sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O SENTIDO MÁGICO NA RELAÇÃO MÉDICO-DOENTE

O Sentido Mágico na Relação Médico-Doente
 
 
A magia, marca identificativa da “primeira infância” cultural da Humanidade, depois de vários milhões de anos de evolução biológica e civilizacional, persiste no inconsciente de cada ser humano, latente, como uma luz de presença permanente.
A longevidade da magia sugere, exatamente, o seu profundo enraizamento no psique do homem.[1]
Apoiando-se em James Frazer e nos seus conceitos míticos e mágicos, reguladores, em absoluto, do comportamento de todas as sociedades “ditas primitivas” (modelos analógicos de importância fundamental para a compreensão, apenas aproximada, da realidade espiritual, psicológica e mental do Homem pré-histórico), Sigmund Freud traça a sua visão evolutiva da sociedade e da criança. Na sua ótica, a magia e os seus processos lógicos regulam, realmente, os ritmos de crescimento ideológico e conceptual do Homem.
O Homem social, na sua natural evolução, dependente durante milénios da magia que criou, aperfeiçoou e utilizou na expetativa de controlar, em seu proveito, todas as forças da Natureza e do Cosmos, acaba por se consciencializar de que todos os ritos e esforços nem sempre compensaram ou serviram os seus objetivos. E quando desacredita na magia, volta-se para o racionalismo e envereda pela via da ciência. Mas as marcas do pensamento original, arquétipos indesmentíveis do pré-racionalismo que carateriza os seus primeiros estádios culturais, não mais se apagariam.
Do mesmo modo, a criança, na concepção de Freud, ao constatar a sua impotência para dominar o mundo, consciente de que os obstáculos e barreiras surgidos dia-a-dia não são transpostos pelos recurso a fórmulas, ritos e passes mágicos, acaba, inevitavelmente, por substituir o imaginário pela realidade, quando o seu amadurecimento mental e psicológico se processa de um modo espontâneo e natural. Mas, tal como para a criança a magia é saudável pelo seu efeito adaptativo e harmonizante, possibilitando que na sua consciência se estruture, de um modo suave, a necessária dissociação entre o mítico e o real, também nas sociedades “ditas  primitivas” ela vai servir como regulador dos mais diversos comportamentos e funções.
Jean Piaget, também ele, debruçado sobre a magia defendeu e mostrou que até à idade de seis ou sete anos todos os seres humanos vivem num mundo mágico, partilhando crenças e hábitos com o passado remoto não menos do que com o primitivo moderno.[2]
Na sua ligação íntima à magia e aos seus ritos, o homem, sempre com o objetivo de dominar e moldar em seu proveito todos os fenómenos naturais, viria a descobrir procedimentos e técnicas eficazes, sobretudo no domínio da fitoterapia, conhecimentos estes de reconhecido interesse farmacológico.
Os médicos-xamãs, fiéis depositários desta sabedoria milenar, não desenvolveram, apenas, esta vertente terapêutica. Cultivaram a hipnose, o gesto e a palavra e demonstraram a sua força curativa. O envolvimento do terapeuta e do doente, numa destas sessões, não se circunscreve(ria), estritamente, a este binómio. Todo o coletivo, no fundo, a família extensa de que faz parte, está presente, assiste e participa, em corpo e espírito, a este cerimonial de cura.
A pessoa-doente, nestas sociedades simples, é uma peça vital e a sua incapacidade afeta, necessariamente, toda a comunidade que, entre caçadores-coletores, raramente ultrapassa os trinta indivíduos, englobando homens, mulheres e crianças. Assim, se alguém adoece altera-se, completamente, toda a dinâmica do grupo. E a explicação da doença é sempre conotada, direta ou indiretamente, com a comunidade. A esfera social e relacional assume a primeira prioridade na análise superficial que o terapeuta estabelece, com vista a atalhar o problema. Um tabu não respeitado, uma malquerença, um mau olhado, uma praga, um feitiço lançado por alguém descontente ou inimigo constituem, em primeira instância, as causas da enfermidade. Além destas, há outras mais temíveis: as entidades sobrenaturais e demoníacas que apenas são suscetíveis às artes da magia branca ou negra. Os deuses e os demónios, capazes de gerar doença e cura, desde que devidamente invocados por especialistas, xamãs, curandeiros e feiticeiros, respondem normalmente aos apelos humanos, persuasivos e reforçados pela força mágica dos ritos.
A sessão xamânica, mistura de psicoterapia, de hipnose e de fitoterapia (administram-se, frequentemente, beberragens preparadas a partir de produtos e substâncias de origem vegetal, com uma real eficácia terapêutica) pode parecer um ato primitivo à luz dos conceitos e valores que norteiam a medicina científica. Todavia, não só constitui o único recurso médico possível para muitos povos do Planeta como se revela eficaz, garantindo a cura ou o alívio dos doentes.
O médico, sacerdote e mágico, autoridade reconhecida e prestigiada, detentor de grandes capacidades esotéricas, capaz de mobilizar a vontade dos homens e dos deuses, procura a explicação de todos os fenómenos no domínio do sobrenatural mas não descura o contexto microcósmico, retratado na realidade concreta de ordem natural e social. Essa perceção proto-racionalista traduz a própria evolução mental e cultural do Homem, enquanto ser dotado de racionalidade e de inteligência.
O racionalismo de feição hipocrática irrompido no V século antes de Cristo, corrente, também ela, heterodoxa, perante um pré-racionalismo convicto e ancestralmente instituído como via única de acesso ao conhecimento e à verdade, acabaria por se impor e marcar o ritmo do pensamento médico.
A corrente do saber médico, na sociedade ocidental, vai-se afastando, cada vez mais, da magia e da religião, marcas desse pré-racionalismo milenar (bem arreigado no pensamento coletivo) e, alicerçada no experimentalismo, atinge, finalmente, no século XIX a meta científica. Mas alguns dos ritos, crenças, superstições e conceitos mágicos em redor do binómio doença-cura, remanescências marginais ao processo de cientificidade, jamais desapareceriam. Assim, persistentes no tempo, viriam a assumir-se como recursos paralelos à ciência médica, com adeptos fervorosos e em grande número, contabilizados, sobretudo, entre as comunidades simples de todo o Mundo.
Por outras razões, bem compreendidas, decerto, numa ótica sociológica, o recurso a práticas médicas tradicionais têm hoje, no final do século XX, um eco de grande expressão mesmo nas sociedades ditas evoluídas. Talvez, por isso mesmo, James Frazer considere a magia como uma irmã bastarda da ciência.
O próprio ato médico racionalisto-científico, obrigatoriamente hipocrático nos princípios éticos e deontológicos é, acima de tudo, um fenómeno com uma grande carga mágica não, obviamente, pelos processos e técnicas objetivos utilizados, mas pelo ambiente contextual, holístico e subjetivo que cada relação médico-doente exige e determina. Hipócrates, atento à importância dos múltiplos fatores intrínsecos e extrínsecos de ordem orgânica, psicofisiológica e genética, ambiental e climatológica, traça no seu tratado “Dos ares, águas e lugares” uma panorâmica clara do modo como a saúde e a doença deverão ser encaradas, quer no domínio etiopatogénico quer no domínio da terapêutica curativa e preventiva, realçando, pela primeira vez, na História Médica, a perspetiva da globalidade do fenómeno saúde-doença. É evidente que a avaliação exaustiva do doente e das suas queixas implica uma história clínica rigorosa e essa condução não pode dispensar uma empatia profunda com o paciente. Só assim poderá ser possível determinar a causa ou causas da enfermidade e gerar, ao mesmo tempo, a necessária confiança e colaboração do doente no cumprimento terapêutico.
A força curativa da palavra, já pressentida e desenvolvida entre os xamãs, é encarada ao logo de séculos como uma das mais eficazes vias terapêuticas. O poder da sugestão verbal é, claramente, reconhecido a nível médico e o próprio D. João IV, a conselho dos seus físicos, concede a um soldado, por alvará, “Carta para curar” através da palavra, arte esta que o mesmo parece ter desempenhado com eficiência, tratando, segundo parece, grande número de militares estacionados no Alentejo. Satisfeito com o seu trabalho, o monarca tê-lo-ia, mesmo, agraciado com uma tença anual.[3]
Uma outra modalidade terapêutica, o toque ou imposição das mãos, do Rei, de Cristo ou de um Santo taumaturgo capaz de mobilizar energia benéfica e miraculosa, é apenas atributo de alguns, verdadeiramente dotados, iluminados ou escolhidos por Deus, os quais, através do simples contacto promovem a cura ou o alívio das mais diversas maleitas humanas. Colocando as mãos sobre a cabeça do paciente ou, diretamente, sobre órgãos doentes ou não funcionais, o terapeuta, fonte de energia medicinal de origem natural (cite-se o magnetismo, por exemplo) ou de ordem sobrenatural e mística, alcança curas que são, aos olhos dos doentes, autênticos milagres. A crença mágica funciona uma vez mais, quer do lado recetor quer do lado emissor.
