domingo, 18 de janeiro de 2015

HISTÓRIA DA CARDIOLOGIA, DAS ORIGENS AO DEALBAR DO SÉCULO XIX: ALGUNS CONTRIBUTOS PORTUGUESES

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Imagem de um coração de mamute, desenhado há cerca de 12 000 anos (gruta de El Pindal, Oviedo (Espanha).

 

 

História da Cardiologia, das origens ao dealbar do século XIX: alguns contributos portugueses.

 
O coração, músculo pulsátil imprescindível à manutenção de todos os fenómenos vitais, parece ter atraído, nas mais diversas culturas e civilizações, a atenção de todos aqueles que, direta ou indiretamente, tentaram compreender a vida e a morte.
Desenhando, pintando, cortando ou dissecando com os seus afiados bisturis (micrólitos feitos de sílex, obsidiana ou cristal de rocha), esquartejando a presa ainda moribunda, o homem pré-histórico construiria as suas primeiras noções sobre o papel deste órgão.
Henry Brevil, especialista em Pré-História e Arte Rupestre, defende sem hesitação que a pintura vermelha da Gruta de Pindal, em Espanha, traduz claramente a localização anatómica do coração de um mamute, parente afastado do elefante.
Dentre as Civilizações Pré-Clássicas, destacamos os Egípcios que, cerca do ano 1085 A.C., nos descrevem com um grande rigor o órgão cardíaco e os seus batimentos, perfeitamente identificados pela palpação dos pulsos.
A leitura do Papiro de Edwin-Smith não deixa margem para dúvidas:
“A contagem de alguma coisa com os dedos (acontece)- para reconhecer o ritmo do coração. Há vasos que saem dele e vão em direção a qualquer parte do corpo... Se um sacerdote de Sekhmet, qualquer médico de swnw... coloca seus dedos na cabeça... em ambas as mãos, no lugar do coração... nas duas pernas, então ele mede o coração... Ele diz...em cada vaso, cada parte do corpo... medem-se os vasos do coração, para conhecer as informações que nele se realizam”.[1]
Henry James Breasted, egiptólogo americano do século XIX, entusiasmado com estas descobertas, atreveu-se mesmo a escrever que os Egípcios não estavam muito longe de descobrir a circulação do sangue, realização que só no século XVII viria a verificar-se pelo contributo de William Harvey.
Mas a sabedoria médica dos Egípcios, nesta e em tantas outras áreas, não se ficava por aqui. Conhecedores das mais diversas patologias de foro cardiovascular, o enfarte de miocárdio e a “angina pectoris” mereceram-lhes uma atenção especial, conforme nos atesta o Papiro de Ebers, documento datando do ano de 1550 a.C., seguramente, cópia de um original mais antigo. Dispondo de uma riquíssima farmacopeia, prescreviam também tratamentos adequados à resolução da incómoda e dolorosa insuficiência coronária.
“ Se... tu examinares um homem sofrendo do cárdia e ele tiver dores no braço, no peito (mama) e num dos lados do cárdia, e se diz sofrer de doença... então tu dirás a esse respeito: ela é (devida) a qualquer coisa que entrou na boca, é a morte que o ameaça. Tu prepararás para ele remédios com ervas estimulantes: fruto de...tomilho(?)/, grãos  vermelhos da semente de mostarda/, os quais são fervidos com óleo e bebidos pelo homem. Tu aplicarás nele a tua mão estendida(isto é, plana), até que o braço fique bem e livre de dores. Então tu dirás: este sofrimento desceu para o verdadeiro intestino (recto?) e para o ânus; eu não repito mais o remédio”.[2]
Para além da importância médica visivelmente atribuída pelos egípcios a este órgão nobre, o coração assumia também um papel decisivo no plano da concetualização mística e escatológica deste povo, que o via como o espelho da sua consciência após a morte.
Na linha do Racionalismo médico iniciado com Hipócrates, duas outras figuras merecem ser lembradas pelos seus brilhantes contributos na área do conhecimento cardiológico: Herófilo de Calcedónia (300 a.C), considerado o fundador da Anatomia (enquanto disciplina protocientífica) e Erasístrato (300-250 a.C), natural de Keos (ilha do Arquipélago das Cíclades).
O primeiro investigador, para além de ter verificado que as artérias continham sangue e não ar, como se pensava até aí, comprovou que o pulso resultava da contração cardíaca e não da expansão sanguínea dos mesmos vasos, conforme era defendido por Aristóteles e por muitos outros seus seguidores.
