vez, desta agonia,
sem que o resto do mundo me importasse.

Quem dera, meu amor, que a tua ausência
não passe de uma onda que desmaia
ou de um barco, sem leme e marinheiro,
que não parte nem pode navegar.
Regressa, meu amor, assim ligeiro,
vem antes do crepúsculo me cegar.

Quem dera que não visse outro crepúsculo
para te ter mais tempo junto a mim.
Sonhando que sou hera, que sou flor
e tu um simples cravo ou um arbúsculo,
duas flores de mãos dadas num jardim.

João Frada

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Instante que Passa

O instante que passa, quando o procuras gravar nos teus sentidos, já passou…
Mas ficou, fica sempre algo impercetível, coisa pouca que se aninha dentro de ti algures no peito, nas retinas dos teus olhos, nos ouvidos, na alma, até, se ela for capaz de o pressentir, de estremecer com esse instante que quase não tem rasto, de agonizar quando uma paixão veloz cruza o céu e morre como estrela cadente, no seio da tua noite, amargurada. Não mais se repete esse célere momento que passou num ápice e dele só te há de ficar uma lembrança doce ou amarga, pesada ou leve, duradoura e fugaz, mas sempre um instante. 
Os teus instantes hão de fluir, assim, junto de ti, soltos, imprevistos, excêntricos, cândidos, misteriosos, infernais, como ventos indomáveis de invernia. Não tentes desviá-los do seu rumo, não procures acorrentá-los numa clausura forçada, não lhes traces o percurso de um destino, deixa-os passar livremente por dentro de ti, procura apenas respirá-los como se eles fossem o teu fôlego vital, e cada instante assim absorvido, na tua mente e no teu espírito, constituirá a certeza de que viveste a infinitesimalidade possível de cada um deles, momentos únicos que nunca mais se virão a repetir.    

João Frada

BREJEIRICE “ARY-BOCAGIANA”: LIXADOS COM “F”

Com tanta taxa e imposto
há quem viva num delírio
carpindo-se sem cessar
entre suspiros e ais.

Há quem carregue no rosto
o peso deste martírio
e não se deixe abalar
gritando: “Fora o Governo
está na hora de mudar
já nos roubaram demais!”

Um regabofe de gente
pendurada no povinho,
vivendo à grande e à francesa
bandidos de colarinho
branco ou preto, tanto faz,
trafulhas com ar decente,
todos roubam com largueza,
saca mais quem é audaz.

Do proxeneta ao ladrão,
do corrupto ao mentiroso,
do falsário ao magarefe…
todos vão metendo a mão.
Mas se não se acautelar
esta trupe mequetrefe,
do jeito que as coisas estão,
quando mal se precatar
será lixada com “f”.

João Frada

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

SER LIVRE

De quê? De quem? De que forma? Quando? No passado? Hoje? Amanhã? De mim? Dos que me rodeiam? Dos que me amam? Dos que me odeiam? Dos que me governam? 
Ninguém é livre em vida, só na morte…
Ser livre, afinal, enquanto condição absoluta, desprendido de tudo e de todos, da Natureza, da sociedade e dos homens, é pois uma utopia. Nem os pássaros, livres pelos campos, pelos céus, são verdadeiramente livres. Dependem da Natureza para se alimentarem, reproduzirem, sobreviverem. São quase livres, mas não, de todo, livres. 
Porém, invejo-os. São tudo aquilo que de mais livre existe. Quero ser como eles, quero romper com tudo o que me amarra, quero voar sobre o mar sobre a montanha, quero ser livre, escondido e esquecido do espaço e do tempo, que não são apenas meus, que tenho de repartir com gente estranha.
 Quero fugir dessa realidade existencial que amortalha os meus sentidos, que me não deixa escolher o meu destino. 
Quero encontrar essa mágica chave, antes que minh´alma parta deste mundo, 
E rodá-la, abrindo-me ao infinito bem profundo, como se eu fosse no céu o espírito de uma ave e voasse então, num sonho, livre, liberto de mágoas e de lutos, 
Esperando que esse voo me conforte, quero sentir-me livre por minutos, quero sentir-me livre em vida e não na morte.    

João Frada