Quando todas as circunstâncias e coincidências se conjugam e a cura parece, mesmo, ter resultado do toque real ou sacro-taumatúrgico, a crença, nas mentes sugestionáveis e simples, reforça-se um pouco mais.
Vespasiano, Imperador Romano no século I a.C., curava a cegueira pelo toque. O próprio Cristo dá vista aos cegos e marcha aos paralíticos pelo simples ato do gesto ou da palavra. Do mesmo modo, não só se acredita que Luís XIV, o Rei-Sol, promove curas, como nos garante André Du Laurens (Mestre em Montpellier na época), porque é dotado por Deus com a capacidade de sanar a escrófula tuberculosa (também designada por mal do rei) como vemos Carlos X, também rei de França, a ser procurado em 1824, já na era científica, para exercer o seu poder curativo através do toque. Mas as tradições francesas nestas artes tão sui generis, praticadas pela sua realeza, vêm muito de trás. O próprio Imperador Clóvis, da era Merovíngia, acreditava-se, curava também pelo simples contacto das mãos.
Entre os Ingleses, Eduardo, “O Confessor”(1002-1066), terá propiciado a cura a grande número de escrofulosos em 1056.[4]
As razões que induzem tanta gente a acreditar nestas e em outras formas terapêuticas, comummente praticadas em todos os tempos e em todas as épocas, deverão ser, como já o disséramos, compreendidas numa ótica eminentemente biopsicossociológica. Mas a magia ou algo semelhante, capaz de gerar esse fascínio, essa fé cega nestas vias de tratamento, afigura-se-nos, é dentre todas as explicações a que melhor traduzirá a natural dependência do homem dos seus impulsos ancestrais de índole pré-racionalista.
Outros aspetos, porém, marcam a realidade da medicina social contemporânea, ainda bem longe de ser acessível a todos no início do século XXI.
A cada vez mais utópica possibilidade da ciência médica estar ao alcance da maior parte da população planetária (face ao constante aumento demográfico e à penúria social verificados, sobretudo, no Terceiro Mundo), o elevado grau de tecnicismo médico e a crescente desumanização da própria medicina conduzem o doente à inevitável procura de soluções fora do contexto oficial ou convencional.
Em Portugal e, sobretudo, na região norte do País, onde os recursos sanitários só tardiamente têm vindo a instalar-se, o doente raramente procura, em primeira instância, o médico de formação oficial e, quando o faz, já percorreu uma longa trajetória pelos meios terapêuticos tradicionais em busca de solução para os seus problemas de saúde.
Não confiante e insatisfeito com o diagnóstico formulado pelo técnico de saúde a que recorreu, desconfiado e duvidoso relativamente à explicação que procurou obter sobre o seu mal, claramente desapontado perante o que lhe foi ou não dito, desiludido com esta consulta, no seu todo, muito aquém  das suas expetativas iniciais, sem o mínimo de convicção para cumprir qualquer tratamento aconselhado, o indivíduo, enfermo do corpo, do espírito ou do psíquico, acaba por não considerar, numa próxima oportunidade, a medicina oficial como uma primeira opção. Ou se gera o necessário elo mágico, verdadeira empatia  que aproxima o médico e o doente, e este desenvolve ou reforça a sua convicção de que os conselhos e orientações ouvidos do clínico são de absoluta confiança, a seguir, portanto, sem hesitação, ou o objetivo resultante desse importante binómio relacional não se concretiza minimamente. E não é de somenos importância o contacto físico entre o médico e o seu paciente, ansioso, angustiado, receoso, física e psicologicamente fragilizado. Um simples toque do médico, simbolizando conforto, solidariedade, compreensão ou carinho, exercido sobre a mão, sobre o braço ou as costas do doente, pode fazer milagres. O silêncio, a indiferença, a pressa ou a atitude evasiva assumidos pelo médico geram desconfiança e descrença imediatas.    
A repetição e a generalização deste  fenómeno  de  incompatibilidade  entre médico-doente gera uma espécie rejeição, um mito negativo em torno desse binómio. E o doente, se até aí tinha débeis convicções sobre o valor das medicinas alternativas ao seu alcance, volta-se, inevitavelmente, para estas áreas em busca de melhores respostas para os seus males e dúvidas. E como a procura acaba por determinar um aumento de oferta, à sua volta vai proliferando toda uma casta de oficiantes especializados nas demais diversas modalidades terapêuticas (bruxas, curandeiros, endireitas, etc.), grande parte deles verdadeiros charlatães sem qualquer preparação técnico-profissional, prontos a enriquecer à custa da ingenuidade e do sofrimento alheios.
Avassalados pela angústia da doença, pelas suas "disarmonias" espirituais e psicológicas, os descrentes da medicina oficial vão encontrar alívio para os seus males de natureza, predominantemente, psicossomática quando descobrem nestas “modalidades heterodoxas” de terapia as respostas e a compreensão que não obtiveram nem poderiam obter junto dos técnicos representantes da ciência médica. A explicação etiológica e o prognóstico não cruzam, obviamente, com as suas expectativas e muito menos com conceitos e ideias simplicistas do seu mundo simbólico, no qual a doença resulta sempre, em primeira análise, da interferência dos maus-espíritos ou espíritos-ruins. Através de fórmulas mágicas, de rezas e de exorcismos mais ou menos complicados, a cura pode ser obtida.
Amuletos e talismãs reforçam a ação destas práticas virtuosas e dos oficiantes sanadores ou taumaturgos. A variedade destes objetos resulta, naturalmente, da diversidade conceptual que cada povo e cultura concebe do seu mundo simbólico e mágico, dimensão transcendental de onde irradiam forças e agentes capazes de proteger a vida ou de causar a morte, a doença e a desgraça.
Desde a Pré-história, o homem tem procurado criar “antídotos”, cujo poder curativo e preventivo é fundamental para contrariar a ação maléfica das múltiplas entidades, visíveis e e invisíveis, que deambulam constantemente à sua volta.
No Paleolítico Superior e no Neolítico, os pedaços de crânio (rondelles) triangulares ou arredondados retirados nas trepanações  efetuadas pelos xamãs-cirurgiões, com vista a libertar, através de tais orifícios, os seres e forças malfazejos responsáveis pelo sofrimento do paciente eram, decerto, usados como amuletos e talismãs frequentemente pendurados ao pescoço, garantindo, deste modo, imunidade e proteção contra recidivas da doença ou quaisquer outras entidades perniciosas e perversas.
Mas o próprio ato cirúrgico da trepanação é executado ainda hoje entre comunidades simples da África Oriental, seguindo procedimentos e técnicas que em pouco deverão diferir  dos processos  seguidos  pelos cirurgiões da Pré-história.
Entre os Kisi, habitantes das margens do Lago Vitória, conhece-se, desde há muito, a prática da trepanação como medida terapêutica objetiva decidida e executada em casos de cefaleias intensas devido a hipertensão intracraniana, de mal-estar, vertigem e vómito subsequentes a traumatismo craniano, de enxaqueca renitente a todas as formas de tratamento ensaiadas pela medicina oficial ou tradicional.
Procurados, a maior parte das vezes e em primeira instância, pelos doentes, os cerca de quatro “neurocirurgiões” em exercício naquela região, na última década do século XX, eram responsáveis por uma média de duzentas trepanações/ano.
Apesar da possibilidade de poderem ser observados e operados em hospitais equipados com tecnologia e recursos científicos, em cidades próximas, estes pacientes, recorrem, convictamente, aos local-doctors e, não raro, acabam por se sujeitar a duas e mais trepanações, mesmo quando, após uma primeira tentativa, não obtêm quaisquer  melhoras.
Atualmente, e de acordo com as observações efetuadas pela equipe de especialistas alemães que se deslocou àquela região de África e ali pôde estudar de perto estas práticas, parece que o diagnóstico e a terapêutica são estabelecidos tendo em conta a lei causa-efeito. Deste modo, os fatores sobrenaturais e místicos não condicionarão, prioritariamente, as decisões médico-cirúrgicas, como terá acontecido durante os primeiros estádios culturais pré-racionalistas entre as comunidades pré-históricas. Todavia, a componente mágica não se dissocia completamente do cerimonial curativo e a sua importância evidencia-se, sobretudo, durante e após a intervenção, logo que o cirurgião retira o segmento da calote e o encéfalo fica visível no campo operatório. Nesta altura, sim, não vá o diabo tecê-las, recitam-se fórmulas mágicas, que são de uma grande eficácia protetora e impedem, assim, a entrada a qualquer entidade malfazeja através daquele crânio tão exposto e vulnerável. Enquanto a cicatrização do couro cabeludo não se processa e a continuidade tecidual não é restabelecida o perigo tem que ser combatido com a magia.