Erasístrato, considerado fundador da Fisiologia e da Anatomia Patológica, descreve a anatomia cardíaca com as respetivas válvulas auriculoventriculares, as válvulas sigmoides, aórticas e pulmonares, a aorta, a veia cava, a artéria pulmonar, as artérias renais, etc.
Galeno (130-200 d.C.) de Pérgamo, grande sistematizador da medicina conhecida no seu tempo, foi, ao mesmo tempo, um experimentador incansável e um investigador original. Anatomista e fisiólogo, Galeno considera o coração não uma espécie de motor central da circulação sanguínea, mas o órgão central da função respiratória, fonte do calor intrínseco do organismo[3].
Conhecendo a morfologia das válvulas cardíacas, já descritas com grande minúcia por Erasístrato, Galeno não percebeu, entretanto, do mesmo modo que este último, o fenómeno da pulsação arterial, o qual atribui à dilatação da parede destes vasos, acreditando que há passagem de sangue do ventrículo direito para o ventrículo esquerdo através de poros localizados no septo interventricular. As suas noções sobre o trajeto do sangue através dos vasos pulmonares anteciparam em vários séculos os trabalhos de Ibn al-Nafis (f. 1289) e de Miguel Servet (1509-1553), nomes que, na História da Ciência, ficariam ligados à descoberta da pequena circulação sanguínea.
Pedro Hispano ou Pedro Julião (1210-1277), figura carismática da Idade Média Portuguesa, licenciado em Medicina e Astrologia pela Faculdade de Medicina de Paris e também o primeiro e único Papa Português na História do Vaticano (Papa João XXI), revelar-nos-ia em várias obras escritas um conhecimento profundo, à luz da sua época, de toda a  matéria médica de feição hipocrático-galénica. As suas noções de anatomia e de função cardíaca estão claramente retratadas neste excerto da sua obra: “O coração é um órgão côncavo, cavernoso em baixo, amplo em cima, e é o termo de todas as operações da alma racional, segundo o testemunho de Galeno. As operações do espírito começam no cérebro e recebem o seu complemento no coração”.[4] 
Sobre “As coisas que fazem mal ao coração”[5], o autor começa  por enumerar alguns alimentos que considera desapropriados para a saúde cardíaca: “peixes sem escamas, legumes não descascados, nabos, cebolas e tudo o que for cheio de ar e fritos” e, em especial, a ingestão excessiva de acrumina[6]. Considera também desaconselháveis “o banho a seguir às refeições e beber vinho durante o banho” (...) e “o exagero na bebida e na comida”. Como factores favorecedores de doença cardíaca, aponta “a inchação, tristeza, preocupações e qualquer causa que provoque síncope”(...), as febres “contínua e terçãs verdadeiras e todo o abcesso das vias respiratórias”, bem como o “excesso de estudo e muita meditação, coito frequente e tudo o que fizer mal ao baço”, “excesso de vigílias (...), pegar em objectos pesados, trabalhos difíceis e todo o serviço intolerável e o que quer que faça a alma entristecer-se”, porque, na sua opinião, “o coração é o princípio da vida e o termo da morte”.
A par dos inúmeros fatores e situações que considera nefastos para o bom funcionamento cardíaco, Pedro Hispano aponta-nos exaustivamente todas as “coisas que fazem bem ao coração”: “Canto aprazível e alegria moderada. Electuários bons, como o de âmbar, de alecrim, de acónito, e muitos semelhantes. Carne de animais bravios. Osso de coração de veado e de marfim. Vinho fervido com açúcar, coral vermelho e branco, pérolas, limalha de ouro e prata, em antídotos e pós; sândalos e almíscar, galanga, ácoro legítimo, cúbebas, espica-nardi, junco, pau de canela, âmbar e aloés em antídotos e pós. Hortelã-de-água e melissa, mangericão e mangerona: estas quatro ervas fazem bem aos tristes e esplenéticos. Borragem e a sua flor purgam o sangue do coração. Rosmaninho, centáurea, timo marinho, alfazema, segurelha, hipericão, betónica, valeriana[7], rosas, violetas, alquequingue [ou erva-noiva] em xaropes e antídotos. Abrótano e poejo em banhos. Calaminta, orégão, mentastro e casca de cidra em vinho do melhor, e tudo o que for azedo e aromático e quanto purgar o cérebro e fortalecer o estômago, e todo o cheiro aprazível que há nos pomares e prados, na estação da primavera, faz bem aos melancólicos e cardíacos.”[8] 
Valesco de Taranta, médico português dos finais do século XIV/1º quartel do século XV, na sua obra Philonium Pharmaceuticum et Cirurgicum, aborda no 3º capítulo as moléstias do coração e dos pulmões[9]. Contudo, a ótica com que encara esta matéria médica não se dissocia, naturalmente, dos  conceitos  galénicos  e bizantinos  dessa época  de  charneira medievo-renascentista.
