quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

TAC, TAC, DO MARTELO

Tac, tac, do martelo,
Continua a bater forte,
Livra-me do pesadelo,
Poupa-me às garras da morte

Paredes de rocha dura
Não deixam passar ninguém,
Mas batendo com bravura
Racham aqui e além

Há quem não bata por falta
De jeito na profissão,
Mas aprende na revolta,
Dia a dia, a dizer Não.

Tac, tac, do martelo
Bata-se forte o engano
Com firmeza e sem desvelo
Esmague-se já o tirano.    

Tantas palavras devassas
E promessas por cumprir,
Geram ódios, ameaças
Tão difíceis de gerir.

Verga a força do algoz,
Da opressão, da escravatura,
quando o martelo da voz
bate com raiva e censura.

Tiranos do meu país
É tempo de reflexão,
O povo vive infeliz
E traz martelos na mão

Tac, tac, que o martelo
Enquanto bate vos dói,
Mas só ficais sem castelo
E nada mais vos destrói.

Tac, tac, do martelo
Tiranos tende cautela,
Que ele também é cutelo
Quando a raiva o atropela.

E não se queixem da sorte
Da falta de sensatez,
Que este martelo, sem norte,
Já perdeu a lucidez.

Tiranos feitos de gelo
Já ninguém chora ou sorri,
Ouçam bem o meu apelo,
Olhem que a morte anda aí.

Vossos atos absurdos
Levam-me a querer alertar-vos,
Mas não me ouvis, sois bem surdos,
Que conselhos hei de dar-vos?!

Tac, tac, do martelo,
Entre a bigorna e a fornalha,
Dentro do vosso castelo
Ireis arder como palha.

Tac tac, a governar
assim, perdereis o alvará,
Quando a faúlha saltar
Nada mais vos restará.

João Frada
Lisboa, 09.01.14

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O TEU PERFUME

 Conheci-te meu amor
Naquela cálida tarde
Ali mesmo, a céu aberto,
Desnudada pelo calor,
Inundada por dois sóis,
Coberta apenas por tranças.
Olhando o céu e as nuvens…
À sombrinha, pensativa,
Contando sonhos, esperanças
E um campo de girassóis.
Um anjo passou e viu-te
Assim tão calma, a pensar.
E pra não ter tentações
Soprou leve, então, a brisa
Que contente e insegura,
Mais parecendo um queixume
Parou também pra te olhar.
Um manto leve de folhas
E de pétalas cobriu-te
Os ombros nus e um perfume,
Uma mágica mistura
De Natureza e mulher
Estendeu-se pelo mundo fora
Cobrindo rios e terras
Entre janeiro e dezembro.
Desde então, aquele aroma
Do teu corpo ali, tão nu,
Com cheirinho a flores de esteva,
Papoilas e girassóis,
Margaridas cor de linho
E outras tantas que não lembro,
Flores do campo como tu…
Inunda montes e serras
Como as voltas de uma dança.
Só eu sei que é teu perfume
Meu amor, minha lembrança,
Por cheirar a rosmaninho.

Lisboa, 06.01.14

sábado, 4 de janeiro de 2014

GOVERNO DE GAROTOS COM CRIANÇAS ASSESSORAS

http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/2013/11/governo-de-garotos-com-criancas.html

Seguramente, ou devo andar meio zombie, de tanto me confrontar diariamente com desvarios, despautérios e desmandos governamentais que me tiram o sono, ou então, a época natalícia, de algum modo, desviou-me ou abrandou-me a atenção bem como a acuidade visual, já que, no meio de tantas mensagens recebidas estas últimas semanas estava esta, datada de novembro, a qual, apenas hoje me fez ferver em pouca água. 
Como é que um funcionário público municipal, não vereador ou autarca, ganha mil e pouco euros de vencimento, independentemente das suas habilitações universitárias e do trabalho zeloso que cumpre;  um técnico hospitalar, também licenciado, com responsabilidades acrescidas e desgastantes, sujeito a horários contra-natura, recebe pouco mais de mil euros mensais; um médico especialista, com seis anos de formação curricular, com mais cinco de formação complementar, para se tornar especialista, sem qualquer privilégio, subvenção ou mordomia a acompanhar o seu exercício profissional diário, não ganha mais do que mil e oitocentos euros mensais; um professor do ensino secundário, licenciado, mestre ou doutorado, aufere um salário que não ultrapassa, em final de carreira, mais de mil e oitoicentos euros,  no seu conjunto, todos estes profissionais dignos representantes da população anónima do país, sujeitos a pesadas obrigações, a taxas de austeridade e, como é óbvio, a responsabilidade criminal quando os seus atos são postos em dúvida, ao contrário de outros servidores públicos, considerados castas especiais, que se refugiam contantemente no seu estatuto de imunidade e de impunidade e apenas são punidos politicamente de quatro em quatro anos, quando são…e há um primeiro ministro, um governo e uma classe política que conluiam, pactuam, alimentam, fomentam situações como esta?! Contratam como assessores garotos a peso de ouro (seguramente também com direito a cartões de crédito e a complemento da mesada para almoços, telemóveis, viagens e atividades de relax), cito, garotos, júniores que são considerados especialistas, sabe-se lá porque quem, independentemente da sua tenra idade (entre os 24 e os 29 anos) e das traquinices que possam caracterizar a sua recém-formação curricular e atuação profissional ao serviço de um governo, gerido por séniores que não passam também de garotos, incompetentes, incongruentes, idiotas e imorais. E os que o não são fazem figura disso.  
É preciso, mesmo,  ter lata. Quando toda a gente suporta uma austeridade tremenda como a que se vê, tocando bem fundo, sobretudo, classes que, embora trabalhem desalmadamente, ganhem uma miséria e sejam constantemente sangradas em nome de uma solidariedade e de uma equidade social utópica, vão empobrecendo dia a dia, correndo o risco de desaparecerem, surgem exemplos destes vindos do Governo! 
Apetece-nos gritar bem alto o que o professor José Hermano Saraiva já disse um dia: “ Estamos [mesmo] a ser governados por gente menor”.