O que  levará,  então,  estes  doentes a  deixarem-se  operar  uma  ou  mais  vezes,  em  subcondições higiénicas, com instrumentos rudimentares (alguns deles, alfaias de cozinha) e, visivelmente, sem resultados muito animadores, a aferir pela casuística estabelecida a partir dos dados recolhidos por aqueles cientistas? A crença e a confiança cega na autoridade e na competência do médico, no poder mágico que ele detém sobre a saúde e sobre a doença, no seu mana[5], em suma.
Refletindo ainda, um pouco mais, sobre a importância simbólica dos objetos usados como protetores de doença por todas as comunidades, simples ou evoluídas, começaríamos por retrocessar às sociedades pré-clássicas, aos Babilónios. Entre este povo era comum o uso de placas com figuras demoníacas, as quais constituíam, de acordo com os seus conceitos mágico-simpáticos ou homeopáticos, a proteção fundamental contra os principais responsáveis pelas doenças: os demónios (demónio-febre, demónio-cefaleia, etc).
O mal protege do mal, o feio protege do feio[6]
Estas e outras crenças de índole mágica existem e continuarão, decerto, a persistir à nossa volta, como paradigmas do imaginário primitivo existente em cada um de nós.
Uma infinidade de objetos mágicos fazem parte do quotidiano de todas as sociedades e não só constituem o elo de ligação a esse arcaísmo espiritual e psicológico escondido em cada ser humano, como se revelam fatores harmonizantes dos medos e angústias que povoam o seu inconsciente.
O rabo e pata de coelho (para dar sorte), a figa, o chifre, a ferradura, o signo de Salomão (protetor de homens e animais), medalhas e medalhões com santas e santos, o ramo de oliveira trazido de Fátima e religiosamente guardado em casa, o terço benzido pelo sacerdote, pelo bispo ou pelo Santo Padre, as braceletes anti-reumatismais, etc, são apenas alguns desses objetos.
A fé move montanhas e a verdade é que alguns doentes, fortemente sugestionados pelos rituais mágicos ou místicos, pela força medicinal das poções e do diálogo e pelo ambiente esotérico que se gera durante estes cerimoniais, ou melhoram ou obtêm a cura definitiva das suas enfermidades.
À luz da ciência médica e de tudo o que de mais “sagrado” se defende como parâmetro ou princípio regulador da nobre arte de feição positivista e experimental, tais processos, de cariz eminentemente pré-racionalista, não devem ser admitidos e os seus propósitos e técnicas,  pretensamente  curativos,  devem ser,  como tal, repudiados. No entanto, verifica-se que, sejam quais forem os entraves de ordem política e legal criados ao exercício destas práticas no seio da sociedade Ocidental, há e continuará a haver indivíduos que, por não terem acesso à medicina científica ou por desacreditarem dela, buscam nessas vias alternativas soluções para os seus males. E quando, por mera coincidência, constatam a sua eficiência, mais se arreiga e reforça nos seus espíritos a convicção do seu valor e peso social.. É nessa eficácia, tendencialmente sobredimensionada pelas mentes simples, sugestionáveis ou ingénuas, que reside a chave da continuidade e sobrevivência destas práticas marginais à medicina oficial ou convencional. A dependência que ela (medicina tradicional), inevitavelmente, vai criando através de alguns êxitos, paradoxal aos olhos científicos, constitui matéria de estudo e de reflexão para sociólogos, antropólogos, psicólogos e médicos de reconhecida autoridade no domínio dos fenómenos socioculturais de expressão tradicional.
Assente em dois princípios fundamentais (segundo James Frazer, a lei da semelhança - magia imitativa ou homeopática e lei de contacto ou contágio - que traduz a ação recíproca das coisas, efetiva mesmo à distância, quando o contacto físico se desfez), a magia  é, para muitos antropólogos, uma arte e uma ciência.[7]
O igual atrai o igual. O semelhante produz o semelhante, desde que se acredite.
Esta perspetiva leva-nos à placebo-terapia, uma questão atual e de múltiplas implicações médicas, em especial, no foro bioético e deontológico.
Importa, primeiro que tudo, definir o placebo:
É uma medida terapêutica de eficácia nula ou fraca, sem relação lógica com a doença, mas com uma ação curativa real, desde que o indivíduo julgue estar a receber o tratamento ativo.[8] Esta reação parece dever-se, apenas, a mecanismos psicológicos ou psicofisiológicos que se despoletam no indivíduo quando este confia inteiramente no seu médico e nas suas prescrições.
Ainda que a placebo-terapia cientificamente orientada possa constituir uma medida polémica, discutível ou até reprovável sob o ponto de vista ético, os objetivos atingidos, ou seja a cura, justificam, em muitos casos a sua utilização.
Os resultados obtidos pela tomada de comprimidos ou pílulas, de soro fisiológico ou de soro glucosado, comparativamente aos dos fármacos objetivamente indicados e administrados através de criteriosos protocolos terapêuticos, constituem, algumas vezes, para os investigadores envolvidos em estudos de cinética e biodisponibilidade farmacológica autênticas surpresas: grupos de doentes sujeitos a placebos” revelam, em “ensaios cegos, índices de cura e de melhoria claramente superiores a outros que tomaram medicamentos de estrutura molecular ativa. Nesta circunstâncias, é lícito afirmar que a placebo-terapia, desde que criteriosamente estabelecida e instituída, não só pode resolver, em definitivo, algumas situações de natureza  psicossomática, como poupa o doente aos riscos de iatrogénese, problema sempre a ter em conta quando se usa qualquer fármaco.
Mas o placebo, tal como a definição deixa transparecer, não é apenas um recurso exclusivo do médico. O cirurgião, também ele pode fazer uso desta modalidade terapêutica. E se a definição ou clarificação do perfil psicofisiológico e, sempre que possível, espiritual dos seus doentes é, para o médico, fundamental, para o cirurgião é de vital importância. A incisão cirúrgica é encarada como uma invasão do “Eu”, como uma rutura com o mundo real e concreto, a qual pode ser temporária ou definitiva. J. Sournia pretende mesmo ver, nestes temores exacerbados de cada ser humano, o regresso dos fantasmas, dos mitos que povoam o mundo mágico da infância, “o médico que dá picas”, que corta, que pune o paciente porque detém esse poder e essa autoridade, desde sempre.[9]
O ato cirúrgico gera, inevitavelmente, temor. E as reações que acompanham este estado de espírito são, muitas vezes, difíceis de transpor e de controlar, dificultando, não só, a anestesia preparatória (pelo aparecimento de suores frios, tremores e quadros de distonia neurovegetativa) como ocasionando graves situações pós-operatórias. Entre estas últimas contam-se a abulia, a astenia e estados sérios de choque, dos quais, alguns doentes nunca chegam a recuperar. Compete, assim, ao cirurgião aferir com rigor o perfil de cada um dos seus pacientes, de modo a prevenir complicações irreversíveis. Mas esse importante esclarecimento só nos parece atingível quando a relação médico-doente se estrutura e define segundo uma práxis  verdadeiramente hipocrática, profunda e rigorosa no método, íntima e humanizada na atitude.
Cabe ao terapeuta o difícil papel de, com inteligência e arte, estabelecer essa ligação empática e mágica fundamental.
É evidente que nesse envolvimento profundo, às vezes quase místico, gerado entre paciente e cirurgião, criam-se dependências psicológicas algo complicadas. Há mesmo doentes, especialmente do sexo feminino, que, mercê das suas tendências masoquistas, se sujeitam a intervenções cirúrgicas sucessivas, mantendo, permanentemente, as mesmas queixas ou arquitetando outras, refletindo um grau de histeria hipocondríaca difícil de solucionar por esta ou por qualquer outra via terapêutica. A placebo-terapia cirúrgica é, no entanto, em alguns casos, diz-nos Sournia, a única alternativa de tratamento e, embora em confronto com todos os princípios éticos defendidos pela medicina científica, deve continuar a ser criteriosamente recomendada e executada.
Assim, por exemplo, uma simples cicatriz resultante de uma incisão superficial da pele ao nível do apêndice, desde que o doente tenha sido sujeito ao ritual de uma preparação anestésica e cirúrgica (aligeirada ou apenas simulada) e acredite ter sido operado e liberto do seu mal, pode resolver, de vez, as suas queixas de natureza psicossomática, até aqui renitentes a todos os esquemas terapêuticos ensaiados.
Na verdade, nem um doente deve ser considerado apenas um ser puramente físico, nem uma intervenção médica ou cirúrgica pode ser encarada como um ato estritamente mecânico, frio e desumanizado, nem e a cura resulta somente de uma boa técnica manual ou do rigoroso cumprimento de formulários ou protocolos terapêuticos. Não! Dependem, acima de tudo, de uma boa dose de magia e de espiritualidade, geradoras da empatia determinante do firme desejo de curar e de ser curado, nesse encontro especial, ainda que fortuito, estabelecido entre o médico e o doente.
 