André Vesálio (1514-1564), na sua monumental obra, De Humani Corpori Fabrica, publicada em Basileia, em Junho de 1543, e considerada como o primeiro tratado moderno de Anatomia, não só procede a descrições rigorosas do coração, dos vasos e das válvulas como, definitivamente, destrona a ideia Galénica do septo interventricular perfurado.
Até aos finais do século XVII, a cardiologia, não ainda como verdadeira ciência mas como área do conhecimento médico, na sua perspetiva anatómica ou fisiológica, pouco ou nada ficaria a dever ao esforço de investigação desenvolvido em Portugal por investigadores nacionais ou estrangeiros. De resto, compreender-se-á, perfeitamente, o nosso relativo alheamento ao movimento renascentista europeu, face ao peso da Igreja e das suas ideias, durante séculos um travão de considerável rigidez a tudo quanto pusesse em causa a visão “aristotélico-tomista” do mundo e da vida, em total antagonismo com a  investigação em cadáveres humanos. Entre a elite intelectual da modernidade portuguesa, apenas os judeus ousaram identificar-se com esta revolução ideológica e concetual. E não há dúvida que muitas das suas obras vieram a contribuir para o avanço das “ciências médicas” e, em alguns casos, da própria matéria cardiológica. João Rodrigues de Castelo Branco, mais conhecido por Amato Lusitano (1511-1568), com a descoberta das válvulas da veia ázigos, antecipando-se a Canano e a Fabrício de Acquapendente, possibilita uma melhor compreensão da influência destas estruturas na regulação da corrente sanguínea[10].
André Vesálio, considerado uma autoridade no campo do anatomia humana por muitos intelectuais da sua época, nem por isso ficou a salvo do espírito crítico-experimentalista de Amato Lusitano. O grande anatomista do Renascimento, Vesálio, não pressentira, assim, a existência de válvulas na veia ázigos, ou seja, desconhecera que “o sangue  não  corre  fora  nem  volta (recua) através  da  veia  sem-par” . Deste modo, o raciocínio de Vesálio é, na ótica de Amato, “inútil e vão”[11].
Fundamentando-se nas suas próprias observações, a partir das dissecções que executa em cadáveres humanos, Amato Lusitano afirma-nos, peremptoriamente, que “as (veias) que dão para esta veia sem-par, não mais voltam nem se prolongam para fora, estando certos ostíolos a opor-se e a impedir as que se apresentam abertas para receber. ”[12] Esta descoberta foi, sem dúvida, uma achega de grande significado para o conhecimento da circulação sanguínea. 
O “Iluminismo médico”, porém, a nível do conhecimento cardiológico, ficou inquestionavelmente, ligado a uma grande figura do experimentalismo científico: William Harvey (1578-1657). Com este grande mestre da Anatomia e Fisiologia Hemodinâmica, a maior parte dos conhecimentos acerca da circulação sanguínea, bem como do papel do coração, dos vasos e válvulas neste complexo processo, ficaria completa e definitivamente estabelecida.
As obras e ideias de Galeno, de Vesálio, de Amato Lusitano e, mais tarde, de William Harvey, entre outros, tornar-se-iam, efetivamente, a base fundamental do ensino e da prática anatómica e cirúrgica, geral e cardiológica, não só durante quase toda a Época Moderna, como na Contemporaneidade.
Em Portugal, contudo, e decerto na vizinha Espanha, onde o peso da ortodoxia religiosa da Igreja vedava qualquer abertura às novas ideias experimentalistas oriundas, sobretudo, dos demais países reformistas europeus, as Escolas Médicas, pelo menos, até meados do século XVIII, continuavam a seguir as orientações de Galeno e de Avicena, perpetuando conceitos e noções completamente desfasados da realidade. No domínio do conhecimento cardiológico e, em particular, no respeitante à circulação sanguínea, a descrição realizada por Harvey não parece ter tido grande impacto, entre nós, Portugueses. Deste modo, cento e dez anos após a morte de Harvey, as conceções Galénicas sobre a anatomia cardíaca continuavam firmes entre grande parte da intelectualidade médica do País. António Gomes Lourenço, na sua obra Cirurgia Clássica, Lusitana, Anatómica, Farmacêutica, Médica (Segunda Parte), “Livro VI – Do fluxo de Sangue”, publicada em 1761, retrata-nos, claramente, essa perspetiva  anatómica  “pré-Harveysiana:
 