João Frada
Professor Universitário   

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ANO NOVO 2014

Passaram dias, já anos,
E o Mundo deu tantas voltas
Dentro de ti e de mim,
Que quase perdeu o norte
Pra rodar sem nós, sozinho.
Colheu afetos, paixões
Dias de azar e de sorte
Palavras vagas e soltas
Firmes certezas, enganos
Ilusões, horas amargas,
Horas doces, frustrações
Esperanças estreitas e largas.
Rodando tão imperfeito
Foi sinuoso o caminho
Em tantas ocasiões.
De rodar perdeu o jeito
Mas nunca perdeu o rumo
Por sentir, dentro do peito
De nós dois, tanto carinho.

João Frada

Mira, 01.01.2014

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

PORTAL DOS CIBERNAUTAS

Aqui nos vemos e ouvimos
Nesta janela de encantos
Que se abriu entre nós dois
Como um portal de paixão.
E enquanto os olhos se veem
No momento do adeus
E as mãos enviam acenos
Nossas bocas trocam beijos.
E eu sinto sempre, depois,
Quando chega a solidão
E as saudades me consomem
 Teus lábios dentro dos meus.

João Frada

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A CEIA DE NATAL

De um pirilampo fiz uma lua-cheia,
Do pecado, a esperança renascida.
Fiz um presépio com três grãos de areia
Que foi cenário e palco de uma vida.

Da minha fé fiz manto guarnecido
Com retalhos de lã cortada a sesgo
E de um madeiro tosco e carcomido
Fiz um berço de palha e musgo seco.

Ali iria romper a alvorada
Tão límpida e serena, como um sino
Anunciando ao mundo ser chegada
A hora de nascer do Deus-Menino

Marcado pela pobreza, mal chorara
Jesus bebeu no seio de Maria
Um fio de leite, apenas, que brotara
Das migalhas que a Virgem não comia

De pétalas de flor escorri sumo
Macio e leve; do pólen, a geleia;
De uma gota de chuva, espremi néctar
Que lhe dei a beber durante a ceia.

João Frada, Olhos nos Olhos da Alma, Edições CLINFONTUR

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Provas de Avaliação de Professores, Carlos Alberto Amorim e Política Ferroviária


"PSD saúda o acordo alcançado na Educação

O PSD elogiou hoje a solução encontrada para as avaliações de professores, como um exemplo do que é necessário na política portuguesa. Carlos Abreu Amorim sublinhou o papel desempenhado pelo provedor de Justiça, no acordo alcançado...” 
A propósito da cedência do ministro Nuno Crato, confrontado com a pressão de Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, Carlos Alberto Amorim, fazendo uso da sua “sempre tão cuidadosa e eloquente retórica”, elogiou, e muito bem, a forma como decorreram as negociações e frisou que “essa ideia de recuos e avanços, o grupo parlamentar do PSD, [do qual faz parte], não tem essa perspetiva ferroviária da política portuguesa. (…) As políticas iniciais não têm que se manter inalteráveis.” 
As suas frases pomposas, é certo, mas também algo confusas, parecem-nos ambíguas na forma e no conteúdo. Na verdade, há políticas que não mudam mesmo, sobretudo, aquelas que persistem em massacrar a população, retirando-lhes todos os privilégios adquiridos ou pondo em causa o que é de mais elementar em termos de sobrevivência económica e financeira. Quando à inalterabilidade das “políticas iniciais”, nunca uma afirmação foi tão verdadeira e inquestionável. Carlos Amorim, tal como outros que têm passado pelo Governo, soube muito bem definir o seu pensamento. Podemos  depreender que, na governação, venha quem vier, e a prova está aí à nossa volta, nada recua para melhor, tudo avança para pior. As tais políticas iniciais apenas se somam e continuam umas às outras.  
Quanto à referida postura de avanços e recuos, que Carlos Amorim caracteriza como “política ferroviária”, e supomos que entende tais movimentos, decisões e afirmações, sempre sobre carris, talvez tenhamos de lembrar-lhe de que tal política, que seguiu noutras circunstâncias, não o abona(ra)m nada em termos pessoais, governativos ou profissionais. Poderia ter sido mais sensato e cauteloso, evitando tantos percalços e manobras desajeitadas.  
Num episódio ainda recente em que se envolveu, Carlos Alberto Amorim apelidou os Benfiquistas de “Magrebinos” (Carlos Abreu Amorim, vice-presidente da bancada do PSD, escreveu no Twitter: "Magrebinos: curvem-se perante a glória do Dragão) e, depois, teve de se retratar, (Amorim assume que foi infeliz, 21-05-2013). Aqui está consolidado, de uma forma magistral, o dito recuo da “política inicial”. E ainda bem, neste caso.   
Tristes deslizes de política ferroviária! Aguardemos pelas próximas movimentações descarriladas. 

Professor Universitário
João Frada