Bibliografia
 
HOEBEL, E. Adamson e FROST, Everett L., Antropologia Cultural e Social, São Paulo, Editora Cultrix, 1984
LOBO, Elvira, A Doença e a Cura - recorrência à bruxaria na procura de saúde, Prefácio de Moisés espírito santo, V.Nova de Gaia, Estratégias criativas, 1995
MÉDECINE de France, Nº 209, Paris, Olivier Perrin Éditeur, 1970
MEDICINA e Saúde - História da Medicina, Vol. I, São Paulo, Abril Cultural, 1969
MIRA, Matias Boleto Ferreira de, História da Medicina Portuguesa, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1947
REVERTE, José M., Antropologia Médica I, Madrid, Editorial Rueda, 1981
SELIGMANN, Kurt, História da Magia, Colecção Esfinge, Lisboa, Edições 70, 1976
TITIEV, Mischa, Introdução à Antropologia Cultural, Traduç. de João Pereira Neto, Prefác. de Jorge Dias, 3ª Edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
 
 
 


[1] Kurt Seligmann, História da Magia, Lisboa, 1976, p. 435.
[2] Idem, ibidem
[3] Matias Boleto F. de Mira, História da Medicina Portuguesa, Lisboa, 1947, p 181.
[4] “Ciência e superstição”, in Medicina e Saúde - História da Medicina, Vol. I, São Paulo, 1969, pp. 254-6.
[5] O mana, força poderosa que fica para além da compreensão, da observação direta ou do controlo do indivíduo comum, é um atributo sobrenatural de pessoas e coisas com uma ilimitada capacidade de modelar, provocar ou submeter vontades, atitudes ou fenómenos conotados com o Homem, com a Natureza ou com o Cosmos.
[6] Elvira Lobo, A Doença e a Cura- recorrência à bruxaria na procura da saúde, V.N.de Gaia, 1995, p.72.
[7] José M. Reverte, Antropologia Médica I, Madrid, 1981, pp. 421-30.
[8] Jean Charles Sournia, “Mythologies de la Médecine Moderne”, in Médecine de France, Nº 209, Paris, Olivien Perrin Éditeur, 1970, p. 20.
[9] Idem, p. 18.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ANO NOVO

Ano Novo
 
Ano Novo, Ano Velho
Circo que a todos mostrou:
Sem magia, sem cartola
Apenas com um COELHO
Houve alguém que aprisionou
O país numa gaiola.
 
Ano Novo, pra lembrar
O que nos resta de esperança
Depois de tanta agonia.
Estamos prontos a lutar
Criar ventos de mudança
E sonhar outra utopia.
 
Ano Novo, vida nova
Que se enterre na memória
O Ano Velho, azarado.   
Há que cantar esta trova:
Reescrevamos outra história
Sobre os escombros do passado.   
  