“1. O coração é uma entranha do peito situada entre os dois lobos dos bofes e é composto de muitas fibras musculosas e tendinosas muito fortes, e postas de forma que formam duas cavidades chamadas ventrículos, um esquerdo, outro direito: tem dois movimentos, um de contracção chamado sístole, outro de dilatação chamado diástole, com os quais serve à circulação e sanguificação do sangue, com os vasos sanguíneos comuns.
2. Cada ventrículo do coração tem dois grandes vasos comuns: o ventrículo esquerdo tem a artéria magna ou [a]orta e veia pulmonar; o direito, a veia cava e artéria pulmonar. (...) Quando faz o movimento de dilatação, recebe o ventrículo esquerdo o sangue que vem dos bofes pela veia pulmonar; e o direito recebe o sangue que vem de todas as partes do corpo pela veia cava; e assim faz o sangue dois círculos, um do coração aos bofes, e dos bofes ao coração, outro do coração a todas as partes do corpo, e de todas as partes do corpo ao coração outra vez (...)”[13].
 
O autor setecentista descreve, assim, o coração como um órgão apenas dividido em duas cavidades: os ventrículos esquerdo e direito; as aurículas são, para ele, estruturas completamente desconhecidas.  
 No tratamento da patologia cardíaca, cujas perspetivas, durante a Época Moderna, eram ainda muito limitadas por falta de experimentação adequada e de métodos auxiliares de diagnóstico, aplicavam-se as velhas mezinhas de natureza galénico-alquímica e da herbanária, ocidental ou árabe, visando, essencialmente, a resolução das queixas mais imediatas do paciente. O estudo das causas profundas da doença situava-se, obviamente, nos domínios da especulação teórica e da racionalismo filosófico. Enquanto a microscopia dava os seus primeiros passos e a Física e a Química aguardavam a alvorada da Revolução Industrial, a terapêutica procurava também encontra novos rumos, novas respostas.
Frei Manuel de Azevedo, na Correcção de Abusos Introduzidos Contra o Verdadeiro Método da Medicina, obra publicada em 1668, trata ainda as maleitas de coração com sangrias [de eficácia comprovada em algumas situações de edema pulmonar agudo] e com panaceias de duvidosa ação, teriagas e unguentos, cordiais, electuários e linimentos[14] que, seguramente, não deveriam constituir grande ajuda para o doente. Eis uma dessas fórmulas seiscentistas: “E assim, para defender ao coração e ajudá-lo, convém muito [que] se faça um saquinho de tafetá, e este se encherá dos seguintes pós: das espécies cordiais temperadas nas qualidades, uma onça; sementes de cidra, e de azedas, flores de borragem, de língua de vaca. E de rosas vermelhas, de cada coisa meia onça; alcanfor [cânfora], um escrópulo[15]; sândalos vermelhos, uma oitava; raiz de angélica e de bistorta e folhas de escórdio, de cada coisa meia oitava. De tudo se faça pó subtil; e cheio o saquinho de modo que fique brando e a modo de colchãozinho, se porá sobre o coração.”[16]  Colocado o saquinho de mezinhas, sobre a região precordial, esperava-se de seguida um efeito terapêutico especialmente tonificante.
Tomé Pires, Garcia de Orta e Cristovão da Costa, entre outros estudiosos da Flora Oriental, assinalam o início da mudança no domínio dos recursos farmacológicos da Medicina. Em particular, a obra de Garcia de Orta, os Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia, constitui(u) um contributo de grande importância para o conhecimento terapêutico dos múltiplos produtos e substâncias de origem vegetal, milenarmente conhecidos e utilizados pelos povos asiáticos, comprovadamente eficazes em diversas patologias, incluindo as do foro cardiológico. Mas os homens do Renascimento e da Época Moderna, de uma maneira geral, não utilizam em seu proveito o grande manancial de recursos farmacológicos obtidos a partir da fauna e da flora da Índia, de África e das Américas; só nos séculos seguintes viria a descobrir-se, finalmente, o valor desse filão. O saber farmacopeico resultante, sobretudo, da grande evolução observada no domínio da Química analítica, viria a contribuir para uma profunda revolução terapêutica e farmacológica nas múltiplas áreas das ciências biomédicas.
O café, o chá, o estrofanto (sementes ricas em ubaína), a dormideira (a partir da qual se extrai o ópio, analgésico potente seguramente usado nos tempos mais heroicos da cardiologia seiscentista), a cinchona[17] ou árvore da quina (a partir da qual viriam a ser isolados, no século XVIII, vários alcaloides, a cinchonina, a quinina e a quinidina), a cânfora[18]  e a noz vómica são apenas alguns dos múltiplos exemplos dessa riquíssima Farmacopeia Ultramarina chegada até nós durante a Época Expansionista e dos Descobrimentos, mas só valorizada e integrada no arsenal terapêutico da melhor medicina Europeia Ocidental a partir dos finais do século XVIII.
 