Lisboa, 31.12.14

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DIÁLOGO ENTRE A MEDICINA, A HISTÓRIA E O FUTURO

DIÁLOGO ENTRE A MEDICINA, A HISTÓRIA E O FUTURO 
 
Lucien Febvre, figura marcante da primeira metade do século XX, é ainda hoje considerado, pela maioria dos historiadores contemporâneos, como um pioneiro da Historiografia Moderna. Construir e compreender a realidade histórica passa, na sua ótica, pelo estudo da realidade social, considerada quer nas suas particularidades quer no seu todo. Atingir essa perspetiva globalizante e, ao mesmo tempo, multifacetada, só é possível, defende este autor, através de um  esforço científico interdisciplinar e conjugado. É nessa participação que Lucien Febvre vê a “fórmula do futuro” para a História. Por outro lado, posicionando-se como anti-futurista, o autor não acredita que as máquinas do futuro possam vir a substituir o “homem”, enquanto construtor da História.
Esta reflexão sobre o pensamento de Lucien Febvre, patente no seu estudo (“Exame de Consciência de Uma História e de um Historiador” In Combates pela História I ),  é, quanto a nós, um exercício intelectual interessante, uma vez que nos permite  confrontar duas atitudes distintas do mesmo autor: o espírito inovador aberto a novas formas, concretas e reais, de “fazer História” e a posição conservadora e de rejeição relativamente aos progressos tecnológicos do futuro aplicados a esse mesmo processo. O “homem”, enquanto agente da construção histórica é e será sempre, no seu entender, insubstituível. Nenhuma máquina assumirá, na plenitude, o seu papel enquanto agente historiográfico. No século XX, Lucien Febvre abriu, definitivamente, o caminho a esta discussão – dos rumos da História, do “homem” e da “máquina”, enquanto elementos estruturantes e/ou determinantes do processo histórico.
Confrontados agora, no início do século XXI, com sofisticados métodos e técnicas de engenharia biomédica e avanços consideráveis no domínio da astrofísica, que  permitem pôr em causa muitas certezas do presente e lançam sérias inquietações sobre o futuro, a Sociedade e o Homem precisam, realmente, de se situar e de encontrar novas formas de inter-relação, neste paradigma histórico pleno de  receios, dúvidas e contradições.
A neo-historiografia e Lucien Febvre darão, ou deram já, lugar a diferentes correntes e formas de pensar e de escrever a História ou, pelo contrário, imutáveis no método e nos processos hermenêuticos,  continuam modelos atualizados e coerentes em relação à realidade atual?
São estas interrogações que nos motivaram a proceder a este trabalho de análise e reflexão crítica, dissecando a opinião e as ideias de Lucien Febvre e contrastando-as com novos conhecimentos, descobertas e experiências nos domínios da  Física e das Ciências Biomédicas. 
Não rejeitando a “História feita com textos” (1), fórmula célebre que esteve (e está) subjacente ao trabalho de elaboração histórica positivista, Lucien Febvre disserta sobre as conotações dessa frase, paradigma, no fundo, da linha historiográfica que o antecede. Nessa historiografia que critica, a História e a escrita aparecem indissociáveis, como se o “homem” pré-Herodotiano estivesse arredado da cultura histórica. A Pré-História, sem textos, encerra efetivamente o período mais longo da existência do “homem” cultural. A “exumação” desta enorme lacuna no conhecimento “histórico”, sem recorrer a textos, criaria no entanto importantes recursos, não menos eficientes e reveladores da inesgotável “face escura” da Humanidade – a Pré-História. E, desse esforço, resultariam novas perspetivas e tecnologias, capazes de desnudar o “homem” histórico de uma outra forma, mais real e humanizada, jamais pressentida através de textos.
A História Económica, a História das Técnicas, a Geografia Humana, a Estatística, a Demografia, a Linguística, complementares da Antropologia, da Arqueologia, da Paleoantropologia e da História da Medicina, fariam pouco a pouco a sua aparição. Do seu esforço conjunto, resultaria uma nova possibilidade de abordagem historiográfica. O “homem” histórico e pré-histórico aparecem cada vez mais próximos e melhor identificados na sua realidade cultural e existencial.
Lucien Febvre, através desta nova maneira de encarar e descobrir o “homem” do passado, procurou demonstrar o obsoleto que existe na posição positivisto-romântica da História.
Historiografia assente apenas em “palavras, datas, nomes de lugares e homens” (2), eis a preocupação do historiador durante séculos. A Universidade, mesmo nos países intelectualmente mais diferenciados como a França, contentava-se com críticas de textos, desde que abrilhantados por uma eloquente dialética, ainda que as questões observassem superficialidades ou assuntos comezinhos sobre a vida deste ou daquele rei, príncipe ou fidalgo. Curiosamente, ainda hoje, alguns diletantes menos preparados e familiarizados com os novos métodos historiográficos, convictos, na sua ingenuidade, de que “de historiador e louco todos têm um pouco”, entregam-se a missões de historiografia elementar de feição romântica, apenas alicerçados nas velhas fórmulas de fazer História identificadas com listagens de palavras, datas, números, nomes de lugares e homens.  Em nossa opinião, porém, estas referências, embora devam ser consideradas tentativas simplicistas de fazer História, podem constituir achegas importantes para o historiador, desde que entendidas num contexto sociológico global, explicado e compreendido à luz das várias disciplinas subsidiárias da Moderna Historiografia. É essa exigência que marca a diferença. A Demografia, a Estatística, a Epidemiologia, a Antropologia, a Sociologia e outras tantas ciências terão sempre que se pronunciar sobre as razões dos factos e fenómenos históricos e sociais. 
A nova atitude historiográfica, defendida L. Febvre, seleciona os elementos históricos e pretende assim compor a História (que considera, sempre, incompleta) dos homens, dos tempos e lugares. A procura dos elementos rejeitados por  aqueles  que   procederam   àquele   joeirar  tão  ignorante  e  descuidado  (pré-determinado e premeditado algumas vezes), aliada a factos aparentemente superficiais e sem valor, virá a possibilitar a reconstrução da História, mais completa e verdadeira. O puzzle histórico tornar-se-á mais fácil de resolver e, assim, o “homem” compreender-se-á melhor.
Da investigação apurada dos historiadores, do seu trabalho paciente e judicioso, das hipóteses e conjeturas levantadas, das leis gerais traçadas a partir dos factos agora mais claros e inteligíveis, cria-se uma nova História e um novo conceito do “homem” histórico e cultural.
Todavia, “sem teoria não há História” (3). Não se deva empolar demasiado o papel desta nova filosofia historiográfica, defendida por L. Febvre, identificada com os Annales. “Esta, linha neo-positivista que sobrevaloriza e mitifica o instrumento” (4), secundarizando a teoria, não pode nem deve querer substituir todos os outros métodos, qualquer deles participantes da fundamental importância na reconstituição histórica.
Na 1ª parte do Capítulo I da obra citada (Combates pela História I), o autor estabelece alguns comentários sobre os dois princípios básicos do pensamento positivista: “não formular hipóteses (hypotheses non fingo) e não escolher factos”, condições fundamentais a ter em conta pelos historiadores seus doutrinários.