BIBLIOGRAFIA

 
ACTAS CIBA, Ano VI, Nº 6, Junho de 1939
 
AZEVEDO, Manuel de, Correcção de abusos introduzidos contra o verdadeiro método da medicina, Lisboa, Impresso na Oficina de Diogo Soares de Bulhões, 1668
 
COUTINHO, A. Céu (Dir.), Dicionário Enciclopédico de Medicina, 3ª Edição (Baseada na 29ª Edição do Black’s Medical Dictionary), Lisboa, Argo Editora, 1978
 
FRANCO, Evaristo, Glórias da Medicina Portuguesa, Lisboa, Tipografia da União Gráfica, 1949
 
GOODMAN AND GILMAN’S, The Pharmacological Basis of Therapeutics, Sixth Edition, New York, Macmillan Publishing Co., Inc., 1980
 
LOURENÇO, António Gomes Lourenço, Cirurgia Clássica, Lusitana, Anatómica, Farmacêutica, Médica (...), Segunda Parte, Lisboa, Oficina de António Rodrigues Galhardo, 1761
 
LUSITANO, Amato, Centúrias de Curas Medicinais, Prefácio e Tradução de Firmino Crespo, Lisboa, Edição da Universidade Nova de Lisboa/Faculdade de Ciências Médicas, s.d., 4 Vols.
 
ORTA, Garcia de, Colóquios do Simples e Drogas da Índia, Dir. e anotada pelo Conde de Ficalho, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891-92, 2 Vols.
 
SNELLEN, H.A., History of Cardiology, Rotterdam, Donker Academic Publications, 1984
 
S.A., Descrições concordantes feitas por um médico de um Faraó e por um cardiologista contemporâneo, Lisboa, Laboratories Warner-Chilcott, s.d.
 
 