Criticando posições que considera erradas e limitativas à investigação e ao avanço do conhecimento histórico (como aliás, das demais ciências), L. Febvre toma como exemplo o trabalho do histologista e, nesta circunstância, observando os procedimentos metodológicos de uma disciplina científica exata, compara os métodos histológico e historiográfico, colocando indiscutivelmente a História ao mesmo nível. De uma forma indireta, este historiador considera esta área do conhecimento como uma ciência, estatuto, este, que nem todos os investigadores lhe reconhecem.
Lucien Febvre defende uma História assente no esforço científico inter-disciplinar. O trabalho individual (que caraterizou, durante décadas, o processo de investigação histórico e sociológico) considera-o artesanal e sem a eficácia que a concordância e cooperação científica e humana poderá propiciar. É nesta conjugação de esforços especializados, nesta participação comum, que L. Febvre vê a “fórmula do futuro” para a História (5).
Com a complexização dos conhecimentos e das técnicas, forçosamente, consegue-se (e tem-se conseguido) penetrar a intimidade mais profunda dos fenómenos sociais, desde os mais ínfimos aos de maior significado, todos eles elementos identificativos e constituintes da mesma construção, da mesma História. Os textos, por exemplo, para além da sua carga escrita, melhor ou pior interpretada pelo investigador, possuem tantas vezes informações subjetivas, impercetíveis pelos métodos de análise a que são sujeitos. A partir da sua natureza material, por exemplo, quantas informações, dúvidas, mistérios, pistas, conjeturas se podem levantar ou formular!
A análise de matérias, hoje possível e atingindo um rigor considerável, apoio importantíssimo para os paleógrafos, através do estudo das tintas, do papel e carateres, permite compreender melhor os factos ou passos históricos que a eles se prendem ou relacionam. Deste modo, a História é sempre uma ciência inacabada. Longe de resolver completamente os seus enigmas e cristalizar na descoberta a sua ação, a História (não conformista), despoleta questões continuamente, permitindo-nos, decerto, aproximar da verdade um pouco mais e criando, ao mesmo tempo, novas dúvidas.
História “uma ciência com leis”, admite L. Febvre, desde que essas leis não constranjam a ação, sirvam apenas para agrupar e relacionar “factos até então separados” e, desta forma a tornem também “numa unidade viva da ciência”. A problemática atual da História é promover o acordo entre o institucional e o contingente (6).
Se tomarmos à letra a palavra “contingente”, que significa, entre muitas coisas, o que pode ou não acontecer, cabem nesta definição “o possível e o impossível”. Ainda que aparentemente pareça só tratar-se de um problema dialético ou filosófico, vamos tentar analisar a posição de L. Febvre, em relação a este aspeto.
Este autor, identificado naturalmente com a sua época, a qual nos aparece de certo modo limitada ainda pelos impossíveis (1ª metade do século XX), adianta-se ao pensamento do seu tempo, quando nos diz acreditar nos “progressos que hão de vir de outras ciências” (7), subsidiárias da História, cuja acção permitirá uma melhor interpretação e conhecimento do passado. Todavia, não concebe que, no futuro, o “homem” possa vir a dispor de um aparelho, “impossível de encontrar”, capaz de fazer ouvir ou reproduzir “depois de um sono de séculos”, fielmente registada para a eternidade, “a própria voz do passado captada ao vivo” (8)..
L. Febvre, um verdadeiro inovador, um historiador progressista para a sua época, adepto de uma historiografia em novos moldes, não consegue admitir, pela sua própria formação (com algum tradicionalismo cultural), a História revolucionada pelas técnicas do futuro (9).
As teorias e os conceitos dogmáticos da Escolástica Medieval encontraram a sua rutura na racionalidade moderno-contemporânea.
No campo fenomenológico, Newton lançou o desafio, criando um pensamento novo e, durante séculos, foram inabaláveis as suas teorias.
Alguns séculos depois, Maxwell, Hertz e Augustin-Jean Fresnel, este último relativizando os conceitos de Newton no campo da Física, abalaram novamente o Mundo. Os dogmas ruíram uma vez mais.
Não há verdades universais, nem impossíveis. O impossível de hoje é o possível de amanhã.
Einstein, marcando uma completa viragem no pensamento científico, reformularia outras tantas verdades aparentemente indestrutíveis. Segundo ele, os fenómenos jamais poderão voltar a reproduzir-se (para tempos diferentes), ou seja, a História é irreversível. No entanto, a impossibilidade de recriar o acontecimento, não implica que se não possa reconstruir o facto histórico, a partir de múltiplas informações gravadas, por exemplo, no subconsciente ou, quem sabe, no inconsciente coletivo.
Os nossos sentidos captam e, aqui mesmo, começa a subjetividade do real. A interpretação e a integração do fenómeno são ambas operações de caráter parcial, ainda que sirvam suficientemente para a sua inteligibilidade. Nessa medida, pode reconstruir-se o facto histórico, mas a própria natureza humana, limitada e subjetiva, não oferece grande fiabilidade e rigor como testemunho desse registo.
Com a Física Quântica oscilaria novamente o que parecia definitivo e estável e, nessa medida, mesmo algumas ideias de Einstein acabariam por se tornar parcialmente desajustadas à explicação de certos fenómenos, encarados num outro âmbito de crescente complexidade.
À luz dos conhecimentos atuais, os fenómenos de premonição ou descrições mais ou menos exatas de passados longínquos, em que o contacto físico e consciente dos relatores está fora de questão, têm preocupado muitos cientistas. As propostas explicativas são múltiplas, onde se entrecruzam as ciências biomédicas, a metafísica, a psicanálise e a parapsicologia.
Com a hipnose, tem-se alargado o conhecimento do nosso subconsciente. A quantidade de impressões retidas, não sujeitas à discriminação do consciente, é espantosa. Através desta técnica de sugestão constroem-se etapas da vida do “homem”, aclaram-se lacunas da sua identidade, traçam-se aspetos da sua história remota pessoal. Reconstituem-se, a partir desse profundo arquivo subconsciente, circunstâncias, factos e fenómenos presenciados tantas vezes dum modo desinteressado e vago. Mas os sentidos humanos captaram o fenómeno, o facto foi presenciado sem se dar por isso, a imagem do pequeno pormenor reteve-se na retina e a gravação não discriminada, sem passar pela consciência, processou-se. Por meio da hipnose, seriamente conduzida, os resultados obtidos nestes casos são espetaculares.
O cérebro continua misterioso e ainda incompreensível em muitas das suas funções, mas não é intransponível, nem impenetrável.
Será que esses milhares de milhões de informações conscientes, subconscientes, objetivas, subjetivas, electroquimicamente armazenadas no cérebro, poderão algum dia vir a ser reproduzidas, como se processa num filme? A historiografia do tempo social ou tempo médio beneficiaria, sem dúvida, com tal possibilidade. As fontes vivas, os homens participantes diretos nos fenómenos, enriqueceriam a construção da História com as suas preciosas informações arrancadas desses arquivos da mente, por ora, ainda tão inacessíveis.
O conhecimento científico e tecnológico tem avançado nos últimos 60 anos de uma forma meteórica. E, afirmamo-lo uma vez mais, assistimos dia após dia à destruição de impossíveis, apenas viáveis no domínio da ficção e da utopia.
Poder-se-á algum dia falar de memória cultural de transmissão genética? Servirá ela para a reconstrução da História? Se assim for, de que via catártica iremos precisar? Da mística, da parapsicologia, da ciência, de todas elas?