[1] “Suno ou os médicos antigos do rio Nilo”, in Jurgen Thorwald, O Segredo dos Médicos Antigos, São Paulo, 1990, p. 58
[2] “Angina Pectoris”, in Descrições concordantes feitas por um médico Faraó e por um cardiologista contemporâneo, Lisboa, s.d..
[3] A. Tavares de Sousa, Curso de História da Medicina: das origens aos fins do século XVI, Lisboa, 1981, p. 124
[4] “Livro Sobre a Conservação da Saúde – Coisas que fazem bem ao coração”, in Maria Helena da Rocha Pereira, Obras Médicas de Pedro Hispano, Coimbra, 1973, p. 462
[5] Idem,  p. 464
[6] Para Maria Helena da Rocha Pereira, tradutora da obra de Pedro Hispano, o significado da palavra  “acrumina”, foi também difícil de estabelecer. Confrontando-se, porém, com o vocábulo “acrimoni”(cebola), citado por A. Souter in “A Glossary of Later Latin to 600 A. D”., Oxford, 1949, a autora é levada a supor tratar-se do mesmo conceito. (Idem, p. 450)
[7] Dada a sua ação hipotensora, a valeriana era, obviamente, de grande utilidade para alguns doentes cardíacos.
[8] Idem, p. 462
[9] Evaristo Franco, Glórias da Medicina Portuguesa, Lisboa, 1949, p. 58
[10] “Primeira Centúria – Cura LII”, in Amato Lusitano, Centúrias de Curas Medicinais, Vol. I, Lisboa, s.d., p. 172
[11] “Quinta Centúria – Cura LXX”, in Amato Lusitano, Centúrias de Curas Medicinais, Vol. III, Lisboa, s.d., p. 254
[12] Idem, p. 253
[13] “Do coração e circulação do sangue”, Livro VI – Do Fluxo de Sangue, in António Gomes Lourenço, Cirurgia Clássica, Lusitana, Anatómica, Farmacêutica, Médica (...), Segunda Parte, Lisboa, 1761, p. 37
[14] “Capítulo IX - Ao coração, como e com que se deve acudir”, in Manuel de Azevedo, Correcção de abusos introduzidos contra o verdadeiro método da medicina, Lisboa, 1668, pp. 336-41
[15] Peso antigo equivalente a uma terça parte da oitava (antigo peso de farmácia correspondente à oitava parte de uma onça).
[16] Idem, p. 337
[17] O uso da cinchona em cardiologia aparece, pela primeira vez, referido por Sénac (1683-1770), que descreve este remédio como eficaz no tratamento de palpitações cardíacas.(H. A. Snellen, History of Cardiology, Rotterdam, 1984, pp. 35; 153). A ação antiarrítmica da quinina foi redescoberta, ocasionalmente, por K.F. Wenchebach (1864-1940), quando um doente seu lhe refere que, ao tomar com regularidade quinino para controlar os seus acessos de malária, interrompe, ao mesmo tempo, os “seus ataques de arritmia”. Na sequência destas investigações, W. Frey viria a comprovar, em 1918, que a quinidina era, dentre os diversos princípios ativos extraídos do córtex da quina, o mais eficaz no tratamento de arritmias.(Idem, p. 153) 
[18] Desconhecida por gregos e latinos, crê-se que a primeira referência ao seu emprego na História das Ciências se deva remeter aos Árabes, no VI século da Era Cristã. Também conhecida e utilizada pelos Chineses, a cânfora terá sido trazida para a Europa, em 1674, pelo médico holandês Willem tem Rhyne (Carlos Edmundo Chenaud, “Da cânfora, seus derivados e sucedâneos”, Actas Ciba, Nº 6, 1939, p. 26).  Parece-nos que Carlos Chenaud desconhece, completamente, a descrição exaustiva das propriedades conferidas à cânfora presente na obra de Garcia de Orta, os “Colóquios”, publicados em 1563, ou seja, 111 anos antes da notícia difundida por  Willem Rhyne. Garcia de Orta, no seu Colóquio Duodécimo (“De duas maneiras de Camfora e das Carambolas”) descreve-nos, alargadamente, “a árvore da camfora”, a sua origem, as suas características e algumas das suas acções sobre o organismo: “Faz sono e faz vigília, scilicet, o pouco della por fora ou dentro applicado faz sono, e o muito uso do cheiro della, secando o cérebro, faz vigiar; e isto nam he muito de maravilhar em effeitos contrairos nesta maneira.(...)”[Garcia de Orta, Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, Vol. I, Lisboa, 1891, p. 161]
Usada durante muito tempo no tratamento de “colapsos e astenias cardíacas”, a sua ação cardiotónica acabaria por ser posta em causa por diversos investigadores. Dos estudos realizados no laboratório de Fisiologia do University College de Londres, parece ter-se concluído que “a sua acção toni-cardíaca só é manifesta quando está alterado o funcionamento do músculo cardíaco.” Por outro lado, os comprovados efeitos benéficos “da cânfora sobre o coração, no decurso de doenças infecciosas”, ficarão a dever-se a dois fatores, “um circulatório, representado pela vasodilatação coronária”, da qual resulta melhor irrigação da própria máquina cardíaca, “e outro respiratório, correspondente a melhor oxigenação do sangue”. Dos sucedâneos da cânfora, hoje em desuso, destacamos a “Coramina”, introduzida na terapêutica pelo Prof. Faust, cujos efeitos se traduziam num aumento do “tónus vascular e [d]a pressão sanguínea, melhorando a irrigação miocárdio, graças à sua acção incontestável sobre os vasos coronários”, de que resultava ”um aumento da capacidade de contracção das fibras cardíacas.”(Actas Ciba, Nº 6, 1939, pp.28-31.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

LEGISLAÇÃO DA UNIÃO BANCÁRIA PROTEGE OS CONTRIBUINTES?!

“Nova Legislação da União bancária protege os contribuintes”!…deixa-me rir…
 
“A ministra das Finanças afirmou que a nova legislação sobre a união bancária garante “maior proteção” dos depósitos dos contribuintes e obriga o sistema financeiro a suportar os encargos em eventuais resgates de bancos. (…) esta nova legislação permite evitar “uma contaminação das contas públicas” em eventuais crises bancárias e “estabilizar o sistema financeiro”.
“No contexto da garantia de depósitos mantém-se o limite de garantia de 100 mil euros, mas atribui-se maior proteção aos depósitos de todas as pessoas singulares e pequenas e médias empresas, [que] durante 2015 estarão excluídos em absoluto da aplicação do resgate interno e a partir de 2016 beneficiarão de proteção legal reforçada”, afirmou Albuquerque. (…) Neste novo enquadramento quem contribuiu “para a falência das instituições é o primeiro a suportar os custos” e em caso de resolução de um banco procede-se a uma separação “do que é mau” e do “lado positivo”. (…) A partir de agora caberá aos agentes financeiros suportar os encargos para superar crises bancárias e não aos contribuintes”.
No debate da proposta, o deputado do PCP Paulo Sá acusou o Governo de querer “manter uma ilusão” e advertiu que apesar das “sucessivas alterações nos últimos anos no âmbito da regulação bancária” foram gastos “milhares de milhões de dinheiros públicos” em casos como o do BES. (…) O problema não está em mais ou menos supervisão e regulação, mas sim no facto de o setor bancário nacional ter sido entregue aos grandes grupos privados, o setor privado não esteve, não está, nem nunca estará ao serviço das populações”. Este deputado defendeu também que “o setor bancário e as atividades financeiras essenciais sejam colocados sob controlo público”.
Pedro Filipe Soares, do Bloco de Esquerda, apontou o caso BES para dizer que a alteração à legislação “não isenta os contribuintes do risco e de pagar os desmandos da banca.(…) O mesmo deputado do BE visou também o Banco de Portugal no papel de supervisor, considerando que a entidade liderada por Carlos Costa tinha “todos os indícios” de práticas ilícitas e não atuou “por falta de vontade”.
(http://oje.pt/uniao-bancaria-protege-os-contribuintes-garante-ministra-das-financas/)
A Senhora Ministra das Finanças afirmou, realmente, que esta legislação europeia permite garantir “maior proteção” aos contribuintes. E afirmou também que “ a partir de agora caberá aos agentes financeiros suportar os encargos para superar crises bancárias e não aos contribuintes”.
A mesma Ministra, porém, quando interpelada sobre esta matéria pela comunicação social televisiva, afirmou ainda  que, em caso de falência bancária, os primeiros a suportarem o impacto de uma crise deste tipo seriam os acionistas, depois os depositantes e, apenas, por último, os contribuintes. Ou seja, quando afirmou textualmente que a dita legislação garantia maior proteção ao contribuinte, era isso mesmo que pretendia dizer, já que explicitou essa ideia, sem qualquer margem para dúvidas. “Maior proteção” não é proteção total, como deveria ser. “Bruxelas” e, como é óbvio, também a nossa Ministra das Finanças continuam a contar com o altruísmo dos contribuintes para, ainda que em último lugar e forçadamente pela via tributária, virem a tapar qualquer buraco financeiro de instituições bancárias sob falência, a pretexto de se evitar o famigerado “risco sistémico”. Esta é que é a grande verdade que a Senhora Ministra não quis assumir e, fazendo uso de uma apurada retórica que já lhe conhecemos, deveria ter esclarecido melhor. E depois de tanta incompetência apontada à entidade reguladora, o Banco de Portugal (B.P.), sob a sua tutela, bem como aos diversos agentes ligados ao sistema bancário, que, debaixo das barbas dos tão inteligentes supervisores do B.P., se esmeraram em negócios ruinosos, senão mesmo em atos de corrupção, ocasionando crateras financeiras com tão graves repercussões para o país, a Senhora Ministra perdeu a sua grande oportunidade, enquanto governante, de criar as necessárias medidas à moralização do setor que tanto contribuiu para a crise e para a austeridade em que vivemos: a banca. Depois das experiências tão amargas vividas pelo Estado, isto é, por todos os portugueses que tiveram de aguentar uma carga tributária tremenda imposta com vista ao reequilíbrio orçamental abalado, entre outros fatores, por sucessivas resgates bancários, com o famoso argumento do risco sistémico, nem assim o Governo e a Senhora Ministra das Finanças se mostraram decididos a porem termo a esta brutalidade exercida sobre a grande maioria dos cidadãos e as suas magras bolsas e poupanças. Em última instância, como dá para depreender pelas suas palavras, todos os contribuintes, depositantes ou não nos ditos bancos mal geridos ou em rutura financeira, continuarão a ser doadores forçados dos seus limitados proventos, a bem de qualquer instituição bancária que caia novamente em falência. E cremos que não serão apenas os contribuintes com depósitos bancários acima de 100.000 euros, que virão a ser sujeitos a tal sangria, se nos depararmos, de novo, com um qualquer resgate bancário, idêntico aos últimos a que assistimos. Se acaso as nossas ilações estão erradas ou enfermam de exagero interpretativo, então esperemos que a Senhora Ministra das Finanças nos esclareça sobre o significado daquela “maior proteção aos contribuintes”,  a que se referia a propósito da nova legislação europeia. Ficávamos gratos. Seria melhor, entretanto, que não nos argumentasse com o caráter supranacional das orientações legislativas oriundas de Bruxelas e com a necessidade cabal de cumprir tais leis. Com a Troika, deu para ver que, “mais papista do que o papa”, o Governo aplicou sempre por excesso todas medidas que muito bem quis. Portanto, se desta vez, os nossos governantes, incluindo a Senhora Ministra das Finanças,  insistirem em continuar a meter no mesmo saco todos os contribuintes, depositantes ou não de instituições bancárias em crise, estarão, uma vez mais, a ser injustos, cruéis, tiranos, insensatos e imorais…e este são os adjetivos mais elegantes que encontramos para caraterizar a sua decisão governativa.
Se e quando uma instituição bancária privada tem bons lucros, à conta dos seus negócios e aplicações, beneficiam administradores e gestores (que auferem ordenados absurdos, escandalosos, para aquilo que produzem), acionistas, depositantes e o próprio banco. Mas os contribuintes anónimos, muitos deles que se esfolam vivos, no dia a dia, para gerirem o pouco que ganham e que lhes não possibilita qualquer hipótese de poupança bancária ou debaixo do colchão, ganham o quê? O banco distribui, porventura, lucros com tais contribuintes, esses mesmos que têm de estar disponíveis para, a par de acionistas e depositantes poderem vir a reabilitar ou a resgatar as suas dívidas?...como deixa antever a dita legislação a que se refere a Senhora Ministra das Finanças…
Melhor seria que o setor  bancário e as estruturas financeiras considerados suportes fundamentais do país ficassem, todos eles, sob a tutela do Estado. Já existe uma Caixa Geral de Depósitos e, portanto, não seria difícil aconselhar a população a apostar a confiar as suas poupanças a um banco público, com a garantia constitucional, se é que é possível garantir alguma coisa nesta crónica instabilidade e insegurança política e governativa, de que os contribuintes jamais seriam lesados em caso de resgate ou de recapitalização autorizados pelo Banco de Portugal. Ao cidadão competiria a opção de entregar ou não as suas economias a uma instituição bancária pública ou privada. Exigir-se-ia, isso sim, aos administradores, diretores financeiros e gestores destas instituições responsabilidade criminal e qualquer irregularidade proveniente de aplicações ruinosas, desvio de capitais ou eventual corrupção deveria ser tratada em sede própria, pelo recurso aos tribunais, desde que os diretamente prejudicados, acionistas ou depositantes assim o entendessem. É um assunto privado e, como tal, quem deve(ria) responder em primeira e última instância pelas falhas ou falência da instituição seriam aqueles que nela e dela beneficiaram, por opção própria e livre arbítrio.       
Assim, definitivamente, os únicos contribuintes deste país que teriam de servir de almofadas a bancos falidos ou com falta de liquidez, apoiados ou não pelo Estado, seriam somente aqueles que viessem a decidir confiar  em tais instituições. Obrigar também aqueles que não têm quaisquer ligações nem proveitos diretos ou indiretos com a atividade deste setor, esperando que os mesmos lhes sirvam de para-choques e, em caso de “acidente”, tenham também de participar no esforço de  “reatestamento” das falidas carteiras de capitais, por imposição tributária, fará sentido Senhora Ministra das Finanças?!
Onde está, então, a “maior proteção” de que falava a Senhora Ministra das Finanças?! Gostávamos de saber.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