Há locus de memória aparentemente transmissíveis e a ciência começa a encarar este fenómeno com bastante seriedade. A  etiologia experimental deu já alguns passos significativos para a sua comprovação (10).
Passam-se, de geração em geração, informações que consideramos responsáveis por uma memória coletiva biológica. Isto, é indiscutível. Será que os genes, capazes de reter impressões e carateres biológicos, transmissíveis ao longo de gerações, não possuem também elementos de memória individual ou coletiva de ordem cultural? Admitindo que sim, como se explica que o comum dos mortais não dê por isso? Será que essa eventual memória poderá, mesmo, ficar acessível através de técnicas e/ou fármacos? Porque não acreditar que o cérebro, reunidos os fatores adequados, pode um dia disponibilizar-nos semelhante informação? A predisposição genética de um indivíduo a determinadas doenças, hoje indiscutível à luz da medicina preditiva ou predizente, não determina obrigatoriamente que tais patologias se manifestem durante a sua vida, a menos que se reúnam condições favoráveis ou o “terreno” apropriado. A memória genética foi ativada por determinado fator ou circunstância e o organismo reproduziu a “doença herdada da família”.
Como explicar também a capacidade, que já foi reconhecida em algumas pessoas, de regressar a um passado remoto, aquém da sua própria existência física, por vezes, relembrando como que vivências anteriores, sob a influência da hipnose? Onde se processou (processa) este arquivo de memória? E como se transmitiu?
Refletir sobre tais questões será enfermar de ingenuidade, de imaginação criadora exacerbada, de tendência especulativa da utopia e do fantástico? Admitamos. Nada aqui encontramos de exatidão experimental e científica. Ademais, as escolas e os homens que representam os valores mais elevados do conhecimento e da cultura têm habitualmente um certo receio de aderir claramente a tais ideias e assuntos. E, assim, raramente a ciência anda ligada a estas matérias. Os seus adeptos, mesmo quando destacadas figuras do mundo científico, não encontram via fácil para tais especulações e reflexões consideradas pela ortodoxia, em todas as épocas, verdadeiras ousadias, anátemas a combater e a punir. Deste modo, ou calam os resultados dos seus estudos ou sofrem as naturais repercussões, quando se atrevem a proferir tais heresias.
Mas, até hoje, onde e quando é que a inovação é ou foi logo (bem) aceite ? Se não fosse o pensamento ousado de Hipócrates, bem heterodoxo para o seu tempo, a genialidade dos pensadores proto-cientistas da Época Moderna, em particular do Renascimento, e o espírito insatisfeito e prático de Robert Koch, Pasteur, A. Fleming e de tantas outras figuras da contemporaneidade, a medicina, tal como outras áreas do conhecimento, dificilmente se dissociaria de influências pré-racionalistas, crenças, superstições e bizantinismos de cariz medieval. O sonho, a ousadia, o sentido crítico, a insatisfação, a dúvida metódica, a genialidade e a fé têm feito avançar o Mundo. Neste permanente processo de revisão, de procura e de mudança, as ciências nada têm de estável ou absoluto e todas elas não passam de oposições, conflitos, antinomias, avanços, recuos, certezas lógicas hoje, erros absurdos amanhã (11).
Na verdade, se temos que acreditar em algo, acreditemos hoje que seremos capazes de pôr em dúvida amanhã; senão, poderemos ser ultrapassados pelo futuro.
Lucien Febvre,  homem de espírito não hermético às inovações, parece no entanto não entender que essa mesma ciência que apregoa, transpondo, uns após outros, graus sucessivos de conhecimento, é castrada à partida pela sua atitude pouco futurista. Limita-lhe o “desejo insaciável de alargar o horizonte” (12), esse mesmo desejo que poderá vir a ser a chave mestra com que se abrirão os impossíveis, com a qual se poderá também reconstruir a História.
O “homem” jamais virá a dispor de “aparelho, impossível de encontrar”, capaz de registar “a própria voz do passado captada ao vivo”, diz L. Febvre. Para construir “o passado de que tem necessidade” (13), o “homem” deverá contar apenas com o seu trabalho mental. Não deverá, pois, esperar que máquinas ou outros meios utópicos possam vir a estar ao seu alcance para a recriação fiel desse passado. Lucien Febvre parece rejeitar, liminarmente, a inovação e o incontestável desenvolvimento no domínio das técnicas e instrumentos mas, ele  próprio, um “cientista” do século XX, atento aos grandes avanços e descobertas do seu tempo, deixa antever nas suas ideias e em alguns dos seus escritos as tremendas possibilidades que a evolução científica e tecnológica poderá trazer à História.
Convictos de que estas últimas reflexões sobre as ideias de Lucien Febvre poderão vir a compreender-se um pouco melhor, se tivermos em conta outras achegas favoráveis a este diálogo científico, propomo-nos analisar algumas transcrições da obra do eminente astrofísico John Gribbin, “À procura do gato de Schrodinger”, trabalho considerado muito válido no âmbito da Física Quântica, hoje, uma área científica com um alcance ainda insuspeitado.
Segundo a relatividade de Einstein, “a marcha de um relógio é tanto mais lenta quanto mais depressa este se move. À velocidade da luz o tempo pára. Ora um fotão desloca-se à velocidade da luz. Isto significa que para um fotão o tempo não tem significado”…, “viajar no tempo, não significa nada para um fotão(...)”14). As “equações da relatividade permitem viajar  no tempo,  e isto  pode  ser  percebido  com  facilidade  através de diagramas espácio-temporais”. O método para viajar no tempo “envolve uma distorção local da estrutura espácio-temporal, de tal maneira que nessa região, o eixo do tempo, tem a direcção de um eixo do espaço na região não distorcida. Uma das direcções espaciais desempenha o papel de tempo e esta troca entre espaço e tempo permite viajar no tempo”. Esta ideia encontra já a possibilidade teórica de concretização, de acordo com os cálculos realizados pelo matemático americano Frank Tipler (15).
“A viagem no tempo verdadeira pode não ser impossível mas sim muito difícil e muito, muito improvável. Contudo, isto torna aceitável a viagem no tempo ao nível quântico. Quer a teoria quântica, quer a teoria da relatividade permitem, de uma forma ou de outra, viajar no tempo. E tudo o que é aceitável segundo estas duas teorias, por mais paradoxal que se apresente, deve ser levado a sério. E, na verdade, viajar no tempo é um dos aspectos mais estranhos do mundo das partículas, onde é possível tirar algo do nada, se se for suficientemente lesto.” (16).
E se estes impossíveis se tornarem realidades, o que será da História no futuro?
Estará o “homem” realmente perto do cimo, “de onde se veria a aurora surgir do crepúsculo”(17), ou  continua  na  base  da  “montanha”, acabando  de  entrar  agora  na  Pré-História planetária?? “A ciência, em vez de ser o foco da nova consciência, contribui para o novo obscurantismo” (18).
O “homem” marcha a passos largos rumo à complexidade. Quais os seus limites, qual a sua meta? Será ele capaz de compreender a complexidade que criou, para poder continuar o trabalho histórico? E, nos seus “Combates pela História”, saberão os futuros historiadores encontrar o(s) método(s) adequado(s) ao exercício da sua atividade, nessa complexidade crescente e imparável, ou não irá a ciência histórica poder acompanhar o próprio homem?
 
Notas e Referências Bibliográficas
 
1. FEBVRE, Lucien ― Exame de Consciência de Uma História e de Um Historiador. In FEBVRE, Lucien ―  Combates pela História I. Lisboa: Editorial Presença, 1977, p. 19.  (Biblioteca das Ciências Humanas)
2. Idem, p. 22.
3. FONTANA i LÁZARO, J. ― Ascensão e decadência do Annales apud MENDES, José M. Amado ― A História como Ciência: Fontes, Metodologia e Teorização. Coimbra: Coimbra Editora, 1987, p. 78.
4. Idem, ibidem
Este movimento historiográfico, constituído em torno do periódico francês Annales d´histoire économique et sociale, carateriza-se pela incorporação de métodos das Ciências Sociais aplicados à História.
5. FEBVRE, Lucien ― Op. Cit. p. 32.
6. Idem, p. 33-35.
7. Idem, p. 33.
8. Idem p. 34.
9. Voltaire, já em meados do século XVIII defendia uma História de todos os homens e não, unicamente, de reis e privilegiados. A História económica, demográfica, das técnicas e dos costumes, deveria substituir a estritamente política, militar ou diplomática.
10. Grupos de várias gerações de ratinhos (animais de laboratório), são sujeitos à seguinte experiência: para atingirem a comida têm de passar por um labirinto complicado. Os descendentes de 1ª geração dos ratos que,  após algumas tentativas, haviam conseguido o objetivo, chegam também ao alvo com um menor número de tentativas, quer em relação aos próprios pais, quer em relação a outros, filhos de ratos que mais dificilmente lá chegaram ou não conseguiram mesmo os seus intentos, no tempo determinado. Os descendentes de 2ª geração dos ratinhos mais aptos continuam a manifestar uma maior capacidade que os seus antecedentes, diminuindo, em alguns casos, consideravelmente, o número de vezes necessárias para chegar à comida. Os labirintos, embora iguais, são mudados permanentemente, para obviar os cheiros. Estar-se-á perante uma transmissão experiencial genética? De acordo com os conceitos atuais de genética, é altamente improvável que em tão pouco tempo se tenha verificado uma mutação responsável por tal diferenciação de comportamento. Então como se transmitirá, efetivamente, esta aparente informação? Deixemos às Neurociências essa reflexão.
11. FEBVRE, Lucien ― Op. Cit.  p. 35.
12. Idem, p. 36.
13. Idem, p. 35.
14. GRIBBIN, John ― À Procura do Gato de Schrodinger: A Física Quântica e sua influência no Mundo Atual. Lisboa: Editorial Presença, 1984, p. 133.
15. Idem, p. 135.
16. Idem, p. 136.
17. FEBVRE, Lucien ― Op. Cit. p. 36.
18. MORIN, Edgar ―  O Método II: A vida pela vida. Lisboa: Publicações Europa-América, 1980, p. 418. (Biblioteca Universitária)