PORTO DE ABRIGO

Porto de Abrigo
 
Dois navios, os meus olhos
No teu corpo a navegar,
Afrontam ondas e escolhos
Sem medo de naufragar
 
Cruzam marés de bonança
E fundos de calmaria,
Fundeiam onde há festança
E tesouros de alegria
 
Rompem deltas de paixão,
Exploram praias e baías,
Corsários de ocasião,
São férteis em ousadias
 
Navegando por aí fora
Sem timoneiro nem velas,
Meus olhos andam agora
Ao sabor de mil procelas
 
Neste rumo explorador,
Trago uma esperança comigo:
Que me sirvas, meu amor,
De último porto de abrigo
 
Calendas musical, 2000

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

MINH´ALMA CANTADEIRA

MINH´ALMA CANTADEIRA
 
Ouvi minh´alma a cantar
Acompanhada à guitarra
Sem nunca desafinar
Cantou o fado com garra
 
Versejou ternos abraços
Delírios e alegrias
E sem perder os compassos
Cantou doces melodias
 
Nunca a sua voz ouvira
Nem a via tão prendada
Qual prata fina ou safira
Que nunca foi apreçada   
 
Aprendeu que o sofrimento
Não passa de um enjeitado
À espera que algum talento
O cante em versos de fado
 
Minh´alma, a noite inteira,
Ouvi-lhe trovas sem fim,
Agora que é cantadeira
Que cante o fado pra mim
 
Quero sentir a paixão  
Da sua voz sublime
E esperar que essa emoção
Se espalhe em mim e me anime
 
Cante lá o que entender
A sua voz não me cansa
Mas, quando um dia partir
Deixe-me o fado de herança.
  
 Calendas Musical, 2000